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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A Reforma e a Missão

Após participar de um encontro de igrejas no nordeste da França tive a oportunidade de dar uma palavra também aos adolescentes de uma escola cristã. Na entrada da escola a réplica de um mapa de 1573 chamou a minha atenção. Era o mapa do império francês do fim do século 16 com centenas e centenas de marcas, em forma de uma cruz, espalhadas por toda a sua extensão. O diretor da escola se aproximou explicando que as marcas indicavam a localização de cada escola cristã na França da época, cerca de duas mil! Com voz melancólica completou que “hoje não passam de vinte”. A forte presença de escolas cristãs era um resultado direto da Reforma Protestante sob a influência de Lutero, Calvino, Zwínglio, Farel e Knox que defendiam a pregação da Palavra, uma escola cristã em cada igreja cristã e um culto centrado em Cristo e não na Igreja.
 
A Reforma Protestante - desencadeada com as 95 teses de Lutero divulgadas em 31 de outubro de 1517 – foi, sobretudo, eclesiástica em um momento que todos os olhares se voltavam para a reestruturação daquilo que a Igreja cria e vivia. Renasceram assim os dogmas evangélicos. 
 
A Sola Scriptura defendia uma Igreja centrada nas Escrituras, Palavra de Deus; a Sola Gratia reconhecia a salvação e vida cristã fundamentadas na Graça do Senhor e não nas obras humanas; a Sola Fide evocava a fé e o compromisso de fidelidade com o Senhor Jesus; a Solus Christus anunciava que o próprio Cristo estava construindo Sua Igreja na terra sendo seu único Senhor e a Soli Deo Gloria enfatizava que a finalidade maior da Igreja era glorificar a Deus. 
 
A missão da Igreja, sua Vox Clamantis, não fez parte dos temas defendidos e pregados na Reforma Protestante de forma direta. Isso por um motivo óbvio: os reformadores possuíam em suas mãos o grande desafio de reconduzir a Igreja à Palavra de Deus e, assim, todos os escritos e esforços foram revestidos por uma forte convicção eclesiológica e sem preocupação imediata com a missiologia. Isso não dilui, entretanto, a profunda ligação entre a reforma e a missão como veremos a seguir. 
 
A Reforma e as Escrituras na língua do povo
 
A Reforma levou a Igreja a crer que o curso de sua vida e razão de existir deveriam ser conduzidos pela Palavra de Deus, submetendo o próprio sacerdócio a esse crivo bíblico. Foi justamente essa ênfase escriturística que despertou Lutero para a tradução da Palavra na língua do povo e inspirou posteriormente centenas de traduções populares em diversos idiomas, fomentando movimentos como aWycliffeBibleTranslators com a visão da tradução das Escrituras para todas as línguas entre todos os povos da terra. 
 
Hoje contamos com a Palavra do Senhor traduzida para mais de duas mil línguas vivas. João Calvino enfatizava que “... onde quer que vejamos a Palavra de Deus pregada e ouvida em toda a sua pureza... não há dúvida de que existe uma igreja de Deus”. O grande esforço missionário para a tradução bíblica resulta diretamente deste conceito resgatado na Reforma Protestante. 
 
A Reforma e o culto participativo
 
A Reforma reavivou o culto em que todos os salvos, e não apenas o sacerdote, podem louvar e buscar a Deus. E Lutero, como uma de suas primeiras atitudes, colocou em linguagem comum os hinos entoados nos cultos. Esta convicção de que é possível ao homem comum louvar a Deus incorporou na Igreja pós-reforma o pensamento multiétnico através do qual “o desejo de levar o culto a todos os homens”, como disse Zuínglio, não demorou a ressoar na Igreja, culminando com o envio de missionários para o Ceilão pela igreja Reformada holandesa no século 17. Isso, então, disparou um progressivo envio missionário e expansão da fé Cristã nos séculos que viriam. 
Um culto vivo ao Deus vivo foi um dos pressupostos reformados que induziu a obra missionária a levar esse culto a todos os homens transpondo barreiras linguísticas, culturais e geográficas.
 
