Mostrando postagens com marcador Criação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Criação. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Quem é Deus? Com a Palavra, Agostinho de Hipona

O que sei, Senhor, sem sombra de dúvida, é que te amo. Feriste meu coração com tua  palavra, e te amei. O céu, a terra e tudo quanto neles existe, de todas as partes me dizem que te  ame; nem cessam de repeti-lo a todos os homens, para que não tenham desculpas. Terás compaixão mais profunda de quem já te compadeceste; e usarás de misericórdia com quem já foste misericordioso. De outro modo, o céu e a terra cantariam teus louvores a surdos.

Mas, que amo eu, quando te amo? Não amo a beleza do corpo, nem o esplendor fugaz, nem a claridade da luz, tão cara a estes meus olhos, nem as doces melodias das mais diversas canções, nem a fragrância de flores, de unguentos e de aromas, nem o maná, nem o mel, nem os membros tão afeitos aos amplexos da carne. Nada disto amo quando amo o meu Deus. E, contudo, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento, um abraço de meu homem interior, onde brilha para minha alma uma luz sem limites, onde ressoam melodias que o tempo não arrebata, onde exalam perfumes que o vento não dissipa, onde se provam iguarias que o apetite não diminui, onde se sentem abraços que a saciedade não desfaz. Eis o que amo quando amo o meu Deus!

Então, o que é Deus? Perguntei à terra, e ela me disse: “Eu não sou Deus”. E tudo o que nela existe me respondeu o mesmo. Perguntei ao mar, aos abismos e aos répteis viventes, e eles me responderam: “Não somos teu Deus; busca-o acima de nós”. Perguntei aos ventos que sopram; e todo o ar, com seus habitantes, me disse: “Anaxímenes está enganado eu não sou Deus”. Perguntei ao céu, ao sol, à luz e às estrelas. “Tampouco somos o Deus a quem procuras” – me responderam.

 Disse então à todas as coisas que meu corpo percebe: “Dizei-me algo de meu Deus, já que não sois Deus; dizei-me alguma coisa dele” – e todas exclamaram em coro: “Ele nos criou” – Minha pergunta era meu olhar, e sua resposta a sua beleza.

Dirigi-me, então, a mim mesmo, e perguntei: “E tu, quem és?” – e respondi: “Um homem”. Para me servirem, tenho um corpo e uma alma: aquele exterior, esta interior. Por qual deles deverei perguntar pelo meu Deus, a quem já havia procurado com o corpo desde a terra até o céu, até onde pude enviar os raios de meu olhar como mensageiros? Melhor, sem dúvida, é a parte interior de mim mesmo. É a ela que dirigem suas respostas todos os mensageiros de meu corpo, como a um presidente ou juiz, respostas do céu, da terra, e de tudo o que existe, e que proclamam: “Não somos Deus” – e ainda – “Ele nos criou”. O homem interior conhece essas coisas por meio do homem exterior; mas o homem interior, que é a alma, também conhece essas coisas por meio dos sentidos do corpo.

 Interroguei a imensidão do universo acerca de meu Deus, e ele me respondeu: “Não sou eu, mas foi ele quem me criou”.

Mas essa beleza não se manifesta a quantos têm sentidos perfeitos? E por que não fala a todos a mesma linguagem?

Os animais, pequenos ou grandes, a vêem; mas não podem interrogá-la, porque não receberam a razão que, como juiz, interprete as mensagens dos sentidos. Os homens, porém, podem interrogá-la, para que as perfeições invisíveis de Deus se manifestem pelas suas obras. Mas o amor às coisas criadas os escraviza, e assim os torna incapazes de julga-las. Ora, elas só respondem aos que podem julgar-lhes as respostas. Elas não mudam sua linguagem, isto é, sua beleza, quando um só as vê, e outro as interroga; elas não lhes aparecem diferentes mas, para uns ficam mudas, enquanto falam a outros. Ou melhor: eles falam a todos, mas apenas se entendem os que comparam sua expressão exterior com a verdade interior. De fato a verdade me diz: “Teu Deus não é nem o céu, nem a terra, nem corpo algum. A natureza das coisas o diz para quem sabe ver; a matéria é menor em seus elementos que em seu todo. Por isso, minha alma, digo-te que és superior ao corpo, pois vivificas sua matéria, dando-lhe vida, como nenhum corpo pode dar a outro corpo. Mas teu Deus é também para ti a vida de tua vida. 

