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quarta-feira, 21 de maio de 2014

Começando uma Discussão sobre Ética Cristã

É interessante notar que, apesar de este tópico ser acerca da ética filosófica, precisamos pensar sobre ele pelo viés da cosmovisão cristã. Sendo assim, temos que conceber o homem criado, em comunhão com Deus e com sua razão completamente alinhada ao ideal criador (Gn 1 e 2). Com a queda (Gn 3), isto é manchado, totalmente afetado pelo pecado. O homem  busca, a partir da razão, a afirmação que ele tinha quando do alinhamento de sua razão com o Criador. Neste aspecto, a razão torna-se incapaz de fazer este realinhamento. Por isso, vemos, no decorrer da história, tantas linhas de pensamentos tentando definir a melhor maneira do homem pensar, agir e reagir no e sobre o mundo. E sendo assim, o homem vem a tornar-se o centro do pensamento, desvinculado da ideia de um criador e ser supremo e sobreano sobre todos. Na prática, isto acontece quando o homem, destituído da glória de Deus (Rm 3.23) não o glorifica por seus atos e feitos. Ao contrário, glorifica a sim mesmo e diz, com estas ações como prevê o salmista no salmo 14 (diz o insensato no seu coração: Não há Deus).  Enquanto o homem pensar que toda ética proposta deve ter como centro o próprio homem, seu bem estar, sua felicidade, autonomia, liberdade e independência, haverá sempre frustração, desencontro e morte, pois estes atos comprovam a rebeldia de nosso coração e idolatria , fazendo de nós nossos próprios deuses. E aí entramos num ponto interessante. Se houve a criação e a queda, houve também a redenção. E é nesse princípio que, como cristãos,precisamos enxergar esta produção filosófica. Temos que redimir o conhecimento por meio do Evangelho e submeter toda e qualquer proposta ética às Escrituras, que apresentam os princípios éticos santos e oriundos do santo Deus, para que assim, rendamos a devida glória a Ele (1 Co 10.31) e testemunhemos da graça salvadora em Cristo Jesus. 

O pensamento cristão, assim como todas as outras áreas da vida cristã, deve glorificar a Deus ( 1Co 10.31) e testemunhar da redenção em Cristo Jesus. Devemos reconhecer que a capacidade de produzir conhecimento vem de Deus (Ex 31.2-5, Gn 4.20-22) e o único ato devido é de honrá-lO com este conhecimento, mostrando assim que este era o propósito de Deus para o homem antes da queda e que os homens podem voltar a ter este relacionamento com o Pai por meio do Filho. Assim devemos observar todas as contribuições dadas no decorrer da história sob a ótica das Escrituras e assim construirmos nossas  ideias e embasarmos nossas ações com o fim de glorificar a Deus, longe de legalismo (evangelho do pode e não pode) e do liberalismo (pode tudo). Toda produção de conhecimento e toda prática, que aliada ao pensamento, reflete nossa ética e cosmovisão deve ser como base as Escrituras, e o princípios de que tudo posso, mas nem tudo convém deve permear nossa consciência , que deve ser cativa a Cristo. Não podemos ignorar o que tem sido concedido pela graça comum. Em contrapartida, não podemos assimilar inverdades. 

Calvino , ao estabelecer as bases de sua ética cristã , o faz em pressupostos bíblicos. Precisamos compreender o alcance temporal da Palavra de Deus. Isto é, o que era verdade bíblica no tempo de Calvino, o é ainda hoje. Sendo assim, é totalmente aplicável visto que: 1) O governo deve ser visto como algo bom e que tem como objetivo, segundo as Escrituras, promover o bem (leis justas e justas aplicações dos impostos) e punir o mal (exercício da justiça), este deve ser o foco do nosso alvo ao olhar para o governo a fim de aprová-lo ou reclamar contra o mesmo; 2) A prática do trabalho como maneira de render graças a Deus deve ser enfatizada e vivida pelos cristãos, pois a partir do mesmo, refletimos a graça de Deus, que o sustento e condições de cuidar dos nossos e dos pobres e necessitados. Se considerarmos estes pontos e observarmos que, quando Calvino aponta sua ética, ele ão está falando em puro assistencialismo, mas em o homem perceber-se como individuo indissociável de uma sociedade e que tudo que ele faz e ´produz é construção humana e social, sendo assim, manchada pelo pecado. Sendo assim, com o foco em Deus, buscamos exercer fielmente o mandato cultural e transformar (redimir) as relações por meio do Evangelho.

Por fim, só há dois caminhos. Uma ética pautada em Deus e na sua revelação (Escrituras) ou uma ética pautada na autonomia humana (cada um ou cada grupo com seu sistema ético de normas e valores). Precisamos compreender o ponto mais importante de qualquer sistema ético: o pressuposto. Sendo assim, ou reconhecemos Deus como criador a quem devemos submissão e pautamos nossa ética nas Escrituras ou pautamos nossa ética no antropocentrismo, fazendo do homem o fim de todas as coisas. 

Presb. Cícero Pereira


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Qual a Natureza do Primeiro Pecado? Com a Palavra, Franklin Ferreira

É essencial entender corretamente a natureza do primeiro pecado. Muitos cristãos têm a ideia errônea de que a questão em jogo era se o ser humano tomaria ou não do fruto da árvore proibida. Em outras palavras, a questão era apenas a de obedecer ou não a um mandamento específico de Deus. Então, sob essa perspectiva, a solução do pecado é entendida como uma questão ligada à obediência. Tal maneira de pensar propõe que a essência do discipulado, da santificação e da vida cristã consiste em obedecer às leis de Deus. O resultado é o legalismo, ou algo até pior, a noção de salvação por meio das obras. Mas tal pensamento não entende o ponto principal da questão. (...) Na verdade, ele implica uma mudança radical na cosmovisão do homem. (...) Adão e Eva enfrentaram uma escolha clara. Acreditariam na palavra de Deus, que representava para eles a própria autoridade de Deus? Ou elevariam sua própria razão acima da palavra de Deus, a fim de avaliá-la e decidir por si mesmos se seria a verdade ou não? Quem seria a autoridade final, Deus ou homem?

FERREIRA, F. Teologia Sistemática. p. 452. São Paulo: Vida Nova, 2007. 

Intercâmbio feito por Rodrigo Ribeiro

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Nova Ordem Mundial

 A história da humanidade tem sido marcada por acontecimentos que modificaram, drasticamente, os comportamentos dos seres humanos, afetando diretamente as dimensões políticas, econômicas, éticas e sociais. Geralmente, estas mudanças ocorreram após grandes tragédias, a exemplo do atentado terrorista ocorrido em 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos.

Após superar o impacto dos primeiros momentos de uma tragédia que assumiu grandes proporções procuram-se, imediatamente, explicações para as causas dos incidentes. Em seguida, a tragédia provoca mudanças de rumo que afetam a sobrevivência dos homens no planeta, verificou-se tal fenômeno após as I e II guerras mundiais. Em muitos momentos dramáticos da história da humanidade foi necessário estabelecer uma NOVA ORDEM MUNDIAL, como necessidade de adaptar-se a uma nova realidade.

Esta reflexão nos conduz aos primórdios da vida humana, expresso na literatura bíblica:
 
“E conheceu Adão a Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz a Caim, e disse: Alcancei do SENHOR um homem. E deu à luz mais a seu irmão Abel; e Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra. E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante. E o SENHOR disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante? Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” (GÊNESIS 4.1-7).

Este livro relata o início da criação e a parte mencionada descreve o momento posterior à queda do homem. A criação depara-se com uma situação caótica, a queda do homem do seu estado original alterou, terrivelmente, as condições de sobrevivência na Terra, estabelecendo uma NOVA ORDEM MUNDIAL. O capítulo acima apresenta um resumo sobre os principais aspectos desta tragédia que afetaram diretamente a vida do homem e de todo o planeta.

E A VIDA CONTINUA...

            Os quatro primeiros versículos do texto narram à vida cotidiana no contexto familiar, no ambiente de trabalho e no culto religioso. Estes três aspectos da vida humana estão relacionados ao evento da criação, citados em Gênesis no capítulo 1 a partir do versículo 26 até o capítulo 2:3.

O capítulo 4 apresenta o registro trágico do homicídio ocorrido entre irmãos, no local de trabalho como desfecho dos efeitos do culto. Neste relato sobre o início da vida a partir da queda do homem reafirma-se o propósito da criação relativo a família, ao trabalho e ao culto religioso.

A família é vista como uma instituição divina formada por pessoas criadas a imagem e semelhança de Deus, refletindo tal imagem no relacionamento entre seus membros. Adão e Eva, ao gerarem filhos, cumpriram um decreto divino. No relato referente ao trabalho, Abel e Caim desempenharam atividades decretadas pelo Criador, demonstrando capacidades peculiares aos seres racionais, criados com condições propícias ao desenvolvimento intelectual, bem como de produzir para a sobrevivência.

 Ao concluir a criação, Deus abençoou o sétimo dia, decretando que este seria separado para Sua adoração. Caim e Abel pretenderam obedecê-Lo, por meio de ofertas e sacrifícios em forma de culto religioso. O culto de Caim reprovado por Deus e, o assassinato do irmão no local de trabalho foram evidências do início da NOVA ORDEM estabelecida para a criação. No entanto, a queda não alterou os planos de Deus para a vida no planeta, pois a família, o trabalho e o culto prosseguiram, mas, estas atividades foram contaminadas pela presença do pecado no mundo.

Aplicação: Ser pais e filhos exemplares, agir com ética no lugar de trabalho e cumprir com zelo os deveres religiosos evidenciam a imagem de Deus refletida no homem. No entanto, o envolvimento ativo no cumprimento dos decretos de Deus para a criação (família, trabalho e igreja) não anula a sentença divina proveniente da desobediência.