A Reforma e a expansão da fé cristã
 
A Reforma destacou a Glória de Deus como motivo de existência da Igreja e isso definiu o curso de todo o movimento missionário pós-reforma no qual o estandarte de Cristo, e não da Igreja, era levado com a Palavra proclamada entre outros povos. Os morávios já testificavam sobre isto, no século 18, quando o conde Zinzendorf, ao ser questionado sobre seu real motivo para tão expressivo e sacrificial movimento missionário, respondeu: “estamos indo buscar para o Cordeiro o galardão do Seu sacrifício”. John Knox, na segunda metade do século 16, escreveu que, como resultado da Reforma, o Evangelho era exposto em toda parte, perto e longe. O centro das atenções, portanto, era Cristo e nascia ali um modelo cristocêntrico de pregação do Evangelho que marcaria o curso da história missionária nos séculos posteriores.
 
A Reforma Protestante passou a Igreja pelo crivo da Palavra e isto revelou a nossa identidade bíblica segundo o coração de Deus. Seguindo o esboço da eclesiologia reformada, poderemos concluir que somos uma comunidade chamada e salva pelo Senhor e com uma finalidade na terra. Zwínglio, logo após manifestar sua intenção de passar a pregar apenas sermões expositivos, em janeiro de 1519 afirmou em sua primeira prédica que “a salvação põe sobre nós a responsabilidade de obediência”. Não era suficiente apenas ouvir e compreender. Era preciso obedecer e seguir.
 
A Reforma e a motivação para o serviço e a missão
 
A Reforma também destacou o assunto do nosso propósito de vida e elucidou que a finalidade maior da nossa existência não é servir à Igreja ou a nós mesmos. A exposição de Calvino da carta aos Romanos, com especial destaque no último capítulo, deixa bem clara a evidência bíblica e convicção reformada de que vivemos e trabalhamos para a glória de Deus. A obra missionária, assim, passou a ser realizada não para expandir uma instituição, uma ideia ou um clero, mas para glorificar ao Supremo Criador e esta foi uma das grandes contribuições da Reforma para a missiologia protestante e para as ações missionárias.
 
Em Romanos16, versos 25 a 27, lemos: “Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu Evangelho” (fala de Deus), “conforme a revelação do mistério” (o “mistério” é o Messias prometido a todos os povos), "e foi dado a conhecer por meio das Escrituras Proféticas" (aponta para o meio de revelação), "segundo o mandamento do Deus eterno" (aponta para o desejo fomentador da nossa salvação), "para a obediência por fé"(aponta para o meio de salvação), "entre todas as nações” (esta é a extensão do plano salvífico de Deus).
 
Que lindo texto! Nele, Paulo resume a teologia da missão e expõe o propósito de Deus em resgatar pessoas de perto e de longe, em Cristo Jesus.
 
Mas qual o motivo maior para esse plano divino que visa a redenção de todos os povos? Ele completa no verso 27: “Ao Deus único e sábio seja dada glória ...”. É a glória de Deus! E esse é também o maior e mais importante motivo para nos envolvermos com o propósito de fazer Jesus conhecido até a última fronteira do país mais distante, ou da família na casa vizinha. 
 
Martinho Lutero, em um sermão expositivo em 1513, baseado no Salmo 91, afirmou que “a glória de Deus precede a glória da igreja”. É momento de renovar nosso compromisso com as Escrituras, reconhecer que existimos como Igreja pela graça de Deus, orar ardentemente por fidelidade de vidas e entender que o próprio Jesus está construindo a Sua igreja na terra. 
 
A Reforma e a busca por um coração pronto e sincero
 
O símbolo de Calvino passou a ser um coração seguro por uma mão e apresentado bem alto. Ao redor, escrito em latim, se lia Cor Meum Tibi Offero Domine Prompte et Sincere – “meu coração a ti ofereço Senhor, pronto e sincero”. Calvino, usado por Deus em sua geração e tantas outras entendia que, além de todo o conhecimento teológico e humano, havia a grave necessidade de um coração quebrantado e pronto.
 
John Knox, na busca por um coração aquecido e avivado no Senhor Jesus proclamava que a ponte entre o conhecimento e a transformação era o quebrantamento. Dizia em outras palavras que, sem um coração quebrantado, nenhum conhecimento teológico ou humano produziria uma vida transformada. 
 
Concluo citando uma vez mais as palavras do reformador Lutero no livro GlorytoGlory em que ele nos ensina a dar passos e nos mostra que nossa vida em Cristo, como também a nossa missão na terra, são uma caminhada.
 