Confissões  - Santo Agostinho, Livro X, Capítulo VI

Presb. Cícero da Silva Pereira

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A Hospitalidade da Palavra

Sou impressionado com o poder da palavra, em todas as suas formas e manifestações. As ditas, as não ditas, as malditas e as benditas. Mas sei que não sou só eu. Afinal, tudo começou com ela e tudo terminará com ela; quando o “haja” se consumar em “houve”, e tudo for muito bom.
A palavra cria e destrói; orienta e engana. Por ela, o mundo em que vivemos, o mundo dos significados, é construído pelos “falantes”.
Ao diferenciar um boi de um cavalo, Adão usava palavras para ordenar o seu – e o nosso – mundo. Tarefa que lhe foi incumbida pelo Criador. Ao “nomear” sua realidade, ele lhe atribuía “nomos”, ordem: “cavalo não é boi”.
Assim participou Adão como ajudante humano na criação divina. Ambos proferindo palavras; ambos esculpindo o mundo simbólico em que haveríamos de habitar, com cinzéis verbais.
É assim que, pelo uso da palavra, ordenamos e reordenamos; recebemos e transmitimos nosso “mundo”. É conversando que o colocamos em ordem; aprendendo, validando pensamentos, corrigindo enganos, entendendo o próprio coração, entre tantas outras transformações internas. E fazemos isso intensamente, a todo momento. A conversa serve, portanto, como uma bússola, a funcionar até enquanto dormimos.
Praticamente, muitas vezes chegamos a uma roda de amigos precisando revisar, reestruturar ou construir alguma parte do nosso mundo. Precisamos ouvir opiniões, conselhos, informações. Contudo, para que isso aconteça, temos de falar, contar. E esse discurso se torna muitas vezes caótico, complicado, pois reflete nossa confusão. Porém o fazemos na esperança inconsciente de que nossos amigos nos ajudem com suas reações. Às vezes, basta um sorriso e já vamos “renomeando” o nosso “mundo”. “Não é cavalo, é boi”; “nem tudo está “perdido”, há “esperança””.
Semeador
Pois bem, chamamos de “ministros da palavra” nossos pastores. Com efeito, eles prestam serviço à Igreja, ao pregar e ensinar. Entretanto, considerando que temos sede de verdadeiras palavras, exatamente por vivermos no mundo da informação, proponho um ministério leigo à Igreja: o “sacerdócio universal da palavra”. Explico: toda vez que se reunirem dois ou mais irmãos, acenda-se a luz amarela da palavra. Que se cuide dela como se cuida da oração, da pregação ou do cântico. Não se trata de formalizar as rodinhas, de abolir o riso, a alegria, o bom humor ou a espontaneidade; de transformar qualquer conversa em “culto”, no seu pior sentido, mas de “tirar as sandálias” nesses momentos de conversa.

Se, por um lado, é desagradável a pessoa que tudo “espiritualiza”, também se torna inócuo o irmão que se envergonha da imagem de cristão. A sensibilidade e o Espírito Santo hão de ajudar-nos a transformar simples conversas em momentos agradáveis e edificantes.
O “ministério da palavra” envolve, em particular, o “ouvir”. Quer conhecer um cristão poderoso em obras? Procure-o entre aqueles que se calam para, gentilmente, abrir “espaços de palavra” aos demais. Mas que não nega a sua, quando “for boa para edificação, conforme a necessidade” (Ef 4.29). Chamemos a isso “hospitalidade da palavra”.
O testemunho que se dará desses ministros leigos é que têm o dom do diálogo: “Sentimo-nos acolhidos. E por alguém que se dispõe a compreender o que estamos tentando dizer”.

Rubem Amorese
Publicado em: http://ultimato.com.br/sites/amorese/2013/09/17/a-hospitalidade-da-palavra/
Intercâmbio feito por Iris Bernardo

sexta-feira, 14 de março de 2014

Por Que um Deus Triúno Criaria o Mundo? Com a Palavra, Tim Keller

O Pai, o Filho e o Espírito caracterizam-se em sua essência por um amor que se doa pelo outro. [...] Se este mundo foi criado por um Deus triúno, relacionamentos de amor são a essência da vida.

