Os riscos dessa expansão são invisíveis, mas
muito grandes.
Para mim não é fácil escrever um artigo sobre os
perigos do crescimento das igrejas. Primeiro, porque nunca fui pastor de uma
igreja numerosa. Não sei o que isso significa. Segundo, porque a realidade que
envolve o crescimento de uma igreja é sempre muito complexa. Espera-se que uma
igreja saudável – que ensina a Palavra de Deus, evangeliza e faz discípulos de
Cristo ¬– cresça numericamente.
Porém, a saúde e a fidelidade de uma igreja podem levá-la a crescer e ser
relevante, bem como a sofrer e ser marginalizada. No entanto, como o
crescimento e a visibilidade das igrejas despertam grande interesse e o status
decorrente é muito sedutor – o que não acontece quando o que está em jogo é o
sofrimento, a marginalidade e o martírio –, gostaria de refletir sobre os
riscos, ou quem sabe, sobre os ídolos, que o crescimento numérico das igrejas
pode apresentar.
A preocupação com o crescimento da igreja é legítima e necessária. Sempre foi.
O desafio dessa expansão envolve afirmar a prioridade da missão, a centralidade
do evangelho, a necessidade de falar para os de fora, bem como o esforço para
ser relevante no contexto social e cultural, no estabelecimento de alvos objetivos,
na importância de estratégias e no uso correto das ferramentas sociais e
tecnológicas.
Embora esta preocupação com o crescimento seja percebida em toda a história
cristã, as mudanças sociais das últimas décadas trouxeram novas realidades, que
precisam ser analisadas criticamente. Há três décadas, a preocupação dos
evangélicos era com a missão integral e a luta por transformação política e
social. A preocupação hoje é com a igreja local, seu crescimento, e sua
presença na sociedade. Antes o foco estava na esfera pública; agora, na esfera
privada da vida comunitária. Antes a palavra de ordem era
"revolução", hoje é "relevância".
A busca por uma igreja relevante abre portas para um novo mundo, trazendo novos
desafios e possibilidades. Por outro lado, abre brechas para o risco de a
igreja se comprometer, muitas vezes sem perceber, com o espírito desta era.
Modernizar e inovar não são um problema em si. Porém, é preciso olhar
criticamente para a forma como se faz a busca por relevância e de que maneira se
lança mão dos recursos modernos de crescimento. É necessário discernir os
riscos que tais ações representam para o futuro do cristianismo.
A expressão "crescimento" pode ser compreendida em termos
quantitativos (número de membros, orçamento, projetos) e qualitativo
(maturidade, caráter, profundidade). Ambos são importantes, e um não exclui,
necessariamente, o outro. No entanto, o crescimento quantitativo nem sempre
promove um crescimento qualitativo, mas sempre desperta um fascínio em função
da visibilidade e do prestígio que uma grande igreja proporciona para seus
líderes e membros. É aqui que enfrentamos um grave risco: o de se construir a
casa (igreja) sobre a areia e não sobre a rocha, segundo a parábola de Jesus.
CARACTERÍSTICAS DAS IGREJAS
QUE CRESCEM
Porém, a saúde e a fidelidade de uma igreja podem levá-la a crescer e ser relevante, bem como a sofrer e ser marginalizada. No entanto, como o crescimento e a visibilidade das igrejas despertam grande interesse e o status decorrente é muito sedutor – o que não acontece quando o que está em jogo é o sofrimento, a marginalidade e o martírio –, gostaria de refletir sobre os riscos, ou quem sabe, sobre os ídolos, que o crescimento numérico das igrejas pode apresentar.
A preocupação com o crescimento da igreja é legítima e necessária. Sempre foi. O desafio dessa expansão envolve afirmar a prioridade da missão, a centralidade do evangelho, a necessidade de falar para os de fora, bem como o esforço para ser relevante no contexto social e cultural, no estabelecimento de alvos objetivos, na importância de estratégias e no uso correto das ferramentas sociais e tecnológicas.
Embora esta preocupação com o crescimento seja percebida em toda a história cristã, as mudanças sociais das últimas décadas trouxeram novas realidades, que precisam ser analisadas criticamente. Há três décadas, a preocupação dos evangélicos era com a missão integral e a luta por transformação política e social. A preocupação hoje é com a igreja local, seu crescimento, e sua presença na sociedade. Antes o foco estava na esfera pública; agora, na esfera privada da vida comunitária. Antes a palavra de ordem era "revolução", hoje é "relevância".
A busca por uma igreja relevante abre portas para um novo mundo, trazendo novos desafios e possibilidades. Por outro lado, abre brechas para o risco de a igreja se comprometer, muitas vezes sem perceber, com o espírito desta era. Modernizar e inovar não são um problema em si. Porém, é preciso olhar criticamente para a forma como se faz a busca por relevância e de que maneira se lança mão dos recursos modernos de crescimento. É necessário discernir os riscos que tais ações representam para o futuro do cristianismo.
