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segunda-feira, 19 de maio de 2014

O Padrão Fifa e o Padrão Cristão de Qualidade

E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor,
e não aos homens (...) Cl 3:23

Os preparativos para o mundial de futebol que acontece aqui no Brasil tem sido um dos assuntos mais discutidos em nossos dias. Todos ficamos impressionados com o nível de exigência da Fifa (Federação Internacional de Futebol) com os preparativos para a realização do grande evento esportivo. Tal grau de perfeccionismo exigido acabou por popularizar em nosso país o termo “Padrão Fifa de Qualidade”.

Como cristãos nós também possuímos um excelente Padrão de Qualidade!

 A Bíblia nos chama atenção quanto à necessidade de sermos zelosos no desempenho de nossas tarefas como um todo: "Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1Co 10.31). O sistema calvinista observa que o cristão não deve fazer distinção perante seus afazeres, entendendo que tudo deve ser feito visando a glória de Deus em todo e qualquer empreendimento realizado. Sendo igualmente importantes todos os afazeres, das mais simples às mais complexas atividades, remuneradas ou voluntárias, profissionais ou recreativas.

Este padrão de qualidade é norteado por uma concepção correta de qual seja o propósito da vida humana, fazer tudo para o Senhor (Rm 14:7) e glorificá-lo nos mais diversos âmbitos de suas ações. Este é naturalmente o agente propulsor de todos os nossos afazeres.  E este entendimento desfaz por completo o pensamento daqueles que equivocadamente tratam de forma diferenciada suas ocupações, julgando-as por menos ou mais importantes.

Existem crentes que pensam que atividades tidas como secular, como trabalhar, e estudar, por exemplo, podem ser feitas de qualquer jeito, superestimando apenas os trabalhos desenvolvidos na Igreja; outros, por sua vez, dão maior ênfase às atividades mundanas, sendo relapsos quanto as funções eclesiásticas.

Mas a Palavra de Deus não faz este tipo de distinção, mas encoraja a fazer tudo “como ao Senhor” e para a glória de dEle, e isto incluiu toda e qualquer ação do cristão, como bem afirmou Willian Tyndale: “Há uma diferença entre lavar louças e pregar a palavra de Deus; mas no tocante a agradar a Deus; nenhuma em absoluto” [1].

Nosso trabalho deve ser feito com tal empenho perante os homens que estes glorifiquem a Deus por meio de nosso labor:  “mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação”. (1 Pe 2:12). Portanto, nosso exemplo de competência e submissão na vida profissional, bem como nosso zelo no lar, e dedicação nos estudos e em todos os demais âmbitos de nossas ações devem culminar em honras e louvor ao Criador. Nossa fé deve nos encorajar a realizar com máximo de diligência tudo aquilo que nos foi confiado. Sendo desprezível, pecaminoso e inconcebível todo desleixo e falta de empenho nas obras para as quais o Senhor nos designou, seja na Igreja ou fora dela.

Que Deus nos ajude para que nosso padrão de qualidade seja por demais elevado, e que esta consciência de estarmos sempre fazendo tudo “como se fosse pra Deus”, aumente sobremaneira nossos esforços. Afinal de contas, se homens buscando sua própria glória empenham todas suas aptidões e talentos fazendo o melhor que podem, temos motivos de sobras para fazermos todas nossas tarefas com muito mais excelência, pois a glória de Deus é nosso objetivo maior. E que motivação nós temos! Se levarmos isto realmente a sério, nenhum Padrão Fifa será mais elevado quanto o Padrão Cristão de Qualidade.


[1] RYKEN, Leland. Santos no Mundo: Os Puritanos como Realmente eram. 2. Ed. São José do Campos, SP: Editora Fiel, 2013. pp. 61,62.