“Esta vida, portanto, não é justiça, mas crescimento em justiça. Não é saúde, mas cura. Não é ser, mas se tornar. Não é descansar, mas exercitar. Ainda não somos o que seremos, mas estamos crescendo nesta direção. O processo ainda não está terminado, mas vai prosseguindo. Não é o final, mas é a estrada. Todas as coisas ainda não brilham em glória, mas todas as coisas vão sendo purificadas”.
 
Que o Senhor nos quebrante, converta, abençoe e use para a Sua glória.

Ronaldo Lindório

Original: http://www.ultimato.com.br/conteudo/a-reforma-e-a-missao#reforma+protestante

Intercâmbio feito por Cícero da Silva Pereira

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A Hospitalidade da Palavra

Sou impressionado com o poder da palavra, em todas as suas formas e manifestações. As ditas, as não ditas, as malditas e as benditas. Mas sei que não sou só eu. Afinal, tudo começou com ela e tudo terminará com ela; quando o “haja” se consumar em “houve”, e tudo for muito bom.
A palavra cria e destrói; orienta e engana. Por ela, o mundo em que vivemos, o mundo dos significados, é construído pelos “falantes”.
Ao diferenciar um boi de um cavalo, Adão usava palavras para ordenar o seu – e o nosso – mundo. Tarefa que lhe foi incumbida pelo Criador. Ao “nomear” sua realidade, ele lhe atribuía “nomos”, ordem: “cavalo não é boi”.
Assim participou Adão como ajudante humano na criação divina. Ambos proferindo palavras; ambos esculpindo o mundo simbólico em que haveríamos de habitar, com cinzéis verbais.
É assim que, pelo uso da palavra, ordenamos e reordenamos; recebemos e transmitimos nosso “mundo”. É conversando que o colocamos em ordem; aprendendo, validando pensamentos, corrigindo enganos, entendendo o próprio coração, entre tantas outras transformações internas. E fazemos isso intensamente, a todo momento. A conversa serve, portanto, como uma bússola, a funcionar até enquanto dormimos.
Praticamente, muitas vezes chegamos a uma roda de amigos precisando revisar, reestruturar ou construir alguma parte do nosso mundo. Precisamos ouvir opiniões, conselhos, informações. Contudo, para que isso aconteça, temos de falar, contar. E esse discurso se torna muitas vezes caótico, complicado, pois reflete nossa confusão. Porém o fazemos na esperança inconsciente de que nossos amigos nos ajudem com suas reações. Às vezes, basta um sorriso e já vamos “renomeando” o nosso “mundo”. “Não é cavalo, é boi”; “nem tudo está “perdido”, há “esperança””.
Semeador
Pois bem, chamamos de “ministros da palavra” nossos pastores. Com efeito, eles prestam serviço à Igreja, ao pregar e ensinar. Entretanto, considerando que temos sede de verdadeiras palavras, exatamente por vivermos no mundo da informação, proponho um ministério leigo à Igreja: o “sacerdócio universal da palavra”. Explico: toda vez que se reunirem dois ou mais irmãos, acenda-se a luz amarela da palavra. Que se cuide dela como se cuida da oração, da pregação ou do cântico. Não se trata de formalizar as rodinhas, de abolir o riso, a alegria, o bom humor ou a espontaneidade; de transformar qualquer conversa em “culto”, no seu pior sentido, mas de “tirar as sandálias” nesses momentos de conversa.

Se, por um lado, é desagradável a pessoa que tudo “espiritualiza”, também se torna inócuo o irmão que se envergonha da imagem de cristão. A sensibilidade e o Espírito Santo hão de ajudar-nos a transformar simples conversas em momentos agradáveis e edificantes.
O “ministério da palavra” envolve, em particular, o “ouvir”. Quer conhecer um cristão poderoso em obras? Procure-o entre aqueles que se calam para, gentilmente, abrir “espaços de palavra” aos demais. Mas que não nega a sua, quando “for boa para edificação, conforme a necessidade” (Ef 4.29). Chamemos a isso “hospitalidade da palavra”.
O testemunho que se dará desses ministros leigos é que têm o dom do diálogo: “Sentimo-nos acolhidos. E por alguém que se dispõe a compreender o que estamos tentando dizer”.