A expressão "crescimento" pode ser compreendida em termos quantitativos (número de membros, orçamento, projetos) e qualitativo (maturidade, caráter, profundidade). Ambos são importantes, e um não exclui, necessariamente, o outro. No entanto, o crescimento quantitativo nem sempre promove um crescimento qualitativo, mas sempre desperta um fascínio em função da visibilidade e do prestígio que uma grande igreja proporciona para seus líderes e membros. É aqui que enfrentamos um grave risco: o de se construir a casa (igreja) sobre a areia e não sobre a rocha, segundo a parábola de Jesus.
As igrejas que mais crescem possuem, pelo menos, três características comuns: uso intenso de modernas ferramentas tecnológicas, forte liderança pessoal e uma poderosa marca institucional. É claro que existem outras características, mas quero me deter nestas três e refletir sobre os riscos que elas representam para o futuro da igreja.
A revolução tecnológica da segunda metade do século 20 e deste início de século
21 mudou o cenário religioso. A busca pela excelência funcional e por uma
comunicação eficiente ocupa o topo das prioridades de muitas igrejas. Possuímos
tecnologia para um bom planejamento estratégico, música de excelente qualidade,
projetos de crescimento eficientes.
O problema é que a tecnologia tem o poder de substituir aquilo que Deus faz por
aquilo que é feito pelo homem. Vivemos o risco de um perigo semelhante ao que
Paulo percebeu na igreja de Éfeso, cujos crentes, segundo o apóstolo, tinham aparência de piedade e no entanto lhe
negavam o poder. Ter uma boa música, não nos torna, necessariamente,
adoradores. Um bom planejamento estratégico não tem o poder de transformar
mentes e corações. Projetos eficientes não fazem de nós verdadeiros discípulos
de Cristo.
Igreja bem estruturada não é sinônimo de comunhão. A crítica à Igreja de
Laodicéia é de que ela era rica e abastada e não
precisava de coisa alguma. Inclusive de Deus. A tecnologia vem se
tornando um substituto para a fé. Mas essa eficiência não substitui o poder
transformador do evangelho. Precisamos perguntar: é possível discernir o que Deus
está fazendo? O primeiro risco que a igreja enfrenta hoje é o da negação de
Deus. Não a negação de sua existência, mas do seu poder.
Uma segunda característica comum é a forte liderança pessoal. A liderança
forte, bem como a tecnologia, em si, não constitui um problema. O risco está
naquilo que nem sempre é percebido. Se a tecnologia traz o risco de uma igreja
sem Deus, a liderança forte traz o risco de uma igreja sem netos ou bisnetos.
Hoje, o que mais atrai os fiéis a uma igreja, além de sua funcionalidade, é o
carisma de seu líder.
Ao ser perguntado pela igreja que frequenta, a resposta mais comum é "a
igreja de fulano de tal". Essa liderança confere uma posição de destaque
ao membro desta igreja. A pergunta é: igrejas assim sobreviverão à uma segunda ou
terceira geração? Sobreviverão depois que seus grandes líderes saírem de cena?
Sabemos que algumas megaigrejas na América do Norte entraram em rápido declínio
na segunda geração de líderes.
O velho problema da igreja de Corinto se repete: uns são de Paulo, outros de
Apolo, outros de Pedro e alguns chegam a dizer que são de Cristo. O
personalismo intensifica o narcisismo, que muda o objeto da adoração. Tanto na
política como na igreja, a figura forte de um líder compromete o futuro.
Vive-se um apogeu glorioso seguido por um rápido vazio e declínio.
A terceira característica é a forte marca institucional, que a torna atraente.
Aqui vejo dois perigos. O primeiro diz respeito à busca por relevância. Porém,
o que precisa ser relevante, a igreja (instituição) ou o evangelho de Cristo? É
possível ser relevante e, ao mesmo tempo, comprometido com a verdade? Sem o
evangelho e sem a verdade, qualquer esforço para ser relevante se mostrará,
cedo ou tarde, totalmente irrelevante. A imagem que Paulo usa é a do tesouro em vasos de barro.
Não é o evangelho de Cristo que desperta o interesse de muitos para a igreja
hoje, mas a própria igreja com seus métodos, programas, música e tecnologia.
Isso não é necessariamente ruim. Nem sempre as pessoas serão atraídas pelos
motivos mais nobres. O problema é que o vaso vai se transformando não só na
porta de entrada, mas num fim em si mesmo. Quanto mais atenção se dá ao vaso, menor valor terá o evangelho.
O outro perigo é a perda da consciência de ser povo de Deus, Corpo de Jesus Cristo.