SOB O REGIME DA LEI

         O desenvolvimento do drama, exposto anteriormente, apresenta distinções claras entre seus principais personagens. Caim, o primeiro filho foi lavrador, oferecendo uma oferta do fruto da terra ao Senhor, teve sua oferta rejeitada. Abel, o segundo filho foi pastor de ovelhas, oferecendo um animal como oferta ao Senhor, teve a sua oferta aceita. A parte b do versículo 4 apresenta o motivo da rejeição de Caim e da aceitação de Abel: “...atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou.”

 O texto prossegue narrando a indignação de Caim e, o pronunciamento de Deus decretando a NOVA ORDEM sobre a vida de Caim. Os versículos 6 e 7 destacam o pronunciamento de Deus e seus efeitos sobre a vida deste homem. Deus revela a Caim a base do relacionamento entre eles, sendo uma ratificação da aliança firmada entre Deus e Adão, “E tomou o SENHOR Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar. E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás’ (GENESIS 2:15-17).

Eis um relato estarrecedor para Caim e todos os seres humanos. Ao infringir a lei de Deus, o homem tornou-se réu, cuja sentença divina foi à morte, atingindo toda a humanidade. O Senhor, ao aceitar Abel e sua oferta revela uma aliança entre Ele e o homem diferente daquela firmada no jardim do Èden.

Aplicação: O pecado instaurou uma NOVA ORDEM MUNDIAL, tornando o homem réu dos seus próprios atos, afetando diretamente a sua relação com Deus.

O JUSTO VIVERÁ PELA FÉ

            Concluímos a reflexão anterior afirmando que ao aceitar Abel e sua oferta. Deus revelou uma aliança entre Ele e os homens, diferente daquela firmada com Adão. A oferta de Abel está diretamente ligada à NOVA ORDEM estabelecida por meio da nova aliança. Conforme Gênesis, Caim reconhecia a existência de Deus, prestando-lhe culto em forma de sacrifício. Ao ofertar do fruto da terra, ele acreditava que o produto proveniente do esforço humano poderia agradar à Deus, agindo assim desprezou as palavras que Deus havia proferido aos seus pais sobre sua justiça contida na aliança revelada em Gênesis 2:15-17. Ao oferecer das primícias do rebanho, e da gordura, Abel agiu de acordo com a palavra de Deus “E fez o SENHOR Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu” (GÊNESIS 3:21). Abel ofereceu sacrifício de um animal ao Senhor, pois foi com a pele de um animal que Deus cobriu a nudez de seus pais, portanto, ele atentou para a lei de Deus e para seus efeitos sobre os seres humanos com o evento da queda. A oferta de Abel expressava confiança na providência de Deus que segundo a sua palavra proveria um meio para libertar o homem do estado caótico em que se encontrava, assim “...pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo” (HEBREUS 11.4). 

Aplicação: Não valorizar os preceitos contidos na palavra de Deus, leva todas as atividades realizadas pelo homem, inclusive o nosso culto, uma afronta à santidade de Deus. O único meio eficaz para sermos aceitos por Deus é agirmos de acordo com a sua palavra.

CONCLUSÃO


            A cosmovisão cristã reformada entende que, a família, o trabalho e a religião são frutos dos decretos de Deus desde o início da criação, revelada no livro do Gênesis. Entende, assim, que todas as esferas da vida encontram-se contaminadas pelo pecado, devido a quebra da lei que Deus estabeleceu na aliança feita com o homem. Deus proveu um meio para restaurar o homem, transferindo as exigências previstas na lei para seu filho Jesus Cristo, revelando em seu sacrifício uma NOVA E ETERNA ORDEM, a ser adquirida, exclusivamente, pela fé. 

Presb. Amauri Ribeiro

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

UMP INDICA: O Choque de Cosmovisões: Os Atuais Rivais do Cristianismo - Davi Charles Gomes

O termo cosmovisão tem sido assunto recorrente neste blog, assim como no cenário protestante atual. A palavra está em alta e muito tem se discutido a respeito dela, mas é preciso fugir de abordagens superficiais sem maior profundidade, e neste sentido torna-se indispensável assistir a palestra ministrada por Davi Charles Gomes durante o 8º Congresso Brasileiro de Teologia Vida Nova 2012, realizado de 13 a 16 de março no Hotel Majestic em Águas de Lindóia - SP.

Invista um pouco de tempo e saiba mais sobre o conflito de cosmovisões de nossa sociedade, a fim de que possa se preparar para engajar-se conscientemente nesta que é a verdadeira batalha espiritual, a luta pela mente dos homens contra o pecado inculcado nos valores da sociedade.

Assista a palestra:


Rodrigo Ribeiro

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Análise Teoreferente De ‘O Retrato De Dorian Gray’

Introdução
Seria importante perguntar: como Oscar Wilde pode ser tão atual se ele já morreu há 111 anos? Para que uma pessoa seja tão atual, ainda que pertença a uma época diferente, é necessário que entenda bem os seus dias, em primeiro lugar, e que seja visionário, em segundo lugar. O maior diferencial, no entanto, de Oscar Wilde, em “O retrato de Dorian Gray”, é a personificação clara e bem desenvolvida dos conceitos niilista, hedonista e narcisista. Há as suas inconsistências, mas dentro de um espectro humano, poucas obras alcançam esse padrão. Oscar Wilde escreveu, expos sua visão de mundo e viveu como poucos a idolatria de si.

O AUTOR, SUA OBRA E O CONTEXTO.
Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde é um Irlandês, nascido em Dublin no dia 16 de outubro de 1854. Era de uma família de classe média, nasceu e viveu seus primeiros anos de vida num momento em que os irlandeses passavam muitas privações materiais. O pai, William Robert Wilde, era cirurgião oculista e servia à rainha. A Mãe, Jane Wilde, escrevia versos patrióticos[1].
Wilde fez fama e fortuna durante o período que excursionou pelos EUA e Canadá, no ano de 1882. Casou-se com Constance Lloyd no ano de 1884, em Paris, com quem teve dois filhos. Mesmo casado não resistiu à tentação juvenil e por isso foi condenado à prisão em 1895, ficando preso entre os anos de 1895 e 1897. A pena foi baseada na prática homossexual; ele se envolveu homossexualmente com o jovem Lord chamado Alfred Douglas. O pai de Douglas não aprovava tal vida promíscua e resolveu denunciá-lo a polícia, o levando ao tribunal. Depois de três julgamentos veio a sentença. 
Wilde era de família protestante, mas ao final de sua vida, instantes antes de sua morte, converteu-se ao Catolicismo Romano. Faleceu em Paris no dia 30 de novembro de 1900. Sua morte foi também em consequência de uma vida desregrada, regada a muitos prazeres frívolos, imorais, pervertidos. O hedonismo, o niilismo, o narcisismo e a arte pela arte foram crenças absolutamente norteadoras para o brilhante escritor. Ele morreu na ruína e de meningite, dependendo da ajuda de amigos da Itália e França.
Wilde estudou no Trinity College, em Dublin, e em Oxford. No período que ainda estudava no Trinity ganhou uma medalha de ouro de Berkeley em 1874, por um trabalho em grego sobre os poemas helenos. Ganhou outros tantos prêmios, elogios e foi aclamado como um dos principais líderes do movimento estético, sendo o criador do dandismo. Movimento estético marcado pela ideia de que a vida deveria ser baseada nas “preocupações artísticas como forma de enfrentamento dos problemas do mundo moderno”[2].
Mesmo depois de sua prisão, a sua derradeira obra expressiva foi “A balada do presídio de Reading” (1898), aclamada obra até os nossos dias. Na verdade, Oscar Wilde pode ser nomeado entre os principais dramaturgos, poetas e romancistas de todos os tempos, mesmo depois de tão grande declínio em sua vida pessoal. Ele se perdura pelas décadas e certamente permanecerá pelos séculos por meio de suas obras.
Em 1890 foi publicada a primeira versão da obra de Wilde que mais nos interesse nesse momento, “O retrato de Dorian Gray”. Essa versão foi publicada, primeiramente, na revista “Lippincott’s Monthly Magazine”. Em abril de 1891 ele ampliou e alterou a obra e foi publicada por Ward, Lock e Company[3].
A obra foi produzida no período conhecido como “era vitoriana”. Wilde viveu no momento em que a rainha Vitória estava no poder e proporcionou significativo progresso para os britânicos. É certo que nesse mesmo período alguns irlandeses passavam por várias privações, contudo, por causa do expansionismo do império britânico, prosperidade, riquezas e paz (pax britânica) fizeram com que os britânicos desfrutassem de regalias e principalmente os aristocratas da época vivessem em grande ócio.
Por meio dessa e de outras obras, Oscar Wilde criticou essa visão progressista, expansionista e industrial do seu período. Um dos propósitos de “O retrato de Dorian Gray” é mostrar também a baixeza humana. Wilde apresenta um ser humano refém de manipulações, desejos, paixões, prazeres e crenças não adequadas, supostamente, à pessoas tão superiores. 
“O retrato de Dorian Gray” foi um marco para a sua época e tem influenciado as gerações que têm tido contato com essa tão profunda obra sobre o ser humano decaído de seu estado original. Todavia, não é nossa intenção fazer o trabalho sobre a obra literária, mas sobre o filme lançado em 2009 (última versão cinematográfica da obra) que chegou ao Brasil em 2011, sob a direção do cineasta Oliver Parker.

NARRATIVA E ANÁLISE DA HISTÓRIA
As principais figuras dessa história são Dorian Gray, a personagem principal, que dá nome a obra, Lord Henry Wotton e o talentoso pintor Basil Hallward. Todos da aristocracia britânica. Essas personagens dominam os diálogos ao logo da obra e são responsáveis por expressar, principalmente Lord Henry, a maioria dos conceitos que norteiam a obra. Dorian Gray é basicamente o interiorano mancebo que aprende e vive coerentemente esses conceitos.
O filme começa com uma cena muito forte. O jovem Dorian Gray aparece cravando, repetitivamente, um objeto pontiagudo no peito de Basil Hallward, com quem tinha grande amizade. No começo do filme não havia essas informações, mas ao logo do filme se revela o grande contato que existia entre os dois. A cena é tão forte que o sangue jorrava no seu rosto e ele demonstrava prazer, satisfação, gozo em fazer aquilo.
Voltando um ano, é revelado um Dorian Gray ingênuo, cuidadoso, atencioso e tranquilo, ao ponto de ser crédulo, sensível e consciente. Ele chega do interior encantado com o tamanho de Londres. Na sua chegada muitas pessoas reparam na sua beleza, uma das primeiras falas no filme é um comentário de relance de um grupo de jovens na estação. O comentário foi curto e emblemático: é belo.
O empregado de sua residência, herdada de seu violento avô, o retira do meio dos jovens que claramente tentava se aproveitar da ingenuidade e sensibilidade do rapaz. Chegando a sua casa, sobe até o local onde o seu avô o mantinha preso e o espancava, deixando profundas cicatrizes nas costas e na alma de Dorian. Depois ele aparece tocando piano numa apresentação à aristocracia londrina. Basil Hallward estava no local e se encanta com a beleza do moço. Ele passa a rabiscar o protótipo do retrato que iria produzir.
Num segundo momento Basil está pintando o retrato de Dorian. Nessa oportunidade ele se choca com as marcas nas costas de Dorian. Basil, depois dessa cena, leva o jovem Dorian, ainda ingênuo e sensível, para uma festa e nessa festa ele conhece outro algoz da sua vida, o Lord Henry Wotton.  Henry se encanta com Dorian e resolve moldar, trabalhar ou aperfeiçoar o “bondoso” Dorian Gray.
Dorian, Basil e Henry aparecem agora na casa de Basil terminando o retrato de Dorian. Oportunamente, nas poucas falas do jovem até o momento, Dorian pergunta se Basil não se cansava de olhar para ele. Basil respondeu que não, pois quanto mais olhava, mais ele via. Essa cena alimentou a curiosidade de Henry que desejava ver a qualquer custo a pintura. Eles valorizavam muita a arte, e eram seguidores do princípio da arte pela arte. Logo, a pintura de um jovem tão bonito, feita por um artista tão talentoso, geraria uma curiosidade imensa no lord, como de fato o foi.
Basil não permitiu que ninguém visse o retrato antes que ele fosse totalmente terminado. Ele propôs “tomar uma fresca” e foram para o subúrbio de Londres visando um local denominado por Henry de “clube do inferno” e que foi chama depois de “sua igreja”. Estavam eles no “clube do inferno”, “igreja de Henry”, Henry começa a sua doutrinação mais agressiva, mais direta a Dorian. Ele devaneia mais ou menos assim: não existe vergonha no prazer, Sr. Gray, o homem deve ser feliz, mas a sociedade quer que ele seja bom, e quando ele é bom raramente ele é feliz; porém, quando se é feliz sempre se é bom; você quer ser bom e feliz, Sr. Gray? Dorian responde: Não há um preço a pagar, um efeito na alma? Henry retruca: Na alma (?), esta é minha igreja e com este gole entrego a minha alma ao Diabo. Aquele local de promiscuidade de toda natureza revelava que tipo de prazer, felicidade e liberdade Henry tinha idealizado.
Basil diz que Henry é um eloquente filósofo da tolice, parecendo fazer a função da consciência e da razão em todo o filme. A conversa continua em meio a pessoas fazendo sexo, bebendo e se drogando. Henry diz: As pessoas morrem por bom senso. A vida é um momento e não há futuro (niilismo). E já que Dorian tinha o que se deve desejar, a saber, beleza e juventude, logo, Dorian tinha que se entregar aos prazeres que seu coração vislumbrasse. É a doutrinação niilista-hedonista levada ao absurdo ou a máxima lógica interna. Nesse momento Dorian ainda estava em meio ao dilema de se entregar ao prazer e narcisismo ou permanecer fiel à pureza de sua alma.
Aos 18 minutos do filme, o retrato de Dorian Gray fica pronto e a idolatria a si mesmo brota no coração e se revela nos seus olhares, gestos e palavras. O retrato exerceu um poder de fascínio sobre o jovem. Basil e Henry estão encantados com o trabalho final e Dorian parece impressionadíssimo. O narcisismo passa a se juntar ao niilismo e hedonismo ensinados por Henry. Contudo, ainda é tudo muito embrionário. Nesse mesmo episódio, num rompante, ele começa a ouvir as sutis provocações de Henry que o instiga a fazer um pacto com o Satanás. Dorian Gray ouve uma apologia à juventude e à preservação da beleza, ouvindo que “murchamos e ficamos marcados porque os deuses são odiosos”. Isto quer dizer que a culpa pelo envelhecimento e perda da juventude era de deus. Consequentemente, o melhor é se entregar ao relacionamento pactual com Satanás, pois ele dará o desejável permanentemente.
Dorian então se pergunta em voz audível: acho que devo dar minha alma ao diabo?! Henry considera razoável trocar a “alma” pela juventude e a beleza. No filme a juventude e a beleza são sinônimos de prazer, felicidade e superioridade sobre a matéria, que se acaba por ser inferior. A arte é o “termômetro” e “molda” tudo na realidade, inclusive redime ou eleva a matéria de um patamar ruim e inferior, a um nível superior e redimido pela arte. Observa-se ao longo do filme que nenhum deles se ocupa com trabalho que não seja a arte, a literatura, o teatro e os prazeres. Gray, depois de ter tocado pela primeira vez no retrato, diz, aos 19 minutos e 31 segundos de filme, que sim, que entrega a sua alma ao diabo. Henry, então, simbolicamente, pega uma pétala de rosa vermelha, significando a paixão e a beleza juvenil (a pétala é sedosa como a pele de uma pessoa jovem), e a queima como uma espécie de selo do pacto.
Qual a dinâmica entre essas personagens, mais especificamente Dorian Gray, e o retrato pintado por Basil e tão elogiado por Henry e todos os que faziam parte do circulo de amizades?  Assim como Jesus Cristo, que no Cristianismo é revelado como Aquele que resgata os pecados do seu povo, o retrato de Dorian Gray levaria sobre si todas as mazelas acumuladas pela vida assassina, prostituta, homossexual, drogada, bêbada, hedonista, narcisista, niilista, enfim, destrutiva que o jovem, mas, não mais ingênuo Dorian, levaria sobre si.
Quando o retrato foi divulgado, todos ficaram impressionados e grande idolatria foi produzida à sua figura. Como pontuamos anteriormente, Dorian ainda não vive toda a potencialidade destrutiva e idolátrica que o seu coração começava a produzir com todas as suas forças e com a ajuda de “Satã” (que na verdade é a arte).
Ele conheceu uma jovem atriz, a quem amou e com quem quis contrair matrimônio. Henry ficou incomodado com a possibilidade do jovem “estragar” sua vida casando-se. Todos reprovaram. Henry, por sua vez, o levou para a sua “igreja”, onde mais uma vez Dorian passa por uma intensa doutrinação. Dando mais vazão às consequências do pacto diabólico e idolátrico que fizera.
Um dos pontos interessantes do relacionamento entre a jovem atriz e Dorian é quando eles têm a primeira relação sexual. Dorian, nessa noite, tem um pesadelo com o seu algoz avô. Ele acorda repentinamente assustado e acaba quebrando, com a mão, uma lanterna de vidro. Dorian cortou a mão e enquanto era tratado pela jovem, ela diz que ele ficará com uma cicatriz. Ele responde que já tem outras cicatrizes e tenta mostrar as cicatrizes que têm nas costas, produzidas pelos maus tratos do avô. Para surpresa dele, não havia mais qualquer cicatriz, pois elas já estavam colocadas sobre a pintura, que já começava a sofrer os efeitos das danações do rapaz. A mão dele também sara repentinamente e não há qualquer cicatriz. Nesse ponto do filme, a aparência de Dorian no retrato já começa a modificar e a sofrer visivelmente os danos que deveriam estar sobre Dorian.
Voltando à “igreja de Henry”, ou “clube do inferno”, antes de Dorian se entregar aos prazeres mais baixos, que provocaria o término do noivado com a jovem atriz, Henry diz coisas como: Consciência é um nome mais educado para covardia. Nenhum homem se arrepende do prazer. A única maneira de se livrar de uma tentação é se entregando a ela. Sempre procure novas sensações. Não se obrigue de nada! Não tema Dorain, o mundo é seu. Por uma temporada. Com essa tão aguda doutrinação, Dorian se deixa convencer pela lógica de Henry e assim se entrega à luxuria, promiscuidade e sadomasoquismo. Quando ele chega a sua casa, depois de uma discussão com a sua noiva e término do noivado, ele observa que sua figura está danificada e a retira do local de destaque e coloca-a no local onde ele era trancafiado e sovado pelo avô.
No outro dia, quando descobre que a moça se suicidara, ele ficou muito triste. Henry tenta e consegue, em meio a mais uma de suas doutrinações, convencê-lo de que nada aconteceu por culpa do moço. Dorian diz que não sabe ser assim, insensível. Henry diz que isso não é ser insensível, mas é encontrar uma perspectiva. Inclusive, será uma das frases mais repetidas por Dorian no seu período crítico de entrega aos prazeres, niilismo e narcisismo.
Impressionantemente, Dorian acorda no outro dia, depois da morte de sua ex-noiva, uma pessoa ainda mais diferente para pior. Parecendo outra pessoa, muito, muito mais insensível e destratando as pessoas. Dorian, depois da morte de sua noiva, começa a viver em toda a sua coerência e intensidade as vãs filosofias ensinadas por Lord Henry. Em muitas oportunidades, Basil diz a Dorian que ele não deve acreditar nas coisas que Henry diz, pois Henry mesmo não acredita nelas. Todavia, Dorian se entrega cada vez mais a elas.
Ele se entregou às drogas, ao sexo sem regras com adolescentes, senhoras casadas, às relações homossexuais com vários homens e mulheres ao mesmo tempo, à bebedeira e ao desprezo pelos outros em nome do seu prazer e amor a si mesmo. É verdadeiramente, para Dorian, uma cosmovisão para se viver em toda a sua força e vigor.