Rubem Amorese
Publicado em: http://ultimato.com.br/sites/amorese/2013/09/17/a-hospitalidade-da-palavra/
Intercâmbio feito por Iris Bernardo

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Como o trabalho glorifica a Deus? Com a Palavra, John Stott




Deus organizou deliberadamente a vida de tal maneira que ele precisa da cooperação dos seres humanos para o cumprimento dos seus propósitos. Ele não criou o planeta terra para ser produtivo por si mesmo; os seres humanos tinham que subjugá-lo e desenvolvê-lo. Ele não fez um jardim cujas flores se abririam e os frutos amadureceriam por conta própria; ele designou um jardineiro para cultivar a terra. Chamamos isso de “mandato cultural” que Deus deu à raça humana. “Natureza” é o que Deus nos dá; “cultura” é o que nós fazemos com ela. Sem um agricultor humano, todo jardim ou campo se degeneraria rapidamente, transformando-se num deserto.


Na verdade, Deus fornece o solo, a semente, o sol e a chuva, mas nós temos que arar, plantar e colher. Deus fornece as árvores frutíferas, mas nós temos que podá-las e apanhar os frutos. Como Lutero disse certa vez num sermão sobre Gênesis, “Pois por seu intermédio Deus trabalhará todas as coisas; ele vai ordenhar as vacas e desempenhar as tarefas mais humildes por meio de você, e todas as tarefas, da maior até a menor, serão agradáveis a ele”. De que valeria a provisão que Deus faz para nós de uma vaca cheia de leite se nós não estivéssemos lá para ordenhá-la?

Assim, há cooperação, na qual nós realmente dependemos de Deus, mas na qual (acrescentamos reverentemente) ele também depende de nós. Deus é o Criador; o homem é o agricultor. Cada um necessita do outro. No bom propósito de Deus, criação e cultivo, natureza e criação, matéria-prima e perícia profissional humana são indissociáveis. Esse conceito de colaboração divino-humana é aplicável a todas as tarefas honrosas. Deus se humilhou e nos honrou ao fazer-se dependente da nossa cooperação. Observe o bebê humano, talvez a mais desamparada de todas as criaturas de Deus. As crianças são, sem dúvida, “presentes do Senhor”, embora a procriação seja, em si mesma, uma forma de cooperação. Depois do nascimento, é como se Deus lançasse o recém-nascido nos braços da mãe e dissesse: “Agora você cuida”. Ele confia aos seres humanos a criação de cada criança. Nos primeiros dias o bebê parece até ser parte da mãe, de tão próximos que os dois estão. E por muitos anos as crianças são dependentes de seus pais e professores.

Até mesmo na idade adulta, apesar de dependermos de Deus para a própria vida, dependemos uns dos outros para as necessidades da vida. Isso inclui não apenas as necessidades básicas da vida física (alimento, vestuário, habitação, afeto, segurança e cuidados médicos), mas também tudo que engloba a riqueza da vida humana (educação, recreação, esportes, viagens, cultura, música, literatura e as artes), para não mencionar a nutrição espiritual. Assim, qualquer que seja nosso trabalho – em uma das profissões (ensino, medicina, leis, serviços sociais, arquitetura ou construção), nas políticas nacional ou local ou no serviço civil, na indústria, no comércio, no cultivo do solo ou na mídia, em pesquisa, na administração, no serviço público ou nas artes, ou em casa – devemos vê-lo como sendo cooperação com Deus. As palavras de Ambroise Paré, o cirurgião francês do século 16 que algumas vezes foi descrito como “fundador da cirurgia moderna”, estão inscritas no muro da École de Médicine em Paris: “Eu fiz o curativo no ferido; Deus o curou”.

Trecho retirado de Os cristãos e os desafios contemporâneos, de John Stott, publicado pela Editora Ultimato (Para conhecer a obra e adquirir, clique no link acima)

Presb. Cicero da Silva Pereira
https://www.facebook.com/cicero.dasilvapereira

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A Reforma Protestante ainda nos Ajuda Hoje?



Quem já observou um pedreiro assentar tijolos certamente o viu usar um prumo. Ainda que antiquíssima, esta ferramenta não fica devendo a equipamentos sofisticados: não precisa de pilha para funcionar; é fácil de manusear e revela com precisão o que está fora de prumo!