Algumas igrejas que crescem rapidamente atraem uma quantidade considerável de
cristãos frustrados com suas igrejas de origem, que ali chegam como a última
alternativa institucional de sua jornada cristã. Envolvem-se com paixão,
adquirindo uma forte identidade com aquele grupo em particular. O problema é
que não são mais capazes de se verem como parte do povo de Deus em uma
determinada região ou cidade, mas apenas como povo de Deus de uma igreja
particular. É a negação do "povo de Deus" e a afirmação perigosa de
uma elite religiosa superior.
CUIDADOS NO CRESCIMENTO
O desafio do movimento moderno de crescimento de
igrejas requer alguns cuidados. O primeiro é o de preservar Deus como Deus na
igreja. A tecnologia pode nos ajudar em muitas coisas, mas não transforma o
coração e a mente caída do ser humano. Só seremos relevantes enquanto
permanecermos envolvidos pelo que é eterno. Podemos usar os recursos modernos,
mas precisamos nos assegurar que o que virá pela frente serão vidas
transformadas pelo poder do evangelho de Jesus Cristo e não consumidores de
programas e entretenimento religiosos.
O segundo cuidado é reconhecer a virtude da humildade. O testemunho de João
Batista era: convém que ele cresça e que eu diminua.
Este deve ser o espírito de qualquer líder. Jesus advertiu seus discípulos em
relação ao risco do poder quando disse que entre os grandes e poderosos deste
mundo, o maior manda nos menores. No entanto, disse ele, entre
vocês não será assim. Quando a admiração por um líder diminui a
devoção a Cristo, é sinal de que o espírito desta era já nos capturou.
O terceiro cuidado é compreender que fomos batizados num
corpo. Somos o povo de propriedade exclusiva de Deus.
Adoramos a Deus em uma comunidade local – grande ou pequena –, mas o Deus que
adoramos fez uma aliança com seu povo do qual somos parte. O precioso tesouro
foi confiado a um vaso de barro. Seja este vaso grande e inovador, ou pequeno e
discreto, o que importa é o tesouro confiado a ele, sempre. Se a relevância
pertencer ao vaso, o tesouro será negado à humanidade. É o Corpo de Cristo,
todo ele, que revela a glória do cabeça da Igreja.
Os riscos do crescimento são invisíveis, mas muito grandes. Construir uma casa
sobre a areia sempre foi uma opção atraente e sedutora. Mas formar discípulos
fiéis e obedientes de Jesus Cristo, ensiná-los a guardarem seus mandamentos e
obedecê-los, integrá-los em uma comunidade de adoração e serviço sacrificial,
sempre foi uma tarefa difícil, lenta e trabalhosa.
Porém, quando vierem as tempestades e os vendavais testando o valor da fé, esta
igreja, edificada sobre a rocha, testemunhará a glória da verdade redentora de
Jesus Cristo.
Texto originalmente publicado no
site: http://www.cristianismohoje.com.br
Escrito
por: Ricardo Barbosa de Sousa,
07 Ago 2013
Intercâmbio feito por Fábio Araújo
O segundo cuidado é reconhecer a virtude da humildade. O testemunho de João Batista era: convém que ele cresça e que eu diminua. Este deve ser o espírito de qualquer líder. Jesus advertiu seus discípulos em relação ao risco do poder quando disse que entre os grandes e poderosos deste mundo, o maior manda nos menores. No entanto, disse ele, entre vocês não será assim. Quando a admiração por um líder diminui a devoção a Cristo, é sinal de que o espírito desta era já nos capturou.
O terceiro cuidado é compreender que fomos batizados num corpo. Somos o povo de propriedade exclusiva de Deus. Adoramos a Deus em uma comunidade local – grande ou pequena –, mas o Deus que adoramos fez uma aliança com seu povo do qual somos parte. O precioso tesouro foi confiado a um vaso de barro. Seja este vaso grande e inovador, ou pequeno e discreto, o que importa é o tesouro confiado a ele, sempre. Se a relevância pertencer ao vaso, o tesouro será negado à humanidade. É o Corpo de Cristo, todo ele, que revela a glória do cabeça da Igreja.
Os riscos do crescimento são invisíveis, mas muito grandes. Construir uma casa sobre a areia sempre foi uma opção atraente e sedutora. Mas formar discípulos fiéis e obedientes de Jesus Cristo, ensiná-los a guardarem seus mandamentos e obedecê-los, integrá-los em uma comunidade de adoração e serviço sacrificial, sempre foi uma tarefa difícil, lenta e trabalhosa.
Porém, quando vierem as tempestades e os vendavais testando o valor da fé, esta igreja, edificada sobre a rocha, testemunhará a glória da verdade redentora de Jesus Cristo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário