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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Provérbios: Um Miniguia para a Vida

Em minha leitura bíblica diária do ano passado, li o capítulo 3 de Provérbios, uma passagem que preguei e estudei muitas vezes. Porém, durante essa leitura, percebi que, dos versos 3 a 12, temos todos os temas do resto do livro, e, portanto, um miniguia para uma vida de fidelidade. Existem cinco coisas que constituem uma vida sábia e piedosa. Elas funcionam tanto quanto meios para tornarmo-nos sábios e santos, quanto como sinais de que estamos crescendo nesta vida:
1. Coloque a mais profunda confiança de seu coração em Deus e em sua graça. Todos os dias lembre a si mesmo do amor incondicional e pactual de Deus por você. Não coloque suas esperanças em ídolos ou em seu próprio desempenho.
“Que o amor e a fidelidade jamais o abandonem; prenda-os ao redor do seu pescoço, escreva-os na tábua do seu coração. Então você terá o favor de Deus e dos homens, e boa reputação. Confie no Senhor de todo o seu coração.” (Provérbios 3.3-5a)
2. Submeta toda sua mente à Escritura. Não pense que você sabe mais que a Palavra de Deus. Coloque-a em prática em todas as áreas da vida. Torne-se uma pessoa sob autoridade.
“Não se apóie em seu próprio entendimento; reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas.” (Provérbios 3.5b-6)
3. Seja humilde e ensinável em relação aos outros. Seja perdoador e compreensivo quando você desejar criticá-los; esteja pronto a aprender dos outros quando eles vierem criticar você.
“Não seja sábio aos seus próprios olhos; tema o Senhor e evite o mal. Isso lhe dará saúde ao corpo e vigor aos ossos.” (Provérbios 3.7,8)
4. Seja generoso com todas as suas posses, e apaixonado pela justiça. Compartilhe seu tempo, talento e tesouros com aqueles que têm menos.
“Honre o Senhor com todos os seus recursos e com os primeiros frutos de todas as suas plantações; os seus celeiros ficarão plenamente cheios, e os seus barris transbordarão de vinho.” (Provérbios 3.9,10)
5. Aceite e aprenda a partir de dificuldades e sofrimento. Por meio do Evangelho, reconheça-as não como castigo, mas como uma maneira de te aperfeiçoar.
“Meu filho,não despreze a disciplina do Senhor nem se magoe com a sua repreensão, pois o Senhor disciplina a quem ama,assim como o pai faz ao filho de quem deseja o bem.” (Provérbios 3.11,12)
Enquanto meditava nesses cinco elementos – firmar-se em sua graça, obedecer e deleitar-se em sua Palavra, humilhar-se diante dos outros, sacrificar-se generosamente por nosso próximo, e perseverar nas provações – pensava em Jesus. O Novo Testamento nos conta que a “sabedoria divina” personificada do Antigo Testamento é, na realidade, Jesus (Mt 11.19). E eu percebi que: a) ele mostrou a fidelidade e confiança definitivas a Deus e a nós ao ir à cruz, b) ele era moldado e estava saturado pela Escritura, c) ele era manso e humilde de coração (Mt 11.28-30), d) ele, embora rico, se fez pobre por nós, e) ele aceitou seu sofrimento por nós, sem reclamar. Somente cresceremos nessas cinco áreas se soubermos que fomos salvos por uma graça valiosa. Isso te guarda dos ídolos, da autossuficiência e do orgulho, do egoísmo com suas coisas, e de desmoronar diante de problemas. Jesus é a sabedoria personificada, e crer em seu Evangelho traz essas qualidades à sua vida.
Por algumas semanas, tenho gasto meu tempo orando por essas cinco coisas para minha família e para os líderes de minha igreja. Não existe melhor maneira de instilar essas grandes coisas em seu próprio coração que orar intensamente por elas nas vidas daqueles a quem você ama.
Tim Keller
Traduzido por Josaías Jr | iPródigo | Texto original aqui

Intercâmbio feito por Rodrigo Ribeiro

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Por Que os Cristãos Precisam de Confissões

Ao contrário do que se diz, o mundo cristão não é dividido entre aqueles que têm credos e confissões e aqueles que têm apenas a Bíblia. É, na verdade, dividido entre aqueles que têm credos e confissões e as tornam públicas, abertas ao escrutínio público e à correção, e aqueles que os têm porém não os tornam públicos. A razão é simples: toda igreja (e, na verdade, todo cristão) acredita que a Bíblia significa algo, e aquilo que se crê que a Bíblia significa é seu credo e sua confissão, quer escolha escrever e formalizar suas crenças ou não.

É claro que aqueles que afirmam não ter credo algum a não ser Cristo e livro algum a não ser a Bíblia estão, geralmente, tentando proteger algo importante e bíblico: a suprema autoridade das Escrituras em todos os assuntos de fé e prática cristãs. Há um temor correto em relação a permitir que ideias e tradições não bíblicas impactem a substância daquilo em que a igreja crê. Mas mesmo com todas as boas intenções que eles provavelmente têm, eu acredito que o que querem proteger – o status único das Escrituras – é, na verdade, melhor protegido por meio de documentos confessionais explícitos, conectados à uma forma cuidadosamente pensada de governo da igreja.