Quando Deus o chamou, o profeta Amós viu que “o Senhor, com um prumo na mão, estava junto a um muro construído no rigor do prumo. E o Senhor me perguntou: 'O que você está vendo, Amós?' 'Um prumo', respondi. Então disse o Senhor: 'Veja! Estou pondo um prumo no meio de Israel, o meu povo; não vou poupá-lo mais. Os altares idólatras de Isaque serão destruídos e os santuários de Israel ficarão em ruínas'” (Am 7.7ss.).

Um prumo na mão de um pedreiro descreve com precisão como Deus agiu e continua agindo com o seu povo! Ele criou a humanidade para viver aprumada. O “muro construído no rigor do prumo” alude ao fato de sermos criados à “imagem de Deus” (Gn 1.27). Mas ao encostar seu prumo na nossa vida fica evidente que ela está fora de prumo: não somos o que deveríamos ser!

Instrumentos de Deus em seu tempo

No século 16 Deus encostou seu prumo, as Sagradas Escrituras, na igreja. Seus instrumentos foram um monge alemão que lecionava numa universidade provinciana (Lutero), um padre suíço duma cidade de médio porte (Zwinglio), um jovem acadêmico francês (Calvino). Estes homens anunciaram o que perceberam em púlpitos e cátedras, assembleias e tribunais, bem como em panfletos e livros.

Eles sabiam que a validade dum prumo não expira, que a palavra de Deus continua válida e revela o que está aprumado diante dele e o que não! Sabiam também que um prumo funciona de cima para baixo! A posição da peça de madeira no alto determina a posição da de metal em baixo. Assim as Escrituras Sagradas são instrumento do Altíssimo e manifestavam sua vontade entre nós. Jesus criticou os saduceus, porque eles – apesar de sacerdotes (!) – desconheciam “as Escrituras” e “o poder de Deus!” (Mt 22.29; Mc 12.24). Ao redescobrirem o evangelho os reformadores reconheceram que o poder do Criador age pela Escritura para aprumar nossa vida! Por isto não se cansaram de estudá-la e interpretá-la.

Nosso ambiente é outro

Vivemos num mundo deveras diferente do de Lutero, Zwinglio e Calvino. Talvez você lembre o desenvolvimento tecnológico. Sim, eles viajavam em carroças, nós em automóveis e aviões; escreviam com penas de ganso, nós digitamos num tablet; eles se relacionavam olho no olho, nós, pelo Facebook; etc.

Ainda que isto molde nossa vida cotidiana, a maior diferença para o tempo da Reforma é que, então, se vivia numa cultura cristã homogênea, enquanto que hoje vivemos num ambiente pluralista e pós-cristão. Quando recorriam às Escrituras Sagradas, os reformadores não precisavam convencer seus contemporâneos da sua autoridade. Nós, no entanto, não podemos mais pressupor que as pessoas à nossa volta a reconheçam. Vivemos em meio a um ferrenho concurso de verdades e convicções.

Por isto não basta repetir os reformadores, mas devemos aprender deles a atentar para o prumo de Deus a fim de anunciar ao nosso tempo o que Deus está revelando. Os reformadores podiam pressupor que seus contemporâneos entendiam sua vida e o mundo baseados na cosmovisão cristã. Nós precisamos aprender a articular com clareza como encaramos a vida e o mundo e que diferença isto faz em relação a outras propostas. Quem não conhece o Deus da Bíblia precisa desta oportunidade.

Quando ele encosta seu prumo em nós, fica evidente o que não está aprumado. É assustador perceber quanta resistência há em nós, mas é revigorante poder admitir a ajuda de Jesus Cristo. Ele “agiu para consertar as coisas nesta vida de contradições com a qual quero servir a Deus de todo coração e mente, mas sou puxado pela influência do pecado, e acabo fazendo algo que não desejo” (Rm 7.25 – A Mensagem). O mesmo poder do Espírito de Deus que atuou nos profetas e na Reforma Protestante, nos ajudará a crer nele e a obedecer hoje.

___________________
Martin Weingaertner, nascido em Santa Catarina (1949), é diretor da Faculdade de Teo-logia Evangélica em Curitiba (FATEV) e editor do devocionário “Orando em Família”. Seu casamento com Ursula foi abençoado com 5 filhos e 8 netos.