Numa festa inesquecível, segundo os convidados, na casa de Dorian, em meio a muita promiscuidade, ele se desentende com Basil. Basil deseja expor o retrato de Dorian numa exposição. Dorian sabendo que não seria possível, visto que a pintura estava contaminada pelas suas mazelas, diz que não pode emprestá-la, pois é muito preciosa. Isso acaba irritando profundamente o seu amigo. Depois dessa situação, que aconteceu durante a festa, na presença de muitas pessoas, Dorian procura Basil no final da festa e tem o primeiro contato homossexual com ele. No final da festa, quando todos já foram embora, Dorian resolve mostrar a pintura e expor os motivos que o levam a não emprestar a pintura.
Quando Basil se depara com a pintura fica profundamente assustado. Ele diz que não foi aquilo que ele tinha pintado. Dorian estão se deixa tomar pelo espírito hedonista, porém, principalmente, pelo narcisista. Havia um espelho quase na frente do quadro, onde Dorian podia ver-se e contemplar sua beleza e juventude, ainda que seu retrato estivesse apodrecido e envelhecido pelos seus pecados, mostrando o que de fato ele era.
Basil afirma que ele precisa de ajuda de um padre ou feiticeiro. Ele também propôs queimar o retrato. Dorian rebate dizendo que eles fizeram juntos o retrato, que lhe permitia não envelhecer. Basil, assustado, tenta fugir e, emblematicamente, Dorian pega um pedaço do espelho, no qual ele se contemplava em comparação com o retrato, e crava no pescoço de Basil, o matando, depois esquarteja o corpo e, por fim, joga-o ao rio.
A frase mais significativa desse momento tenebroso é dita nesse diálogo entre ele e Basil. Dorian diz, aos 59 minutos de filme, que é um DEUS. Ele declara aqui o que é mais óbvio e sensato segundo a visão de mundo que ele alimenta. Somente depois dessa declaração Basil propõe a destruição do retrato, mas a destruição do mesmo seria o mesmo que matar ou arruinar Dorian. Por isso, Dorian não poupou a vida de um precioso amigo. Ele estava dominado pela idolatria do eu e pela busca do prazer.
Cinicamente, Dorian se apresenta surpreso com a morte de Basil na manhã seguinte. Inclusive, fala poeticamente no enterro em homenagem a Basil. Com isso, ele decide sair pelo mundo buscando prazeres e viver plenamente o seu endeusamento, ou seja, a idolátrica vida proposta pelo seu coração, raiz de todos os males que assolam sua vida. Henry é procurado para acompanhá-lo nessa viagem em busca do pleno prazer. A esposa de Henry estava grávida e por isso (o primeiro ato mais visível de incoerência de Henry) decidiu não ir e ficar com sua família, se deixando dominar por alguma coisa. Atitude contrária à tola filosofia ensinada por ele a Dorian.
Dorian, portanto, passa alguns anos vivendo ainda mais plenamente a filosofia ou cosmovisão ensina por Henry. Quando retorna, todos ficam atônitos, estupefatos e boquiabertos com a jovem e bela aparência de Dorian, o que causa orgulho em Henry e nostalgia ao mesmo tempo. No entanto, Dorian se mostra desencantado com a vida. Ele está triste, ainda que jovem e belo. Tudo lhe parece uma prisão, inclusive o prazer e a sua imagem bela e jovem. Ora, todos envelheciam e tinham o correr de suas cronologias em plena normalidade.
A filha de Henry se encanta por Dorian. Entre as muitas conversas reservadas entre os dois, Dorian disse: prazer e felicidade são coisas diferentes. Chegando ao ponto de maior coerência segundo a tola filosofia niilista-hedonista-narcisista (a filha de Henry diz que eles dois fazem o mundo em pedacinho), pois em nada há real significado que produza sentido de vida correto aos homens sem Deus. Dorian estava cansado, segundo Henry, e parte disso se devia ao fato de Dorian ter se afastado dele. A verdade é que o problema permanecia mesmo estando perto de Henry.
Dorian procura ajuda, liberdade, redenção. Ele procura um padre e nessa conversa ele revela o que realmente todo homem é. Coerentemente diz que a sua face bela e jovem não apresenta a realidade de sua alma, pois por dentro ele é podre, sujo como o seu retrato revela. Uma das repetições dele nessa conversa era que ele queria ser livre, ser puro. É a fase em que ele quer saber qual a solução para os seus problemas existenciais. A solução não foi encontrada com as respostas do padre, ainda que ele tenha falado de arrependimento, pois o arrependido Deus recebe. A solução estava na destruição do retrato, segundo o filme, e assim na sua própria morte, como consequência mais severa da sua cosmovisão. Ele mesmo se deixou morrer quando percebeu essa verdade. Entendo que essa é a sentença de Deus para o pecado, a morte. Sem redentor, há morte!
Como Dorian chegou a essa solução? Dorian começou a, sinceramente, se apaixonar pela filha de Henry, mas Henry não gostou e, incoerentemente, quis dificultar o relacionamento entre os dois. Sendo que ele mesmo, numa oportunidade há alguns anos, havia incentivado Dorian a desvirginar uma adolescente, filha de um Lord muito importante e seu amigo. O fato de Henry não aceitar o relacionamento entre Dorian e sua filha provocou um desentendimento entre eles, Henry e Dorian. Num determinado dia, Henry resolveu ludibriá-lo com uma festa onde ele declarava aceitar a união entre os dois.
 Na verdade, Henry estava criando uma oportunidade para ter acesso ao retrato e assim descobrir o segredo de sua juventude e beleza. Dorian percebeu e imediatamente foi até a sua casa tentar impedir Henry de descobrir o quadro. Nessa situação, houve uma luta entre os dois. No final, Henry consegue trancar Dorian dentro do quarto onde estava a pintura, depois de ter ateado fogo no quadro. Dorian, então, pega uma espécie de espada e crava-a no peito da figura, “matando-se”. Ele teve a oportunidade de sair do quarto, mas ele mesmo pediu a filha de Henry que tentava tirá-lo do local, para que o deixasse lá dentro para morrer e por um ponto final em tudo. O filme termina com Henry, o incoerente, vivo e esnobando o rapaz já morto, diante de seu retrato que ficou intocado, somente a moldura queimou um pouco.
O fim de Dorian, assim como o seu começo, passou pelas mãos de Henry, que ensinou Dorian, no início, a fazer tudo pelo prazer. No final Dorian entendeu que prazer é muito diferente de felicidade e que Henry, por sua incoerência, sobreviveu. A incoerência parece ser melhor do que a coerência, segundo o filme. Assis Chateaubriand disse: “a coerência é a lógica dos idiotas.[4]”
É importante destacar que a lógica ou coerência interna desta obra literária, retratada resumidamente por este filme, é espantosa. Dentro de uma visão puramente idolátrica ou humanística, esta é uma das obras mais coerentes ou que melhor retratam a vida de uma pessoa sem Deus levada ao absurdo.
O filme é dividido em três momentos: 1º O momento em que Dorian chega do interior e demonstrar ser claramente uma pessoa pura, ingênua, sensível. Aparentemente compatível com padrões básicos da moral cristã. 2º O momento em que ele é manipulado e foi assim corrompido pela doutrinação de Henry e passa a viver intensamente dessa forma. 3º O momento em que ele chega ao fundo do poço existencial e moral. Momento em que ele busca ser livre, ser puro. 
Superficialmente analisando, parece ser mais grave a relação homossexual, a prostituição, o sadomasoquismo, a bebedice, o uso de drogas, ou seja, a vida transviada como um todo. Certamente, Deus ensina que todas essas coisas são pecaminosas. Evidentemente que essas atitudes revelam o cerne da cosmovisão que guia a vida de Gray. Esmiuçando, entretanto, a obra mais atentamente, abundantemente se encontram os fatores que são a fonte inquestionável das práticas tão odiosas, a saber: o niilismo, o hedonismo, o narcisismo e, principalmente, a incredulidade e a idolatria.
Nela encontramos também um entendimento subjacente que coloca o homem como um ser bom em seu âmago, mesmo depois da queda. Eles não creem na teologia da queda e da depravação radical do homem, expostas claramente nas Escrituras (Gn 3; Ef 2: 1-3). Dorian Gray é o representante de todos os seres humanos que chegam ingênuos do interior e são contaminados pela forma de viver niilista, hedonista e narcisista, ou seja, idolátrica e incrédula dos centros mais desenvolvidos. Para Wilde, os homens podem ser e são corrompidos, ainda que tenham no fundo uma natureza boa, pois na verdade o que corrompe ou preserva o homem é o meio onde ele vive. Por isso, a obra fala de manipulação e suscitação de apetites reprimidos pela moralidade cristã, tão indesejável.
A ideia de deus, principalmente, é culpada pelo fato dos homens não conseguirem viver felizes. Para resolver esse problema é incentivada a perspectiva narcisista, pondo a si mesmo como o seu próprio deus; e foi ensinado a Dorian que ele deveria não querer ser bom, pois se o homem for bom, segundo a moralidade ou a consciência, ele não seria feliz. Dorian foi ensinado por Henry a não ser mais sensível a consciência e a desacreditar nos princípios morais inibidores da busca pela felicidade.
Num primeiro momento, é normal a busca desenfreada pelo prazer, pois o homem vê o resultado imediato ou percebe a resposta rápida aos seus sentidos; e sendo o homem um deus e tendo o “deus cristão morrido”, não há mais, portanto, limites impostos pela moralidade externa ao homem. Inibir os prazeres do homem, o senhor de si, estar na qualidade e no mesmo nível do pecado para o cristianismo.
Daí surgem as relações luxuriosas, promiscuas e insensíveis de Dorian. Não é a manipulação do meio, não é a luxuria, a promiscuidade, homossexualidade, as drogas ou prostituição que causam o afastamento de Dorian ou de qualquer outro ser humano da bondade original (ou coisa que o valha), mas, sim, o fato inalienável de estarmos profundamente alienados pelo pecado original bíblico, relatado nas Escrituras, que escravizou o homem à condição de buscar loucamente ser como Deus. O tolo diz no seu coração que não há Deus, pois ele mesmo quer ser Deus e vive uma vida desregrada aos olhos de Deus porque ele crer em si mesmo como sua vara de medir (Sl 14).