Veja bem, diferentes visões de Deus trazem implicações diferentes. Se Deus não existe – se estamos aqui por mero acaso, estritamente em consequência da seleção natural -  então, o que eu e você chamamos de amor não passa de uma reação química do cérebro. Os biólogos evolucionistas dizem que não há em nós nada que não esteja lá por ter ajudado nossos ancestrais a passar adiante com maior êxito nosso código genético. Se você sente amor, isso se dá apenas pelo fato de essa combinação de fatores químicos capacitar a sua sobrevivência a levar as partes do corpo para os ocais que eles precisam estar para transmitir seu código genético. Isto é tudo que é o amor: pura química. Por outro lado, se Deus existe, mas é unipessoal, houve um tempo em que Deus não era amor. Antes que ele criasse o mundo, quando havia apenas ama pessoa divina, não havia a quem amar, pois o amor só pode existir em um relacionamento. Se um Deus unipessoal tivesse criado o mundo e os que nele habitam, tal Deus em essência não seria amor. Seria poder e grandeza, possivelmente, mas não amor. No entanto, se por toda a eternidade, sem que tenha havido inicio ou fim, a realidade suprema é uma comunhão de pessoas que conhecem e amam umas às outras, então a realidade suprema tem a ver com relacionamentos de amor.

Por que um Deus triúno criaria o mundo? Se ele fosse um Deus unipessoal, você poderia dizer: “Bem, ele criou o mundo para que tivesse seres que o amassem e o adorassem, que lhe trouxessem alegria.”. Mas o Deus triúno já tinha tudo isso – e em si mesmo recebia amor de uma forma muito mais pura e poderosa do que os seres humanos poderiam lhe dar. Então, por que iria nos criar? Há somente uma resposta. Ele deve ter nos criado não para receber alegria, mas para dar. Ele deve ter-nos criado para nos convidar a entrar na dança, para dizer: Se você me glorificar, se centralizar a sua vida em torno de mim, apreciar minha beleza por aquilo que sou em mim mesmo, então você entrará na dança, que é o motivo pela qual você foi criado. [...] Você é feito para entrar na dança divina com a Trindidade.



KELLER, Timothy. Capitulo 1: A Dança. In: A Cruz do Rei: a história do mundo na vida de Jesus, tradução de Maria K. A. de Siqueira Lopes. São Paulo, SP: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 2012.
Rodrigo Ribeiro
@rodrigolgd

segunda-feira, 25 de março de 2013

UMP INDICA: O Deus que Criou Todas as Coisas (D. A. Carson)


A ump da quarta hoje indica essa pequena reflexão de D.A. Carson. Neste vídeo, ele fala sobre uma implicação de Gênesis 1: “Deus simplesmente é”, mostrando que Deus e não nós é o padrão último e a fonte de todas as coisas.
"Deus simplesmente é. A Bíblia não começa com um grande conjunto de provas para provar a existência de Deus; não começa com uma abordagem de baixo para cima; nem começa com algum tipo de analogia adjacente ou semelhante. Apenas começa: “No princípio, Deus.” Agora, se os seres humanos são o teste para tudo, isso não faz o menor sentido, porque, então, nós temos o direito de sentar e julgar se é provável que Deus exista, avalie a evidência, e venha com: “Há uma certa probabilidade que talvez Deus de uma maneira ou de outra exista.” E assim nós nos tornamos os juízes de Deus. Mas o Deus da Bíblia não é assim. Apenas começa: “No princípio, Deus.” Ele é. Ele não é o objeto que nós avaliamos, ele é o Criador que nos criou. Isso muda toda a dinâmica."
D.A. Carson

Assista o vídeo:

Walber Arruda

quinta-feira, 14 de março de 2013

Imagem de Deus


De toda a belíssima e perfeita criação divina, aprouve a Deus presentear o homem com uma marca que o tornaria diferente e o ser mais especial de todo o universo: “Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26). Seres únicos, que não apenas possuem a imagem de Deus, mas são a própria imagem dEle. Formada pelas próprias mãos do Artífice, utilizando-se do “pó da terra”, sendo assim, vasos de barro nas mãos do Oleiro, literalmente (Is 64.8). J. Gresham Machen, definiu esta verdade de forma magistral:

“ Que mistério estupendo é isso! Aqui temos o homem, criatura finita, saído da mão criadora de Deus, e que anda pela terra com um corpo feito do pó da terra. E apesar disso, este ser tão insignificante como possa parecer a primeira vista, [...] é capaz de desfrutar uma relação pessoal com o Deus infinito e eterno”.