Intercâmbio feito por Rodrigo Ribeiro

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O que vem Depois da Graça? Com a Palavra Ricardo Barbosa

A ruptura que muitos cristãos fazem entre o Antigo e o Novo Testamento, entre lei e graça, entre mandamento e amor, compromete tragicamente a formação do caráter cristão. O processo que envolve o crescimento e o amadurecimento cristão requer obediência consciente e diligente. Uma passagem bíblica que expressa bem isto está em 2 Pedro 1.4-7: “[...] ele nos deu as suas grandes e preciosas promessas, para que por elas vocês se tornassem participantes da natureza divina e fugissem da corrupção que há no mundo [...]. Por isso mesmo, empenhem-se para acrescentar à sua fé a virtude, à virtude o conhecimento; ao conhecimento o domínio próprio [...]”.
 
As promessas foram cumpridas em Cristo. O propósito de Deus para o ser humano foi revelado. O caminho do crescimento espiritual foi escancarado com a vida, morte e ressurreição de Cristo. Maturidade cristã é tornar-se participante da natureza divina, revelada em Cristo. É por causa disso que devemos abandonar a corrupção que existe no mundo e nos entregar, deliberadamente, às virtudes, ao domínio próprio, à perseverança e a tudo o que nos leva a ser semelhantes a Cristo.
 
É possível fazer isto sozinho? Não. Jesus afirmou: “[...] sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Somente a graça de Deus pode realizar isto em nós. Porém, se eu nada fizer, nada será feito. É aqui que a obediência e o amor se encontram na experiência da fé. Os mandamentos de Deus não são uma negação de sua graça e amor, são sua afirmação. É a obediência aos mandamentos que nos leva a experimentar o amor divino.
 
Pedro afirma que precisamos nos empenhar para acrescentar à nossa fé a virtude, o domínio próprio, a perseverança, a piedade, a fraternidade e o amor. Sou eu que tenho de me empenhar. A responsabilidade é minha. Ninguém fará isto por mim. Consigo fazer isto por conta própria? Não. Preciso da graça de Deus. Contudo, se eu não me esforçar para fazer, nada será feito.
 
A formação do caráter cristão requer uma experiência intensa e poderosa com a graça de Deus. Deus, em Cristo, nos revelou seu amor, cumprindo por meio dele todas as promessas. Fomos salvos, regenerados e transportados do império das trevas para o seu reino de amor, justiça e paz. O caminho foi trilhado por ele, ele é o primogênito da nova criação. Sua vida consistiu em fazer a vontade do Pai e realizar a sua obra.

A formação do caráter cristão requer a mesma obediência aos mandamentos de Deus. Um cristão passivo e apático jamais experimentará o real significado da graça divina e, mais cedo do que imagina, perceberá a fragilidade de seu amor por Deus. Não deixamos de obedecer a Deus por falta de amor, deixamos de amá-lo por não obedecer-lhe.

Trechos do artigo de mesmo título do autor na edição 341 da revista Ultimato

Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília.


Presb. Cícero da Silva Pereira

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Se João Batista Fosse Famoso