Vivendo uma vida de coerência elevada ao absurdo, Dorian descobre que só há infelicidade em ser o centro de todas as coisas. Ser o centro gravitacional de “seu universo” é fardo insuportável. O prazer não gera mais felicidade, como Henry o ensinou. Existe, sim, uma incoerência entre o que se fala em nome do prazer, do narcisismo, do niilismo e a realidade daqueles que vivem segundo essas crenças. Basil já o havia alertado para tais tolices ensinadas por Henry; inclusive, nas entrelinhas, alertando para o seu devastador efeito. Contudo, Dorian descobre isso tarde demais, pois a única coisa que o pode salvar é a destruição daquilo que lhe aprisiona e conserva a sua vida. O retrato desempenhava um papel muito similar ao de Cristo para a sua Igreja. Sem dúvidas, nesse romance, o retrato de Dorian Gray é uma personagem redentiva.
A Palavra de Deus nos ensina que o salário do pecado é a morte (Rm 6: 23) e certamente a solução para aqueles que não conhecem a Cristo é a morte. Dorian e o grotesco monstro que estava no retrato, que na verdade é Dorian no seu interior, deveriam morrer. 
Dorian, um pouco antes de matar Basil, chega ao ápice da tentativa de viver a sua crença quando se proclama um deus, como de fato todo o enredo faz parecer dizer e como anteriormente já argumentamos. Isso quer dizer que a cosmovisão dele é baseada na crença de que ele pode todas as coisas como um deus poderia todas as coisas em busca de sua plena satisfação, felicidade, prazer. Dorian poderia permanecer jovem, belo e sem danos, buscando toda sorte de prazeres, felicidades e sentido para viver; o falso gosto da ilusória imortalidade e da ilegítima eternidade fez com que ele se visse um deus. Ele também poderia responder aos dilemas essenciais da humanidade: quem eu sou? Qual a natureza, tarefa e o propósito do ser humano? Onde estou? Qual a natureza do mundo e do universo onde vivo? O que está errado? Qual o problema básico ou obstáculo que me impede de atingir a satisfação, a felicidade e a completude? Como posso entender o mal? Qual a solução para o mal? Como posso vencer, superar o impedimento para a minha realização? Como encontrar a salvação?
Henry ensinou e Dorian aperfeiçoou e viveu o quanto pôde as pseudo-respostas proporcionadas por essas vãs crenças no narcisismo, hedonismo e niilismo. Fundamentadas tão somente na incredulidade e idolatria do homem apóstata. O fundamento visível ou declarado era a sua juventude e beleza, pois essas são as duas coisas mais desejáveis, segundo Henry. Só que essa vida não se perdurou por muito tempo. O homem não foi criado para ser igual a Deus e nem para agir igual a Deus. Esse foi o pecado de Adão e Eva, eles queriam ser como Deus e como Deus ninguém pode ser. Não há bondade no homem pós-queda, mas podridão, impureza e escravidão, como Dorian reconhece buscando a solução para os seus pecados. Dorian procurou principalmente uma solução para as suas falsas crenças, motivações, afeições, paixões e motivos últimos para a existência. É impossível encontrar verdadeira resposta nas tolas e vãs crenças que ele havia aprendido com Henry. Ele alcançou o ponto do desespero. 
Aparentemente as coisas podem até parecer boas para os que não conhecem a Deus e são movidos por crenças, motivações, afeiçoes e paixões últimas pelo eu. Todavia, enfim, elas se revelarão destrutivas, mortais e aprisionadoras. Deus criou todas as coisas para determinados fins (Pv 16: 4) e sem sombra de dúvidas o homem não foi criado para ser senhor de si e determinar a si quais são as fontes da veraz alegria, prazer santo e satisfação adequada! A resposta para tais coisas e fonte para tais necessidades só se encontram em Deus, o verdadeiro, santo e eficiente Deus. A tão almejada, desde o Éden, autonomia ou emancipação de Deus é uma quimera de mau gosto!
O dualismo da obra se revela em coisas simples: em toda a obra não se encontram pessoas trabalhando ou valorizando a matéria desassociada da arte ou do belo (Ec 5: 19). Bem como nas questões de dilema moral não encontramos padrão de ética, visto que há necessidades instintivas e, ao mesmo tempo, sem qualquer prova aceitável de fonte autoritativa, se exige do homem um procedimento ético que depõe contra os instintos lógicos do prazer e da felicidade.
Isso tem a ver com o entendimento filosófico encabeçado por Oscar Wilde, o esteticismo. O trabalho era visto como algo inferior e a arte era superior, e pela arte tudo se explicava e nela encontravam-se respostas para os dilemas atuais. Viver pela arte e para a arte era o ideal almejado por eles para redimir e elevar a matéria ao nível superior, que passava pelo trabalho do artista. O movimento estético cobiçava, também, incorporar perfeitamente à vida cotidiana o princípio da arte pela arte.
Wilde, então, platonicamente, fez uma junção interessante. Entende-se, a priori, que uma vida de prazeres traz efeitos devastadores à alma (não racionalmente verificáveis) e ao corpo (provado pelo envelhecimento e etc); a arte elevará a condição em que o corpo se encontra por causa da vida desregrada, em nome da busca pelos prazeres da vida. Ou seja, a arte sarava as mazelas de Dorian para que ele pudesse viver uma vida prazerosa e feliz, justificada por um estranho sentido místico-religioso (o pacto com o diabo). Na verdade essa é uma ideia apóstata, visto que põe a arte como salvação. Salvação essa que é a manutenção e preservação da busca pelo prazer, pois o retrato preserva a juventude e a beleza de Dorian – instrumentos indispensáveis para se alcançar o prazer.
A alma, por sua fez, ficou por conta da satisfação que a preservação nos prazeres poderia produzir à deleitosa alma. Melancólico engano, a alma apodreceu e o corpo ficou belo! Não ficou tão claro, mas nas entrelinhas, há um menosprezo pela crença na alma. A consciência ou a alma é uma desculpa dos covardes, segundo Henry. Assim, se tudo estivesse bem esteticamente e o ímpeto pelo prazer não estivesse sendo reprimido, logo, a alma estaria intacta. Na realidade, não é assim que as coisas são e no final a consciência, a alma, ou seja, o homem interior foi profundamente afetado e a redenção e as crenças de Dorian não foram eficientes e suficientes. De tudo o que se deve guardar, guarda primeiro o coração (Pv 4: 23). A Escritura também nos ensina que, depois de salvos, salvos de verdade, devemos glorificar a Deus no corpo (1Co 6: 20). É simples, se o corpo glorifica, quem glorifica é o homem e não somente a alma ou não somente o corpo, mas o homem.  
Os dois principais e mais dilacerados erros dessa obra literária cinematografada são, em primeiro lugar, o endeusamento de Dorian e a adoração a ele. Somente Deus deve ser glorificado e cultuado (Sl 22: 23). A partir dele tudo o mais deve ser vivido, ou seja, devemos gozá-Lo para sempre (Sl 50: 23; Ec 2: 24-26; Rm 15: 13; Jo 15: 11; 17: 13). Este é o fim principal do homem. Em segundo lugar, fizeram da arte a salvação (justificação, regeneração, santificação e glorificação) para os seres humanos. É como Satanás que tenta ser Jesus Cristo (Ap 13 e 14). Ele tenta, tenta, mas nunca consegue. Jesus Cristo é o único salvador dos pecadores (Rm 8: 33-34).
Por fim, importa destacar que Dorian Gray pode sim ser um bom exemplo para os cristãos, num determinado sentido. A maneira com que ele vive as suas crenças idolátricas, aplicando-as o mais coerentemente possível, nos desafia como cristãos. Oscar Wilde apresenta uma personagem que busca viver, como último sopro de sua vida, as suas crenças, formando claramente uma cosmovisão e uma ética. Muitos cristãos estão acomodados às facilidades da ignorância e da incoerência. A vida de alguns cristãos é tão diferente da vida cristã que, na prática, se vê que não creem corretamente e por isso não há a possibilidade de viverem coerentemente e corretamente o cristianismo bíblico.
É como quando nos encontrávamos no mundo de pecado, alheios e alienados da verdade libertadora (Jo 8: 32). Até que um dia alguém que já fora chamado por Deus nos ensinou sobre a libertação do velho homem em Cristo Jesus. Disse-nos que nEle teríamos real felicidade e prazer, pois podemos nos deleitar em sua preciosa Palavra e Salvação (Sl 1: 2; 35: 9). Os crentes em Deus têm a obrigação de viver coerentemente a crença única e verdadeira (Fp 1: 27; Tg 2: 12). Formando, sem tanta sofisticação no começo, um sistema de crenças refletidas e vividas de acordo com a Palavra de Deus e retro examinadas pela Palavra de Deus. A nossa fé, como dom de Deus para confiar em sua Palavra, deve moldar tudo o mais em nossas vidas, mas não só moldar a substância de nossa existência, mas transformar as nossas motivações, afeições, crenças e paixões.
A diferença é que não nos encontraremos com a contradição entre nossa crença e a realidade no fim de nossas vidas. Ao final nossa esperança se concretiza plenamente. No final de nossas vidas, quando para alguns não haverá mais sentido em nada do que se fez sem Deus, veremos que tudo estava bem e sempre caminhou muito bem, pois a nossa frente estava aquele que é “o caminho, a verdade e a vida”, Jesus Cristo (Jo 14: 6). Infelizmente muitos cristãos têm agido mais como Henry, que mesmo tendo sido o mestre de Dorian, fazia de sua crença um esporte ou um passatempo tolo, considerado que sua incoerência sempre falava mais alto do que levar a cabo todos os seus devaneios. O ponto nevrálgico dessas crenças é que elas são muito coerentes na teoria, mas na realidade são autodestrutivas para aqueles que teimam em ser coerentes com uma coisa incoerente por natureza. Henry seria um exemplo mais real daquilo que os ímpios vivem de suas crenças.
A Palavra de Deus diz que devemos ter prazer na lei do Senhor (Sl 1: 2); que ela seja o único prazer do cristão. A Palavra de Deus diz que somente a Ele devemos prestar culto, que seja Ele então o único a ser adorado (Ex 20: 3-6). A Palavra de Deus diz que se deve adorar a esse Deus na beleza da sua santidade (Sl 27: 4; 96: 9). A santidade é bela, o que é santo é belo e o que é belo é determinado por Deus que é santo. A Palavra de Deus diz que só existe um Deus e somente Deus é digno de culto. Creiamos e vivamos coerentemente assim para a glória do Deus santo!