A estas criaturas privilegiadas, Deus ainda dotou de honra e o pôs como administradores de toda a terra, dando-os domínio sobre todas as espécies:

Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus e de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão e sob seus pés tudo lhe puseste: ovelhas e bois, todos, e também os animais do campo; as aves do céu, e os peixes do mar, e tudo o que percorre as sendas dos mares. (Salmos 8.5-8)

Após a queda no Éden, tudo mudou drasticamente. O homem, que até então desfrutava de um estado de total retidão e santidade, tal como o seu Criador, via-se agora corroído pelo pecado e moralmente defeituoso. Sofrendo assim as duras conseqüências pelo seu ato de rebeldia.

A semelhança divina agora estaria gravemente deformada, de modo que o homem natural não poderia mais refletir o seu criador de forma nítida, como fora antes. É certo que depois da queda esta imagem e semelhança ficou obscurecida pelo pecado, todas as faculdades humanas foram terrivelmente abaladas. Mas embora enrugado, ele continua refletindo a imagem do Deus criador. Como o reflexo distorcido de um espelho embaçado, a raça humana ainda é imagem daquele que o criou.

Como tal, todo o homem é digno de ser respeitado. Por mais deplorável e repugnante que seja o seu estado, não podemos esquecer que ali está á imagem de Deus. Independente de sua religião, de sua raça, do modo como este homem viva, ele é um ser especial e diferente de tudo o que veio a existir, porque assim Deus o fez.
Ainda que repudiemos as práticas daqueles que vivem tortuosamente, devemos amá-los, pelo “simples” e extraordinário fato de que foram as mãos do Altíssimo que os moldou. É certo que nem todos são filhos de Deus, mas todos são criaturas suas, portanto merecedores de consideração.

Como é estarrecedor ver tão linda criação entregue a idolatria, prostrando-se perante outros deuses; usando seus corpos para todo o tipo de promiscuidade; vê-los embriagados e jogados pelas calçadas como se não tivessem nenhum valor; totalmente escravizados pelo diabo, destruindo-se a si mesmos em declarada afronta ao Supremo benfeitor.

Por isso, devemos desejar que a imagem de Deus seja restaurada em cada pessoa, e isto só pode ocorrer através do Senhor Jesus Cristo. Aquele que é a perfeita imagem do Ser de Deus (Cl 1.15). Só através dele a criação pode ser restaurada. Amar o próximo consiste em levá-lo a conhecer o Evangelho, pois este é o único meio pelo qual a criatura caída poderá ser restaurada.

Nosso anseio também repousa sobre a expectativa de termos esta imagem e semelhança restaurada em nós mesmos, definitivamente. Seremos semelhantes a Cristo (1 Jo 3.2), e assim perfeitos novamente. Temos experimentado uma restauração gradativa, mas haveremos de experimentá-la completa e definitivamente, no porvir.

E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito. (2 Co 3.18)

Em Cristo, a perfeita imagem de Deus.

Missionário Ericon Fábio

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Deus, o Criador da mais bela obra de arte!


Ao viajar pelo interior da Paraíba com um grupo de amigos, em determinado momento de nosso percurso, nos deparamos com uma bela paisagem, a qual palavra alguma escrita neste texto poderá trazer a real dimensão de sua beleza. Olhar até o fim do horizonte e só perceber o verde, a vegetação ainda resguardada do asfalto e do concreto, a brisa suave que sopra sem que seja atrapalhada por prédio algum e o suave calor do sol que parecia acariciar nossa pele, nos faz crer que não há como não notar o agir do Criador nesta cena tão simples, porém linda e repleta de significado.

Por mais belas e excelentes que sejam as obras de artes que os homens se proponham a fazer, jamais alcançaram o esplendor da criação de nosso Deus.  A vigorosa e inexplicável obra de Arte da criação, a natureza, está posta para todos os homens, indiscriminadamente, ensinamento explícito nas santas escrituras: “porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” [1]. Em outra passagem também, observamos Paulo afirmando ao povo de Listra que Deus: nas gerações passadas, permitiu que todos os povos andassem nos seus próprios caminhos; contudo, não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria [2]. Assim sendo, classificamos os elementos naturais como frutos da graça comum, já vistos em outro texto deste blog.