Luzes, câmeras, multidão. Esta é a marca do sucesso. Esta é a dica de que algo está funcionando. Pelo menos é isso que a gente vê hoje em dia. João Batista era um “produto exportação” do seu tempo. Tinha até estilo exclusivo (“usava uma roupa feita de pelos de camelo e um cinto de couro e comia gafanhotos e mel do mato”, v.6). Hoje em dia isso aumentaria o seu sucesso e alavancaria os multiprodutos com a sua marca: Grife JB, Snacks em forma de grilo com gostinho de mel, artigos de couro do João, além da família de bonecos. Pelo menos quatro linhas de produtos de sucesso, sem contar os milhões de acessos garantidos nos reprodutores de mídia online que lhe dariam bons retornos financeiros com os patrocínios no seu canal exclusivo.
Ele tinha uma mensagem forte, tinha uma imagem forte, tinha uma presença marcante; ele tinha um público fiel, tinha influência sobre as pessoas, era popular. Ele tinha tudo pra ser a estrela da sua geração. Ele tinha seus seguidores, seus discípulos. Ele até foi confundido com o Messias que haveria de libertar o povo. Talvez muitos a sua volta o serviam, davam presentes, ofereciam seus “préstimos”. Tudo estava dando certo. Tudo estava correndo bem. Dá até pra imaginar o “ar” de satisfação de seus “assessores e diretores de marketing”.
No “auge da sua carreira”, entretanto, João faz uma declaração que poderia deixar todos perplexos. Ele diz que havia alguém “mais importante do que ele”. Isso não é uma coisa que uma celebridade pode dizer a qualquer um e a qualquer momento. Ele vai além: “não mereço a honra de me abaixar e desamarrar…”. Como pode João falar isso?! Primeiro, abaixar-se para alguém é um sinal de submissão; segundo, desamarrar as correias de uma sandália era função de um escravo bem “rebinha”, talvez o de mais baixo valor da casa; terceiro, ele diz que isso seria uma honra; quarto, ele reconhece que não merece tal honra. Que que é isso, rapaz!
No auge do sucesso João se coloca na mais baixa condição. Mas ele não se importa, nem treme, nem sua a frio, nem titubeia. Declara de boca cheia e com imensa convicção. Este antimarketing poderia causar um grande prejuízo nos empreendimentos com a sua marca e sua imagem. Mas ele não se importava, porque sabia que maior que o seu discurso era aquele a quem ele estava preparando o caminho. João sabia que mais valiosa que a sua popularidade era a integridade da sua missão. Sabia que o melhor lugar era estar aos pés de Jesus, mas que isso não dependia dos seus méritos, e sim da graça divina.
Ao avaliar o decorrer da história, logo chego à conclusão de que mais alto que o topo do mundo é o lugar onde reconhecemos que desamarrar as sandálias do nosso Senhor é uma honra, e não a merecemos.
Popularidade hoje é fácil de conquistar. Integridade e fidelidade à missão é uma outra história. Façam as suas escolhas.
“Muitos moradores da região da Judeia e da cidade de Jerusalém iam ouvir João. Eles confessavam os seus pecados, e João os batizava no rio Jordão… Ele dizia ao povo: – Depois de mim vem alguém que é mais importante do que eu, e eu não mereço a honra de me abaixar e desamarrar as correias das sandálias dele”. (Marcos 1.5-7)


Intercâmbio feito por Rodrigo Ribeiro

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

UMP INDICA: Mochila nas Costas e Diário na Mão - A fascinante história de Ashbel Green Simonton

Este livro, escrito pelo Rev. Elben Lenz César e publicado pela editora ultimato, apresenta a biografia do Rev. Ashbel Green Simonton, pioneiro do presbiterianismo no Brasil. De fácil e agradabilíssima leitura, Simonton nos é apresentando ainda na infância nos EUA, passando pelo seu chamado ministerial, sua firme decisão de pregar o evangelho em terras brasileiras e a sua vinda para cá em 18 de junho de 1859, a bordo do navio Banshee e desembarque na Baía da Guanabara em 12 de agosto do mesmo ano. Seguindo-se a isso, são apresentados momentos diversos na vida de Simonton, como morte da esposa, a luta contra a escravidão, a organização da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, bem como do Presbitério de mesmo nome, a organização do primeiro jornal protestante da América do Sul (1864), o primeiro seminário (1867) e ordenação do primeiro pastor brasileiro, o Rev. José Manuel da Conceição, em 1865.

O autor também nos brinda com uma bela apresentação do contexto histórico do Brasil e do mundo. Em um dos casos, mostra como a abertura dos portos, promovida por D. João VI, abriu as portas para a evangelização em nossa terra.

Bom, agora é conhecer, ler e aprender mais com a vida desse homem que se dedicou a pregar o evangelho em terras tupiniquins.

Para adquirir e ver outros materiais acerca do livro , acesse o site http://ultimato.com.br/sites/simonton/

Presb, Cicero Pereira
@ciceroeiris


Uma conversa com o autor de Mochila nas Costas e Diário na Mão.
httpv://www.youtube.com/watch?v=4jH3Ctq5TOI 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O fato de a mente humana ser decaída, por causa do pecado, é razão para desprezarmos o intelecto em favor das emoções? Com a Palavra, John Stott


"O fato de que a mente do homem é decaída não nos pode servir de desculpa para batermos em retirada, passando do pensamento à emoção, já que o lado emocional da natureza humana está igualmente decaído. De fato, o pecado traz mais efeitos perigosos à nossa faculdade de sentir do que á nossa faculdade de pensar, porque nossas opiniões são mais facilmente controladas e reguladas pela verdade revelada do que nossas experiências."