Ericon Fábio

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Como o trabalho glorifica a Deus? Com a Palavra, John Stott




Deus organizou deliberadamente a vida de tal maneira que ele precisa da cooperação dos seres humanos para o cumprimento dos seus propósitos. Ele não criou o planeta terra para ser produtivo por si mesmo; os seres humanos tinham que subjugá-lo e desenvolvê-lo. Ele não fez um jardim cujas flores se abririam e os frutos amadureceriam por conta própria; ele designou um jardineiro para cultivar a terra. Chamamos isso de “mandato cultural” que Deus deu à raça humana. “Natureza” é o que Deus nos dá; “cultura” é o que nós fazemos com ela. Sem um agricultor humano, todo jardim ou campo se degeneraria rapidamente, transformando-se num deserto.


Na verdade, Deus fornece o solo, a semente, o sol e a chuva, mas nós temos que arar, plantar e colher. Deus fornece as árvores frutíferas, mas nós temos que podá-las e apanhar os frutos. Como Lutero disse certa vez num sermão sobre Gênesis, “Pois por seu intermédio Deus trabalhará todas as coisas; ele vai ordenhar as vacas e desempenhar as tarefas mais humildes por meio de você, e todas as tarefas, da maior até a menor, serão agradáveis a ele”. De que valeria a provisão que Deus faz para nós de uma vaca cheia de leite se nós não estivéssemos lá para ordenhá-la?

Assim, há cooperação, na qual nós realmente dependemos de Deus, mas na qual (acrescentamos reverentemente) ele também depende de nós. Deus é o Criador; o homem é o agricultor. Cada um necessita do outro. No bom propósito de Deus, criação e cultivo, natureza e criação, matéria-prima e perícia profissional humana são indissociáveis. Esse conceito de colaboração divino-humana é aplicável a todas as tarefas honrosas. Deus se humilhou e nos honrou ao fazer-se dependente da nossa cooperação. Observe o bebê humano, talvez a mais desamparada de todas as criaturas de Deus. As crianças são, sem dúvida, “presentes do Senhor”, embora a procriação seja, em si mesma, uma forma de cooperação. Depois do nascimento, é como se Deus lançasse o recém-nascido nos braços da mãe e dissesse: “Agora você cuida”. Ele confia aos seres humanos a criação de cada criança. Nos primeiros dias o bebê parece até ser parte da mãe, de tão próximos que os dois estão. E por muitos anos as crianças são dependentes de seus pais e professores.

Até mesmo na idade adulta, apesar de dependermos de Deus para a própria vida, dependemos uns dos outros para as necessidades da vida. Isso inclui não apenas as necessidades básicas da vida física (alimento, vestuário, habitação, afeto, segurança e cuidados médicos), mas também tudo que engloba a riqueza da vida humana (educação, recreação, esportes, viagens, cultura, música, literatura e as artes), para não mencionar a nutrição espiritual. Assim, qualquer que seja nosso trabalho – em uma das profissões (ensino, medicina, leis, serviços sociais, arquitetura ou construção), nas políticas nacional ou local ou no serviço civil, na indústria, no comércio, no cultivo do solo ou na mídia, em pesquisa, na administração, no serviço público ou nas artes, ou em casa – devemos vê-lo como sendo cooperação com Deus. As palavras de Ambroise Paré, o cirurgião francês do século 16 que algumas vezes foi descrito como “fundador da cirurgia moderna”, estão inscritas no muro da École de Médicine em Paris: “Eu fiz o curativo no ferido; Deus o curou”.

Trecho retirado de Os cristãos e os desafios contemporâneos, de John Stott, publicado pela Editora Ultimato (Para conhecer a obra e adquirir, clique no link acima)

Presb. Cicero da Silva Pereira
https://www.facebook.com/cicero.dasilvapereira

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Em Busca de Serviço

Esta afirmação é digna de confiança: Se alguém deseja ser bispo , deseja uma nobre função. 1 Timóteo 3:1


Não é incomum que aqueles que são logo desde a juventude vocacionados ao sagrado ministério se vejam numa situação inquietante em relação às eleições dos cargos que Deus usa para comunicar Sua vontade em relação ao governo da igreja (1 Tm 4:12-16). O dilema parece ser, na maioria dos casos, entre a convicção interna do chamado e a relativa demora do reconhecimento dele pela comunidade através da ordenação do cargo.