Rev. Renan de Oliveira

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Cosmovisão Cristã: Um Breve Resumo

Cosmovisão significa basicamente “visão ou concepção de mundo” o que seria uma das possíveis traduções da palavra alemã weltanchauun. Inicialmente a cosmovisão era entendida como a capacidade humana de perceber a realidade sensível (definição de Immanuel Kant), e estava vinculada unicamente a grande sistemas metafísicos e construções teóricas da cultura, mas o significado de weltanchauun foi sendo ampliado, ao ponto de reconhecer-se hoje nos estudos da sociologia do conhecimento que a cosmovisão não somente precede a reflexão teórica mas também a condiciona. Em resumo, a nossa cosmovisão é um conjunto de valores pré-teóricos, a fonte primária de todas as nossas reflexões, a origem de todos os pressupostos científicos, artísticos e culturais. É nesta perspectiva que diversos pensadores protestantes desenvolveram seus estudos, como por exemplo, Abraham Kuyper, James Orr e Dooyeweerd.

Kuyper foi inclusive o mentor do movimento neocalvinista, exercendo de forma prática e admirável suas ideias de cosmovisão, sendo parlamentar, fundando um partido, assim como uma universidade, um jornal e chegando até mesmo ao cargo de primeiro ministro da Holanda, além de ser ministro da Igreja Reformada da Holanda. Este homem notável desenvolveu brilhantemente a concepção de que o Cristianismo nos moldes da doutrina calvinista se revela como um verdadeiro sistema completo de vida, assim como também esposou outras questões bastante interessantes como a noção de que todo homem é fundamentalmente religioso e que a criação deve ser regida mediante as esferas de soberania.

A cultura, entendida como tudo aquilo que é produzido e partilhado pelos homens de uma determinada sociedade, é reflexo das cosmovisões subjacentes no contexto em que é gerada. As crenças fundamentais do indivíduo serão delineadas em todas as suas manifestações culturais, sendo revelada basicamente através de algumas questões essenciais que dizem muito a respeito de sua cosmovisão, como por exemplo: qual a origem da vida ou a finalidade desta, ou ainda, como podemos saber o que é certo ou errado?

A título de exemplificação, Fabiano de Almeida Oliveira cita algumas ilustrações para auxiliar na visualização da relação entre a cosmovisão e a cultura, dentre elas a figura de uma construção onde a cosmovisão é um alicerce, contendo os compromissos de fé, as crenças e os valores, e a imagem de um iceberg, onde se identifica uma pequena camada de gelo visível (cultura, moralidade, ciência, artes), mas no fundo, de modo submerso encontra-se a dimensão tácita da cosmovisão (nossas percepções pré-teóricas).

Esta “camada submersa” em nosso interior é divida em duas partes: a mais profunda, que é a dimensão sócio religiosa central ou espiritual e a segunda, mais próxima da superfície, a dimensão psíquico-social. A camada mais profunda é identificada nas escrituras como o coração do homem, de onde provem todos os seus impulsos (Pv 4.23), e partindo de pressupostos bíblicos é preciso compreender que não existe neutralidade nesta dimensão: o coração do homem é sempre religioso, a grande questão é se ele está voltado para Deus ou se ainda está afetado pelos efeitos pecaminosos da queda em franca rebelião, entregue a desejos apostatas e idólatras. A segunda camada é resultante das experiências psíquicas e sociais acumulados ao longo da vida, desde as menores idades no seio familiar até a relação com agrupamentos sociais mais complexos ao longo da vida. Desta forma a uma soma de duas dimensões no ser humanos, uma mais básica que envolve os impulsos religiosos mais primários de seu coração e outro construída socialmente.

No entanto nossas cosmovisões não ficam estagnadas ou isoladas em nosso interior, muito pelo contrário, elas são constantemente compartilhadas com outros, assim como também somos influenciados por terceiros, em um processo de síntese. Este intercâmbio de valores e informações se inicia nos agrupamentos mais básicos e próximos, mas como numa reação em cadeia, este compartilhamento alcança níveis locais, regionais e até mesmo globais, formando assim o que denomina de espírito de uma época ou Zeitgest. E este é um processo de retroalimentação, os indivíduos influenciam a criação da cosmovisão global e também são influenciados por elas.

Ocorre que este movimento dinâmico de formação e propagação de cosmovisões não se dá de forma aleatória e desinteressada. O fluxo contínuo de percepções e valores de uma sociedade é direcionado por uma rede de interesses através de vários mecanismos que vão desde a educação familiar até mesmo a legislação e produções culturais. E nesta perspectiva é importante ressaltar que algumas cosmovisões são alijadas do processo de compartilhamento, por não se enquadrarem nos critérios daquilo que a sociológica chama de estrutura de plausibilidade, ou seja, os valores escolhidos e defendidos pelos interesses sociais majoritários.

Neste sentido importa elencar os mecanismos utilizados para anular as cosmovisões rejeitadas pela estrutura de plausibilidade: a absorção, que consiste na síntese da cosmovisão minoritária que tem seus valores diluídos e por fim completamente absorvidos; a cristalização que ocorre quando há um isolamento daqueles valores, que passam a ser consideradas peças de um museu, e ainda que continuem a existir são nulas em influência; e por fim a marginalização através de um comportamento ostensivo e hostil contra esta cosmovisão.

A cosmovisão cristã é fundada nos pressupostos bíblicos e é revelada inicialmente em um coração regenerado que não mais está em rebelião contra Deus, mas direciona todos os seus esforços na glorificação de nome, propósito de nossa existência. Assim há uma transformação completa neste individuo, que passa moldar-se a imagem de Cristo e guardar a palavra no coração para não pecar contra Deus (Salmo 119:11), que significa moldar toda a sua cosmovisão de acordo com os princípios bíblicos, resumidamente compreendidos através do tripé Criação-Queda-Redenção.

Em termos gerais, a cosmovisão cristã percebe que tudo que Deus criou é bom e foi criado com o propósito de glorificar a Deus , sendo ele a fonte de toda a vida, além de mantedor de todas as coisas e única fonte de todo o conhecimento. No entanto a queda trouxe efeitos catastróficos para os nossos corações assim como para toda a criação, de modo que em toda produção cultural há um direção apostata, idolatra, que revela rebelião contra o Criador. Mas a história não termina ai. Através da redenção em Cristo Jesus o cristão deve continuar a exercer o seu mandato cultural, “redimindo” a cultura ao seu redor, combatendo os reflexos de pecado e reforçado aquilo que é fruto da graça comum de Deus que ainda permanece no mundo caído, sempre na certeza que Cristo, e somente ele, irá concluir esta obra na sua volta.

Compreendendo que não pode se abster de sua tarefa, pois o mandato cultural é uma ordem cosmológica, ou seja, quer queira ou não o homem sempre vai desenvolver uma cultura, o cristão deve empenhar-se em ter uma boa base bíblica, a fim de ter uma cosmovisão sadia, e posteriormente um conhecimento sólido também em sua área de atuação, com o objetivo de compreender as cosmovisões presentes no seu oficio, arte ou ciência, e assim combater os valores contrários á palavra de Deus e labutar no sentido de solidificar os pontos de uma graça comum e fortalecer os princípios de uma cosmovisão biblicamente orientados. Esta é uma tarefa de todos: o biólogo, o químico, o artista, o jurista, o técnico em informática, o pais na educação dos filhos, o professor, etc.

Por fim, com base em tudo que foi visto, é necessário combater também uma falácia de nosso tempo que nos induz a ter uma fé privada que não tem implicações públicas, um mero sentimento religioso. Isto é impossível de se realizar, haja visto que todo homem é religioso, ainda que este impulso se revele na forma de rebelião. A religião neste caso não é compreendida apenas como uma manifestação socialmente determinada, como a liturgia, o culto, mas sim como a nossa confiança última, o alvo mais profundo de nossa devoção, o alvo de nosso mais firme e resoluto envolvimento e entrega. O incrédulo que não tem Deus como foco e alvo de sua devoção se coloca como seu próprio ídolo, e utiliza sub-ídolos para auxiliar seu culto auto-centrado (ideologia, dinheiro, poder, sexo, amor), no entanto até o mais convicto ateu tem em si uma motivação fundamental religiosa em seu coração, que direciona toda a sua cosmovisão.


Deste modo, devemos rejeitar o isolamento de nossa fé, pois não existe posição de neutralidade religiosa, e nossa cosmovisão deve ter espaço nas discussões públicas e produção cultural. Precisamos resistir às formas com que a estrutura de plausibilidade de nossa sociedade decaída tem usado para eliminar a cosmovisão bíblica, como a secularização e a confrontação ostensiva de nossos valores, através dos meios de comunicações e até dos movimentos acadêmicos e culturais. Isto é uma tarefa de todos nós. Que Deus nos dê graça para cumprir nossos mandatos culturais!