Trecho do  livro CRER É TAMBÉM PENSAR DE JOHN STOOT  já indicado aqui ( http://ump-da-quarta.blogspot.com.br/2011/08/ump-indica-crer-e-tambem-pensar-um.html ), publicado pela editora ABU.

Presb. Cícero da Silva Pereira

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Vamos voltar a “pecar” biblicamente?

Ouve-se por aí que o cristianismo inventou o pecado. Não pode haver mentira maior. A noção de errar o alvo, de macular o sagrado, de vandalizar o “shalom” no qual deveríamos estar vivendo, sempre esteve conosco. Todas as religiões do mundo comportam definições, razões e características para o pecado. Filósofos pré-cristãos, como Platão e Aristóteles, lidaram com a ideia. Portanto, o pecado não é uma invenção cristã, como querem alguns detratores mal-informados. 


É parte da condição humana o julgar-se a si mesmo, o estabelecer ideais para a vida e para o comportamento moral dos indivíduos. O saber-se pecador não torna ninguém pior, antes, o torna capaz de fazer mudanças. Assisti, recentemente, ao filme “We need to talk about Kevin”. Tilda Swinton representa a mãe de um adolescente que se torna um assassino em massa. O filme narra o terror da mãe vendo o filho crescer sem consciência moral. A definição clássica de “sociopata” é esta: alguém que não é capaz de sentir dor, arrependimento, nem qualquer tipo de reação pelo mal que causa. O sociopata é o cara “sem pecado”.

A noção de pecado também não faz mal à sociedade. Toda sociedade humana impõe limites morais à ação de seus indivíduos. Toda sociedade humana tem algum tipo de definição de moralidade sexual, por exemplo. Uma de nossas tristes descobertas na Amazônia foi que o nível de promiscuidade das comunidades indígenas estava diretamente ligado ao seu desejo de autoextermínio.

Uma comunidade Nawa entre o Brasil e o Peru, por exemplo, que à primeira vista tinha um conceito muito fluido de família e cuja permissividade total afetava as crianças e até mesmo os animais que criava, revelou-se, num estudo mais cuidadoso, ser uma sociedade suicida. A tribo sofreu, durante anos, violentos estupros em massa, a marca registrada de seu contato com os “brancos”. Os homens não se respeitavam porque não foram capazes de proteger suas mulheres. As mulheres não conseguiam amar os filhos do ódio, nem a si mesmas. O desespero existencial tomou conta da tribo. O sexo perverso, arma de guerra usada contra o povo para conduzi-lo à subserviência, era então usado pelo próprio povo para produzir autoaniquilação. A família -- e as noções de restrição sexual que a acompanham -- representa a sobrevivência do povo. Ao abandonar-se a família, abandona-se a vida. O sexo irrestrito é suicídio generacional.


Qualquer semelhança com o desprezo que a sociedade ocidental contemporânea tem por si mesma e com a maneira como está pretendendo eliminar qualquer noção de moralidade sexual não é mera coincidência.


A diferença, porém, entre o pecado cristão e os outros é grande. Na Bíblia, o pecado nos nivela a todos por baixo. Seres humanos são caídos, não importa nossa posição social ou religiosa. Precisamos igualmente da graça. Não há quem escape à condição de dependente da graça. Não há oferta milionária que nos torne mais dignos na presença de Deus.


O pecado bíblico tem consequências terríveis, aqui e no além. O pecado bíblico dói em nós e no Deus que nos criou. Quando transo fora do casamento, não estou atendendo uma necessidade “legítima”. Quando falo mal do irmão, não há “causa nobre” que me justifique. Quando tiro o que não é meu, não é uma “bênção” que recebi. É pecado. Pecado gera morte.


Nosso cristianismo precisa ressuscitar a noção de pecado. Há pecado, sim, do lado de baixo do Equador. Sem atentarmos para a seriedade do pecado não há como amarmos a graça. O cristianismo não inventou a culpa; ela faz parte da nossa condição humana. O cristianismo inventou o perdão. Mas por que graça e perdão, se minimizarmos a noção de pecado? 


• Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona com sua família e está envolvida em projetos de tradução da Bíblia nas ilhas do Pacífico. É autora de Chamado Radical.