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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A Reforma Protestante ainda nos Ajuda Hoje?



Quem já observou um pedreiro assentar tijolos certamente o viu usar um prumo. Ainda que antiquíssima, esta ferramenta não fica devendo a equipamentos sofisticados: não precisa de pilha para funcionar; é fácil de manusear e revela com precisão o que está fora de prumo!

Quando Deus o chamou, o profeta Amós viu que “o Senhor, com um prumo na mão, estava junto a um muro construído no rigor do prumo. E o Senhor me perguntou: 'O que você está vendo, Amós?' 'Um prumo', respondi. Então disse o Senhor: 'Veja! Estou pondo um prumo no meio de Israel, o meu povo; não vou poupá-lo mais. Os altares idólatras de Isaque serão destruídos e os santuários de Israel ficarão em ruínas'” (Am 7.7ss.).

Um prumo na mão de um pedreiro descreve com precisão como Deus agiu e continua agindo com o seu povo! Ele criou a humanidade para viver aprumada. O “muro construído no rigor do prumo” alude ao fato de sermos criados à “imagem de Deus” (Gn 1.27). Mas ao encostar seu prumo na nossa vida fica evidente que ela está fora de prumo: não somos o que deveríamos ser!

Instrumentos de Deus em seu tempo

No século 16 Deus encostou seu prumo, as Sagradas Escrituras, na igreja. Seus instrumentos foram um monge alemão que lecionava numa universidade provinciana (Lutero), um padre suíço duma cidade de médio porte (Zwinglio), um jovem acadêmico francês (Calvino). Estes homens anunciaram o que perceberam em púlpitos e cátedras, assembleias e tribunais, bem como em panfletos e livros.

Eles sabiam que a validade dum prumo não expira, que a palavra de Deus continua válida e revela o que está aprumado diante dele e o que não! Sabiam também que um prumo funciona de cima para baixo! A posição da peça de madeira no alto determina a posição da de metal em baixo. Assim as Escrituras Sagradas são instrumento do Altíssimo e manifestavam sua vontade entre nós. Jesus criticou os saduceus, porque eles – apesar de sacerdotes (!) – desconheciam “as Escrituras” e “o poder de Deus!” (Mt 22.29; Mc 12.24). Ao redescobrirem o evangelho os reformadores reconheceram que o poder do Criador age pela Escritura para aprumar nossa vida! Por isto não se cansaram de estudá-la e interpretá-la.

Nosso ambiente é outro

Vivemos num mundo deveras diferente do de Lutero, Zwinglio e Calvino. Talvez você lembre o desenvolvimento tecnológico. Sim, eles viajavam em carroças, nós em automóveis e aviões; escreviam com penas de ganso, nós digitamos num tablet; eles se relacionavam olho no olho, nós, pelo Facebook; etc.

Ainda que isto molde nossa vida cotidiana, a maior diferença para o tempo da Reforma é que, então, se vivia numa cultura cristã homogênea, enquanto que hoje vivemos num ambiente pluralista e pós-cristão. Quando recorriam às Escrituras Sagradas, os reformadores não precisavam convencer seus contemporâneos da sua autoridade. Nós, no entanto, não podemos mais pressupor que as pessoas à nossa volta a reconheçam. Vivemos em meio a um ferrenho concurso de verdades e convicções.

Por isto não basta repetir os reformadores, mas devemos aprender deles a atentar para o prumo de Deus a fim de anunciar ao nosso tempo o que Deus está revelando. Os reformadores podiam pressupor que seus contemporâneos entendiam sua vida e o mundo baseados na cosmovisão cristã. Nós precisamos aprender a articular com clareza como encaramos a vida e o mundo e que diferença isto faz em relação a outras propostas. Quem não conhece o Deus da Bíblia precisa desta oportunidade.

Quando ele encosta seu prumo em nós, fica evidente o que não está aprumado. É assustador perceber quanta resistência há em nós, mas é revigorante poder admitir a ajuda de Jesus Cristo. Ele “agiu para consertar as coisas nesta vida de contradições com a qual quero servir a Deus de todo coração e mente, mas sou puxado pela influência do pecado, e acabo fazendo algo que não desejo” (Rm 7.25 – A Mensagem). O mesmo poder do Espírito de Deus que atuou nos profetas e na Reforma Protestante, nos ajudará a crer nele e a obedecer hoje.