Rodrigo Ribeiro

Este texto é um resumo do módulo COSMOVISÃO CRISTÃ da Especialização em Estudos Teológicos do Andrew Jumper, ministrado pelo Prof. FABIANO DE ALMEIDA OLIVEIRA, de modo que o material produzido por este professor para o curso supracitado foi a base deste reflexão.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A Cosmovisão Romanista dos Evangélicos Brasileiros

Introdução

É inverno na cidade chamada “Evangélicus City”. Inverno pesado, como nunca se viu antes. Dias muito sombrios, em que a neve passa dos joelhos e o vento, de tão gélido, adormece o juízo dos habitantes. As noites estão recheadas de horas intermináveis e que parecem passar duas vezes mais lentamente, intensificando ainda mais a sensação de dor nos ossos por causa do frio!

Na frente das lareiras das casas da “Evangélicus City” os moradores conversam e muitas considerações surgem sobre a situação em que vivem. Dentre elas, algumas se destacam e outras logo são descartadas. A pergunta que gerou essas considerações foi: como podemos ter sucesso diante das limitações climáticas impostas pela região em que “Evangélicus City” está fixada? Pergunta obvia e que trouxe respostas interessantes.

Pela óptica de alguns moradores de “Evangélicus City”, seria buscar, por meio de estudos em fontes confiáveis, o desenvolvimento tecnológico de ponta para oferecer melhor qualidade de vida, melhorando os pontos fortes e corrigindo os fracos na educação, captar recursos financeiros fora da cidade, descobrir recursos naturais, desenvolver o turismo, construir boa infraestrutura e outras tantas iniciativas. Por outro lado, um grupo de moradores propunha uma forma de atrair o sol e ponderavam que era necessário estar mais perto da linha do equador. Outro grupo propunha a feitura de uma grande fornalha, com metragem apocalíptica, a fim de diminuir a quantidade de neve e frio.

Essas duas últimas respostas ou propostas foram as mais aceitas por serem exequíveis. No entanto, a primeira proposta seria inexequível!

O sucesso almejado pelos habitantes de “Evangélicus City” é comovente, expressa um desejo de fazer dar certo e, munidos de boa intenção, batalhavam pela vida bem sucedida numa região inóspita do planeta. Diante dessa ficção ficamos com a clara sensação de estarmos diante dos tão temidos equívocos bem intencionados. A boa intenção nesse período de individualismo ou absolutização do subjetivo gera uma gama de seres humanos ensimesmados e mimados, com erros óbvios de análise, de resposta e praticabilidade. Faltou aos cidadãos de “Evangélicus City”, em sua maioria, uma visão correta, uma análise realista, uma resposta adequada e uma prática sadia por um simples motivo, havia uma amorosa boa intenção, todavia a boa intenção não basta. Faltou-lhes entendimento, referencial correta.

Notando as respostas propostas e as que foram mais aceitas, e tidas como exequíveis, obviamente há um caso de acefalia coletiva. Classificaria tais soluções como desesperadoras e desacreditadoras da raça humana. Parece o absurdo dos absurdos propor atrair mais sol, mais proximidade da linha do equador ou criar uma fornalha gigante em proporções apocalípticas. Ainda mais boquiaberto fico diante da inépcia dos que preferiram essas propostas em detrimento da primeira. Os asnos ficariam envergonhados!

Perguntas que não podem ficar sem resposta.

Por que, então, não contraímos a vergonha congênita dos asnos, que estão corados de vergonha, diante da situação do evangelicalismo brasileiro, que mais parece uma cosmovisão romanista do que bíblico-reformada? 

Onde, portanto, se revela o caminho de cegueira espiritual de grupos religiosos que não têm seguido o Evangelho, ainda que pensem estar? Onde estão as fontes de nossas considerações e ponderações como igreja? Será que não estamos fazendo as mesmas coisas que os cidadãos da “Evangélicus City”?

Algumas considerações se fazem necessárias para propor uma resposta:

1. A grande anciã por papado.

O Papa Francisco I esteve no Brasil e desferiu uma série de pronunciamentos ao povo brasileiro. Ele também deixou, por meio de suas atitudes, vários discursos que propõem claramente uma teologia esquerdista. O que poucos observaram em seus discursos foi a ausência de Bíblia – chegava a ser um silencia ensurdecedor! Ele não abriu a Bíblia e expôs um texto uma única vez! Muito se falou sobre sua humildade, sua abstinência de bens materiais e o quanto se mostrou identificado com o povo brasileiro, inclusive conquistando muitos seguidores evangélicos. No entanto, justamente por causa de nossa cosmovisão ou paixonite romanista, não obversamos que é justamente essa instituição que se levanta contra Cristo há séculos.

O Papa, segundo a teologia católica, é infalível quando defini, de acordo com o seu ministério, a fé e a prática do cristianismo. Nós cremos, há muitos séculos, que somente a Bíblia deveria ser autoridade infalível na igreja e que somente a Bíblia poderia determinar fé e moral aos Cristãos. O sexto parágrafo do capítulo 25 da Confissão de fé de Westminster nos ensina: “Não há outro Cabeça da Igreja senão o Senhor Jesus Cristo. Em sentido algum pode ser o papa de Roma o seu cabeça, senão que ele é aquele anticristo, aquele homem do pecado e filho da perdição que se exalta na Igreja de Cristo e contra tudo o que se chama Deus”.

A autoridade de um ministro só é legítima quando está submissa à Palavra, segundo a genuína doutrina dos apóstolos que tem sido transmitida ao logo dos séculos. Nas igrejas reformadas a Palavra não é de particular interpretação. Em seus pontos cardinais, é elucidada pelos credos e confissões produzidos pela Igreja Cristã ao longo dos séculos. Isso quer dizer que em dois pontos divergimos essencialmente dos papistas: primeiro, não aceitamos a autoridade de um homem sobre todos os cristãos de forma infalível e, segundo, não aceitamos a autoridade de um homem sobre todos os cristãos dando ordenações sobre a fé e a moral dos mesmos.

O evangelicalismo tem produzido bispos, apóstolos, paipostolos, patriarcas, semiarcanjos e pastores que estão extrapolando até mesmo o papado. Esses homens são dominadores de suas igrejas. Eles controlam de forma absoluta, e nem mesmo os papas mais terríveis da história, puderam alcançar tal poder. Obversando o texto da Confissão, a conclusão é clara: esses tais pastores, bispos ou patriarcas, os nossos Papas, usurpam pela exaltação de si mesmo e pela substituição de Cristo por eles, o lugar de Jesus Cristo na igreja - isto é, eles também têm o espírito do anticristo (1Jo 2: 18 e 22). E como se não bastasse, massas inteiras de frequentadores de igreja, seguem, sem notar ou se incomodar, tais líderes. O pior não é isso, o pior é que o fazem em detrimento de Jesus Cristo!

2. O culto idolatra.

O segundo mandamento tem sido esquecido por muitas igrejas no Brasil. Jesus, Deus ou o Espírito Santo estão sendo tocados, cheirados, mentalizados e ensinados por meio de uma imagem criada pela nossa imaginação – seja materializada ou simplesmente imaginada. A pergunta 109 do Catecismo Maior de Westminster nos ensina: “Quais são os pecados proibidos no segundo mandamento? Os pecados proibidos no segundo mandamento são - o estabelecer, aconselhar, mandar, usar e aprovar de qualquer maneira qualquer culto religioso não instituído por Deus; o fazer qualquer imagem de Deus, de todas e qualquer das três pessoas, quer interiormente no espírito, quer exteriormente em qualquer forma de imagem ou semelhança de criatura alguma; toda a adoração dela, ou de Deus nela ou por meio dela; o fazer qualquer imagem de deuses imaginários e todo o culto ou serviço a eles pertencentes; todas as invenções supersticiosas, corrompendo oculto de Deus, acrescentando ou tirando dele, quer sejam inventadas e adotadas por nós, quer recebidas por tradição de outros, embora sob o título de antiguidade, de costume, de devoção, de boa intenção, ou por qualquer outro pretexto; a simonia, o sacrilégio; toda a negligência, desprezo, impedimento e oposição ao culto e ordenanças que Deus instituiu.”

Fica cada vez mais difícil participar de um culto onde se adore a Deus, mediado por Jesus Cristo, ensinado pelo Espírito Santo, pela fé. Estamos sendo ensinados pelas músicas e pregações a tocar, sentir, cheirar, existencializar, experimentar ou provar. E mais um ingrediente que se soma a isso, pois em nossas músicas litúrgicas, Deus não tem sido mencionado fora de nossas experiências. Normalmente, fala-se de Deus quando Ele nos toca, nos molda e nos fortalece a prosperar! Raramente cantamos os atributos de Deus. Atipicamente cantamos o que Deus fez pela coletividade. Tem estado fora de questão cantar na primeira pessoa do plural. Os cultos públicos são cada vez mais expressões de uma invencionice humana, escrava do novo ou do tradicionalismo e cheios de coisas atrativas aos homens. Os lugares de culto pelo Brasil estão cada vez mais cheios de pessoas que não sabem o que fazer diante de Deus e usam suas boas e sinceras intenções para adorar a Deus; o pior é que isso não basta!

A verdade é que cultuamos numa situação, hoje, bem pior do que a dos católicos romanos! Eles cantam a Deus, a Jesus, ao Espírito Santo e à Maria e outros santos. Nesses cânticos, normalmente, se fala do que é elogiável nesses personagens. Eles estão adorando o que está fora deles. Os chamados evangélicos no Brasil têm adorado a si mesmos de forma descarada, sem vergonha alguma, sem pudor e discernimento.