Desejar o presbiterato é desejar uma nobre FUNÇÃO, que Deus designa a quem quer, conforme Sua vontade e edificação do corpo (Ef 4:11-17). É uma característica marcante dos falsos mestres o desejo do cargo pelo poder eclesiástico que se constitui ou a deferência da comunidade (3 João 1:9-12).

Esses, que pensam que o presbiterato é uma ascensão social, sempre acabam expostos como de fato são: carnais. Antes da eleição sempre disponível, ativo na obra, piedoso e exemplar. Porém ao ser eleito, ausenta-se sem motivo justo, não tem prioridade em estudar e ensinar as Escrituras ou muito menos viver uma vida comum com os irmãos para ser exemplar (2 Tm 2:1-8).

Para não incorrer nesse erro, jejue e ore sobre o assunto pedindo a Deus que lhe esclareça quais são as verdadeiras motivações que habitam seu coração. Arrependa-se de todas que não sejam iguais a de Jesus: servir em amor (Jo 13:12-18). Quem quer servir em amor:

  1. Não se ressente do resultado das eleições, pois sabe que o escrutínio é acima de tudo um instrumento de Deus para eleger aqueles que Ele mesmo já determinou pela sua livre  e soberana vontade (At 14:21-24).
  2. Não quer "mostrar serviço", para de alguma forma alcançar popularidade e aceitação necessárias para a eleição. Quem assim age é como Absalão que por muita conversa e bajulação quis usurpar o trono de Davi (2 Sm 15:1-7). Considere bem o fim dele, morto por causa de sua própria vaidade,  e não queira o mesmo pra si (2 Sm 18:9-18)
  3. Não quer provar quem é, não precisa ter seu "ponto de vista" imposto aos outros ao custo da verdade em amor que deve ser vivida na igreja. Quem quer ser inquestionável, não pode ser irrepreensível. O verdadeiro servo dá a outra face, anda a segunda milha. Ensina com doutrina e mansidão. (2 Tm 2:15-26).
  4. Deseja o bem da comunidade e não submetê-la a sua própria vontade. Esforça-se em por em prática o amor na disposição de servir a igreja com seus dons e talentos, ou seja, com a capacitação sobrenatural do Espírito Santo e com os recursos disponíveis que Deus lhe confiou para receber do Senhor a recompensa (1 Pe 5:1-5).

Se você deseja ser usado por Deus em sua fraqueza para o benefício da sua igreja e assim glorificar a Deus, não faltarão oportunidades no corpo para que você possa servir.


Presb. Gleidson Lacerda

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Hoje é Sexta-Feira!

Um dia, um colega de trabalho, em tom de brincadeira, disse-me que, toda vez que escuta a vinheta do Fantástico depois do tradicional “boa-noite”, entra em depressão, uma vez que o final de semana está acabando. Para a maioria das pessoas, o trabalho é algo enfadonho e a verdadeira vida consiste na folga dos finais de semana e feriados. Mas, por que as pessoas se sentem assim? Por que o trabalho parece um fardo? Neste texto, trataremos da doutrina bíblica do trabalho e tentaremos responder a essas perguntas.

O entendimento reformado sobre o trabalho, desde o seu início, foi contrário à concepção católica sobre o tema. A percepção medieval católica sobre o trabalho, influenciado pelo pensamento grego, entendia que apenas o trabalho filosófico ou teológico e o serviço militar teriam valor para a sociedade. As outras profissões seriam ocupações de menor importância ou um mal necessário. Os reformadores, por outro lado, enfatizaram a importância do trabalho e vincularam-no à vida espiritual do cristão. Segundo o entendimento reformado, o homem foi criado para o trabalho e só pode plenamente ser feliz e realizado quando cumpre a sua vocação nesse mundo.