Tal beleza estando às vistas de todos, é certo que muitos acabam revelando aspectos desta beleza em suas obras, como músicas, artes plásticas e poemas. Destaco uma dessas produções como exemplo, o bastante notório poema Canção do Exílio de Gonçalves Dias, da qual transcreverei um trecho:

"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores. [3]

Nestes versos, o poeta exalta as qualidades naturais de sua pátria, quando estava distante, em Portugal, revelando traços marcantes da escola literária do Romantismo, como o ufanismo, a nostalgia e o valor dado à natureza. A verdade está presente nesta obra quando ela valoriza os belos atributos naturais que descreve. Deus se revela através da natureza, e essa é a revelação geral que alcança a todos e faz-se refletir nestas composições, assim como em várias outras, haja vista “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” [4]. Este é um dos motivos que tornam os homens indesculpáveis diante Dele.

Entretanto, tais visões são limitadas, ainda que belas. A graça comum que os inspira, não é suficiente para apreender todo o significado da criação, esta só é completamente entendida através da graça salvadora. Por isso, apesar de lindas, as descrições citadas não alcançam o potencial da beleza divina, pois o desconhecem. Apontam em uma direção que eles próprios não sabem onde vai dar, entretanto os eleitos de Deus o sabem, pois apontam para a glória manifesta do próprio criador do universo. Enquanto as manifestações inspiradas pela graça comum são parciais, e muitas vezes apontam até para caminhos distorcidos, como o panteísmo, muito presente no Romantismo, segundo alguns críticos literários, a graça salvadora nos remete ao significado amplo e completo da natureza. Podemos notar isto claramente no relato do salmista, que entende a quem pertence tais belezas naturais: “Porque o SENHOR é Deus grande, e Rei grande sobre todos os deuses. Nas suas mãos estão as profundezas da terra, e as alturas dos montes são suas. Seu é o mar, e ele o fez, e as suas mãos formaram a terra seca “ [5].

É nosso dever e privilégio, como filhos alcançados pela graça de nosso Pai, contemplar e valorizar a beleza de sua criação, e jamais renega-la ou tornamo-nos indiferentes a ela, como se isso não fosse importante. Abraham Kuyper, no livro Calvinismo, afirma categoricamente que a Glória de Deus não é antagônica à salvação, pois “certamente a nossa salvação é de valor substancial, mas não pode ser comparada com o valor muito maior da glória de nosso Deus, que tem revelado sua majestade em sua maravilhosa criação” [6]. Ressalta ainda que uma concepção dualista da regeneração também é um equivoco, posto que a obra redentora não se limita a salvação individual, mas abrange toda a criação, e jamais poderemos contemplar de modo exclusivo as coisas celestiais, e abandonar o mundo da criação de Deus.

Por fim, retorno a lembrança inicial do momento que tive no último fim de semana, e compartilho mais uma reflexão que fizemos naquele momento singelo, mas muito especial preparado por Deus para nós: se Deus fez tão belas as coisas que são passageiras, imagine o quanto será lindo aquilo que ele tem preparados para nós na eternidade? Louvado seja o nome deste Deus tão maravilhoso para todo o sempre!

Rodrigo Ribeiro
@rodrigolgd


Citações:
[1]MATEUS: In: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. Barueri, São Paulo, 1993. O Evangelho segundo Mateus, capítulo 5, versículo 45. 855p.

[2]PAULO: In: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. Barueri, São Paulo, 1993. Atos dos Apóstos, capítulo 4, versículos 16 e 17. 989p.

[3]DIAS, Antônio Gonçalves. Poemas de Gonçalves Dias. São Paulo: Cultrix, 1968.

[4]DAVI: In: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. Barueri, São Paulo, 1993. O Livro dos Salmos, capítulo 19, versículo 1. 518p.

[5]DAVI: In: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. Barueri, São Paulo, 1993. O Livro dos Salmos, capítulo 93, versículo 3 a 5. 561p

[6]KUYPER, Abraham; O Calvinismo - Tradução por Ricardo Gouveia e Paulo Arantes. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, 126 p.