3. A esperança.

Esse é um diferencial do Evangelho de Jesus Cristo. Há vivida confiança na esperança de vida eterna (At 24: 14-15; Rm 5: 5; 8: 24-25; 1Co 15: 19). Hoje, quando fazemos uma pesquisa entre os evangélicos no Brasil, descobrimos que a maioria não sabe se será realmente salvo da condenação eterna ou não sabe o porquê será salvo da infernal condição de condenado (Hb 10: 23).

Ora, a teologia católica é justamente essa. Para eles ninguém pode dizer convictamente que será salvo da condenação eterna. E os evangélicos têm crido similarmente e tem exposto isso de quatro formas: 1. Crendo e ensinando sobre o Evangelho de forma muito deficiente ou errada. 2. Vivendo de forma indigna o Evangelho e por isso leviana; e mesmo assim se publicando conhecedor do Evangelho. 3. Se declarando não convicto da esperança de vida eterna. 4. Dizendo que está em busca dessa convicção por meio das obras da lei evangélica no Brasil.

Quando ligamos nossas TV’s e rádios logo observamos que o Evangelho Bíblico não tem sido pregado! Há raras exceções! Bastava ouvir uma única exposição das Escrituras e depois comparar com o conteúdo e forma de apresentação das demais para chegarmos a essa conclusão. Esses tais pastores, cantores, cantoras e pastoras estão se comportando como falsos profetas, mestres e guias. O que mais chama atenção é ver que, em detrimento da verdade, o ibope dessas pessoas no meio evangélico é altíssimo! Desfrutam de grande fama! O conteúdo do que ensinam, de longe passa pelas Escrituras e mesmo assim são ovacionados pela nossa inclinação papista, idolatra e, por fim, desapegada da verdade!

E é aqui que está a razão das duas outras observações feitas acima. Ora, como esse povo poderá reconhecer verdadeiros pregadores, pastores, presbíteros ou diáconos se eles não conhecem o Evangelho? Ora, será que foram convertidos?  Como conhecerão o Evangelho e se converterão dos seus maus caminhos, se a eles não foi pregada a Palavra de Cristo (Rm 10: 13-17)? Sabemos que essas coisas que se discernem espiritualmente (1Co 1: 18; 2: 14; 2Co 4: 3-6), não conhecidas e cridas pela força ou engenhosidade humana. É o Espírito com a Palavra que convence o homem! A doutrina, assim, de nosso Senhor Jesus Cristo, precisa ser pregada para que exista fé verdadeira e havendo fé verdadeira se conhecerá e se prestará culto verdadeiro. Para se prestar culto verdadeiro é necessário, indispensável, essencial que se conheça o Evangelho, pois sem ser salvo não se pode prestar culto aceitável a Deus.

O que tem a esperança de herdar a vida eterna não se deixará levar por muito tempo por essas coisas que têm constituído as pregações, os ensinos e sido instrumento de motivação, crescimento e conformação de muitas igrejas.

 As respostas

Parece que vivemos um dos momentos mais frios espiritualmente de nossa história como Igreja Neotestamentária. Ainda que se propale que este é o momento de maior avivamento da história e ele acontece aqui no Brasil, os sinais, no entanto, depõem no sentido oposto se interpretados pela óptica das Escrituras. 

Normalmente, muitos falam mal da Idade Média e em muitos casos sem discernimento, pois a nossa geração está numa condição muito pior. Vejamos se não: no final da Idade Média foi criado o dogma da indulgência e com ele se oferecia a oportunidade de abrandamento ou até mesmo a total exclusão de qualquer castigo intermediário entre o céu e o inferno – o purgatório. Trocando em miúdos, isso quer dizer que as pessoas compravam perdão e assim a possibilidade de estar com Deus. Essa pregação certamente não faria sucesso em nossos dias e entendo que não seria pelo motivo que temos em mente. A pregação que tem funcionado é aquela que ensina os crentes a determinar bênçãos para as situações do agora e não a respeito de coisas do por vir. Esse tipo de pregação tem feito um sucesso que até os mais carrascos inquisidores e vendedores de indulgências se sentiriam envergonhados.

Logo, é evidente por meio deste único e simples exemplo que não vivemos um avivamento. O evangelho ensinado e que está em voga ou desfrutando de muita aceitação não é o Evangelho! Essencialmente a negação do Evangelho na Idade Média e a rejeição ao Evangelho de Jesus Cristo hoje é a mesma, mesmíssima! Todavia, há diferenças que assombram, pois, mais do que nunca, estamos a observar a desenfreada opção por coisas ainda mais descaradamente ímpias e infernais. Mais do que em outros momentos, desfrutamos do infortúnio de presenciar multidões “evangélicas” optando pela opção de negar o Evangelho – a verdadeira forma de prosperar enquanto pessoa e também na condição de grupo.

Os nossos antepassados ouviram dos apóstolos, os mesmos transmitiram a homens fieis e esses homens com muito esforço e sangue passaram às gerações a sã doutrina. Hoje uma geração inteira se julga mais bíblica, mais sábia, mais justa e mais humilde do que as anteriores e estão propõe reinventar a roda. Pregam como novidade e ensinam como vanguarda, contudo, não passa de heresia velha sob título novo e linguagem desconstrucionista.

Sim, sim, invariavelmente sim. Infelizmente sim, é isso mesmo! Nós estamos fazendo a escolha absurda, estúpida, desqualificadora, abestalhadora, emburrecedora ou amalucada mesmo, pela solução ou pelo caminho que nos leva a ruína. Se depender dos caminhos que temos trilhado enquanto igreja evangélica brasileira, fatalmente pereceremos.

Entendo que a Igreja de Jesus Cristo jamais acabará, perecerá, será estúpida a esse ponto de escolher o autoenforcamento. No entanto, igrejas locais, que durante gerações, até, clamaram genuinamente pelo nome do Senhor podem definitivamente colher o que plantaram e assim serem rejeitadas pelo Senhor Jesus. É certo que se o Cabeça da Igreja sempre terá um povo que chamará pelo seu precioso nome. É certo também que o Cabeça da Igreja não precisa de qualquer porção de seres humanos para que sua obra continue a alcançar povos, nações, etnias e línguas de sobre a face da terra. Aos eleitos, dentre todos os povos, Deus suscitará herança.

Portanto, assim como as igrejas do passado, que presentemente não existem mais, tal como a igreja de Eféso, na Ásia Menor, plantada pelo apóstolo Paulo no primeiro século da era cristã, pastoreada por ele por mais de dois anos, que posteriormente foi pastoreada por Timóteo, que recebeu três cartas do apóstolo Paulo (Efésios, 1Timóteo e 2Timóteo), que entre os seus presbíteros pode-se contar com a presença do apóstolo João e que depois, por fim, recebeu uma carta do Senhor dos candeeiros dizendo que os membros daquela igreja deveriam voltar ao primeiro amor, pois se não fosse assim removeria o candeeiro, ou seja, a igreja deixaria de existe ali (Ap 2: 5), hoje as igrejas locais, de uma região ou até mesmo de um país podem degringolar na fé e finalmente fechar as suas portas – abraçando outra fé. A região da Turquia é principalmente mulçumana hoje em dia, no passado era principalmente cristã.

Conclusão

A boa intencionada busca pelo crescimento, sucesso e proclamação das atividades da igreja ao mundo tem proporcionado um emaranhado de confusões. A igreja passou a existir por causa de Cristo e em Cristo ela deve viver. Sua diretriz deve ser buscada em Cristo e não se pode almejar tal direção a partir de mentes e corações comprometidos e apaixonados por coisas não bíblicas ou que não partem de pressupostos bíblicos.

Precisamos de um retorno às Escrituras, à oração, ao arrependimento, ao compromisso com a Igreja de Jesus Cristo e com o próprio Cristo Jesus da Igreja. As igrejas locais estão revelando uma cosmovisão romanista quando estão planejando, almejando, “sonhando com o futuro da igreja”, propondo soluções aos problemas e na prática revelando o que creem. A começar pelas nossas crenças, se estendendo em nossos métodos e findando em nossas práticas, temos ultrapassado o catolicismo romano medieval em muitos pontos.

Isso se deve em primeiro lugar à nossa paixão em comum pela autonomia, depois à nossa abstinência de doutrina bíblica, à nossa escassez de compromisso com a oração, ao ardoroso comprometimento com os enfadonhos cultos tradicionalistas ou devoção aos cultos cheios de invencionismo que mascara, assim como o tradicionalismo, a nossa impiedade, a nossa permeabilidade a santidade, a nossa estúpida teimosia em insistir querendo viver por nós mesmo, por nossos motivos. Voltemos ao Evangelho!

Três conselhos fundamentais e que certamente nos ajudam a “espantar” a cosmovisão romanista que assola o evangelicalismo brasileiro:

1.      Precisamos conhecer mais o Senhor Deus Eterno. Conhecê-lo em Seu Filho e guiados pelo Espírito Santo. O Espírito conduz a Cristo pela Palavra. Cristo conduz a Deus e o Pai testifica do Filho. Precisamos os conhecer.

2.      Precisamos conhecer a nós mesmos. E é na medida em que conhecemos a Deus, que nos conhecemos de verdade, de fato, de direito, apropriadamente – redentivamente. Quando conhecemos a nós mesmo, passamos também a perceber ainda mais a grande diferença entre nós e Deus, proporcionando, assim, mais conhecimento de Deus, que promove ainda mais conhecimento de nós mesmo. É um ciclo retroalimentado pela justiça de Cristo.

3.      Precisamos conhecer a Palavra, participar dos sacramentos corretamente, endossar com santo temor a disciplina eclesiástica e nos dedicar a oração. Viver como Igreja de Jesus Cristo e não como igreja local. Viver como igreja local só é legítima quando se é Igreja de Jesus Cristo. O culto precisa voltar a ser Cristocêntrico! Precisa voltar a ser Teocêntrico! Precisa voltar a ser Espiritocêntrico! Como eles nos ensinaram.

Deus nos abençoe com entendimento e discernimento. Lembrando sempre: O princípio da sabedoria é o temor ao Senhor.

Abraço fraterno,

Rev. Renan de Oliveira