No entanto, o pietismo terminou influenciando negativamente o entendimento evangélico sobre o assunto. O pietismo foi um movimento oriundo do luteranismo, surgido no século XVII, que enfatizava a dimensão devocional do crente. Com sua ênfase excessiva na espiritualidade, esse movimento terminou confinando a igreja nas suas quatro paredes, ao ensinar que toda a nossa vida deve estar vinculada, de alguma maneira, às nossas atividades eclesiásticas. Dessa maneira, tudo aquilo que fosse “secular”, como o trabalho, por exemplo, passou a ser sem importância, ou, apenas, um meio para alcançar outras pessoas para o Evangelho.

Não obstante, a Bíblia ensina que o trabalho foi estabelecido por Deus na criação e não é consequência da queda. Em Gn 1.26-28, vemos que Deus criou o homem a Sua imagem e semelhança e ordenou que o ser humano tivesse domínio sobre toda a criação e a sujeitasse. A ordem dada por Deus é denominada pelos teólogos de “mandato cultural”, segundo o qual o homem deveria governar todo o mundo e preservá-lo, o que abrange o envolvimento com todas as áreas do conhecimento. Essa tarefa, por óbvio, implica esforço, dedicação, aplicação de tempo, ou seja, trabalho. É importante frisar que o mandato cultural foi dado antes da queda, de maneira que não se pode afirmar que o trabalho é um juízo de Deus sobre o ser humano.

Apesar da queda, como cremos na restauração de todas as coisas, devemos viver nesse mundo de maneira coerente com a nossa esperança. Como cristãos, cremos, de acordo com Rm 8.22-25, que, um dia, toda a criação será restaurada. Assim, devemos cumprir o nosso “mandato cultural”, conforme estabelecido por Deus na criação. Portanto, o trabalho não deve ser encarado como uma atividade enfadonha e cansativa. Também não deve ser compreendido, apenas, como uma maneira de ganhar dinheiro e ser bem sucedido. O nosso trabalho deve ser visto como uma forma de glorificar a Deus.

O trabalho traz significado e propósito para a vida. O entendimento adequado da doutrina bíblica do trabalho confere significado e propósito ao ser humano quando vincula as atividades do nosso dia a dia a um projeto maior, eterno, transcendente. Além disso, toda profissão passa ter importância. O médico e o gari, o advogado e o sapateiro, o engenheiro e o agricultor, todos, sem exceção, estão envolvidos em um projeto grandioso e eterno: promover a glória de Deus.

A promoção da glória de Deus não está vinculada, necessariamente, a uma “atividade espiritual”. Com isso, devemos entender que glorificamos a Deus pelo simples fato de executamos nosso trabalho com dedicação e excelência. Glorificar a Deus no trabalho não significa ler a Bíblia, orar ou realizar cultos no horário de trabalho. Na realidade, quando agimos dessa maneira, estamos descumprindo o “mandato cultural”, pois o tempo que deveria ser dedicado ao trabalho está sendo dividido com as nossas “atividades espirituais”. Quando somos excelentes profissionais, o nosso bom testemunho nos dá credibilidade para compartilhar a nossa fé com os nossos colegas, em um intervalo, ou fora do ambiente de trabalho.

Um dia, perguntaram a Lutero o que ele faria se soubesse que Jesus voltaria amanhã, ao que ele respondeu: Eu plantaria uma árvore. Com isso o grande reformador quis dizer que Deus se agrada de nossa atividade comum e fiel nesse mundo. A compreensão adequada da doutrina do trabalho deve mudar a nossa relação com o trabalho. Pensar dessa maneira nos dá motivos para nos alegrar com o nosso trabalho, a executá-los com excelência e dedicação. Que Deus nos dê a bênção de ver o trabalho de uma maneira diferente e conectá-lo com a promoção da Sua glória e do Seu louvor. 

Soli Deo Gloria


Presbítero Davy Jones