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Martin Weingaertner, nascido em Santa Catarina (1949), é diretor da Faculdade de Teo-logia Evangélica em Curitiba (FATEV) e editor do devocionário “Orando em Família”. Seu casamento com Ursula foi abençoado com 5 filhos e 8 netos.


Intercâmbio feito por Rodrigo Ribeiro

terça-feira, 5 de março de 2013

Uma Reflexão sobre Tolerância


Houve um tempo em que tolerância era sinônimo de respeito á liberdade de expressão. O tolerante era aquele defendia o direito que todos se manifestassem acerca de suas crenças e opiniões, de forma livre e respeitosa. Neste o tempo muitos seguiam Voltaire em sua afirmação que poderia discordar de alguém, mas lutaria sempre que esta pessoa tivesse o direito de se expressar. Este era o significado antigo de tolerância.

Neste sentido, os protestantes historicamente, apesar de haverem algumas oscilações, se posicionaram a favor desta postura, pelo fato de surgirem como uma oposição à igreja hegemônica e valer-se da liberdade para defender a fé reformada. Alguns historiadores chegam ao ponto de afirmar que o calvinista era antes de tudo um fanático por liberdade. Deste modo, o legado protestante, salvo exceções, é sim tolerante, ao defender a liberdade de expressão e crença, tendo sido isto evidenciado, por exemplo, durante a ocupação holandesa durante o período colonial no Brasil, onde houve uma inédita liberdade religiosa, enquanto durou aquela ocupação.

Entretanto, houve uma sútil mais significativa transição do valor atribuído à palavra tolerância. Se no passado o tolerante era aquele que apoiava manifestações ainda que contrariasse suas convicções, no mundo pós-moderno, o tolerante é aquele que não tem convicção alguma. Aquele que defende suas ideias como absolutas, ainda que respeite os que pensam de modo diverso são tidos como intolerantes. Como fazer em tolerância sem diversidade de pensamento? Esta é a atual realidade contraditória no qual o conceito de tolerância encontra-se situado.

Desta forma os que outrora eram tidos como tolerantes, são vistos como intolerantes só por terem convicções firmes, ainda que sejam favoráveis à liberdade de expressão. Na verdade, os “novos tolerantes” é que afligem à liberdade alheia ao agirem com perseguição a todos que tem crenças definidas e absolutas, esquecendo-se de aplicar sua pretensa tolerância a estes. Em nossa sociedade distorcida e incoerente, o intolerante é recebido por tolerante, enquanto fustiga a liberdade de expressão e escraviza mentes mediante um discurso disfarçado de pluralista, mas que na verdade é aniquilacionista de qualquer verdade ou certeza.

Em alguns casos a desonestidade intelectual é tamanha ao ponto de alguns intelectuais compararem as posturas de alguns cristãos à radicais islâmicos, sem levar em conta o fato de que aqueles se opõe de forma legítima e não-violenta a certas bandeiras, e isto é lícito. O contraditório deve ser tolerado. Ou todos podem ter espaço, menos as posições bíblicas? Que tipo de tolerância seletiva é esta? Comparar aqueles que se opõe a determinadas práticas com homens que utilizam de violência para impor suas crenças é simplesmente inapropriado, além de denotar manifesta má-fé. 

No que cabe a nós, povo de Deus, devemos lutar por uma igreja e sociedade tolerante, no sentido clássico, pregando a verdade do evangelho, mas valorizando a liberdade dos outros, visto que outrora também já fomos estrangeiros, escravizados pelo pecado como estes hoje são (Lv. 19.33-34). Devemos ser tolerantes, não tendo como base uma filosofia pluralista, mas sim como uma teologia de misericórdia.

De igual modo a igreja de Cristo deve se opor de forma constante e inabalável contra todos os que desejam perverter a verdadeira tolerância, agindo de forma truculenta e nada tolerante contra todos que não abrem mãos de suas opiniões, em nome de um falso pluralismo, que na verdade não respeita os diferentes, mas deseja que todos sejam igualmente nulos em seus pensamentos.

Sejamos tolerantes, mas que saibamos exatamente que tipo de tolerância devemos ter e qual devemos rejeitar.


Rodrigo Ribeiro
@rodrigolgd

Este texto foi baseado na aula nº 11 da revista Nossa Fé – O que é isso?, publicada em 2012 pela Editora Cultura Cristã.