De fato, e até ironicamente, são aqueles que não expressam sua confissão em forma de um documento escrito que estão em perigo de elevar sua tradição acima das Escrituras de maneira que a primeira pode nunca ser controlada pela segunda. Se uma igreja tem um documento dizendo que é dispensacionalista em relação à escatologia, então todos nós sabemos qual é a posição dela em relação ao fim dos tempos, e podemos fazer como os crentes de Beréia e testar a posição dessa igreja de acordo com as Escrituras e ver se é isso mesmo. A igreja que simplesmente fala que a posição dela em relação ao fim dos tempos é a mesma que é ensinada na Bíblia parece estar falando tudo, mas, na verdade, não está falando nada.

Em resumo, credos e confissões, ligados à política eclesiástica bíblica, são uma parte vital da manutenção da vida saudável da igreja do Novo Testamento. Aqui estão sete razões pelas quais toda igreja deveria tê-los.

1) Confissões delimitam o poder da igreja

Numa era em que as palavras, especialmente palavras de afirmações reivindicando a verdade, sempre são tidas como suspeitas de fazerem parte de algum jogo manipulador de poder, então é contraintuitivo pensar que confissões delimitam o poder da igreja. Porém, um pouco de reflexão torna claro que é exatamente isso que elas fazem. Os oficiais da igreja têm autoridade apenas em relação aos assuntos que a confissão define. Dessa forma, se alguém na igreja declara que a trindade é uma bobagem ou comete adultério, os oficiais tem tanto o direito quanto o dever de intervir. Os dois pontos são tratados nos Padrões de Westminster. Porém, se alguém quiser aparecer na igreja com um terno amarelo fluorescente ou decidir se tornar vegetariano, os oficiais não têm o direito de intervir. Eles talvez tenham reservas pessoais quanto à forma apropriada das pessoas se vestirem ou podem se questionar como alguém poderia viver sem um hambúrguer de vez em quando, mas não é dever da igreja abordar nenhuma dessas questões. De fato, isso é o que impede a igreja de se tornar seita: afirmações claras e abertas sobre onde a autoridade da igreja começa e termina, conectada à processos transparentes de exercitar essa autoridade.

2) Confissões oferecem resumos sucintos da fé


Se você tem em sua estante ou em seu bolso uma cópia dos Padrões de Westminster, então você tem mais teologia de qualidade por página do que qualquer outra coisa a não ser a Bíblia. Tomos teológicos parecem muitas vezes vastos e hostis, e poucos tem tempo para lê-los. O Breve Catecismo de Westminster, entretanto, pode ser carregado no seu bolso, lido em poucos minutos, e facilmente memorizado. É todo um currículo teológico numa forma de fácil digestão. É claro que existem outros livros por aí que fazem a mesma coisa. Mas existe algum que faça isso de forma tão eficiente e de fácil digestão? A igreja que possui uma boa confissão e um bom catecismo já tem uma ferramenta de ensino pronta para ensinar pouco a pouco a verdade para seu povo.

A história provou isso várias vezes. Aqui temos, por exemplo, a afirmação de B. B. Warfield em 1909:


Qual é “a marca indelével do Breve Catecismo”? Nós temos a seguir fragmentos da experiência pessoal de um general oficial do exército dos EUA. Ele estava em uma grande cidade do ocidente num tempo de muita excitação e de revoltas violentas. As ruas eram invadidas diariamente por uma multidão perigosa. Um dia, ele observou que se aproximava dele um homem com uma singular combinação de calma e firmeza no semblante, cujo comportamento inspirava confiança. Ele estava tão impressionado com o porte desse homem em meio ao alvoroço que, quando o homem passou por ele, ele se virou para olhá-lo, apenas para ver que o estranho fez a mesma coisa. Por observar que ele se virou, o estranho veio ao seu encontro, e tocou o seu peito com o dedo indicador, exigiu uma resposta, sem precedentes: “Qual o fim principal do homem?”,e  ao perceber o código, o oficial respondeu: “O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre.” – “Ah!”, o homem disse, “eu sabia que você era um garoto do Breve Catecismo só pelo seu olhar!”, “Uau! Isso era justamente o que eu estava pensando de você!”, foi a resposta.  (Selecionado de “Shorter Writings”, vol. 1, 383-84).

E o comentário lacônico de Warfield posterior a essa história é: “Vale a pena ser um garoto do Breve Catecismo. Eles crescem para ser homens. E melhor do que isso, eles estão extremamente aptos a crescerem para ser homens de Deus”. A razão, claro, é que o Breve Catecismo é, indiscutivelmente, uma excelente e concisa declaração de todo o conselho de Deus.

3) Confissões permitem uma distinção apropriada entre membros e oficiais da igreja

Há um debate dentro dos círculos reformados sobre qual deve ser exatamente a quantidade de conhecimento doutrinário exigida para se tornar membro de uma igreja. Para mim, acredito que Romanos 10 indica que o limite deve ser ajustado de acordo com o padrão mais baixo e não o mais alto do espectro.  Uma confissão básica, a medida que é combinada com espírito humilde e que aceita a repreensão, é o bastante.

Mesmo que alguns discordem que o limite deve ser baixo, todos devem concordar que deve haver diferença entre o nível de conhecimento requerido de um oficial da igreja e de um novo membro. O nível em que alguém começa sua vida cristã não pode ser o mesmo daquele em que se estará no fim dessa vida. Deve haver crescimento em maturidade, e um aspecto disso é o crescimento do conhecimento doutrinário, e os documentos confessionais de uma igreja oferecem um roteiro ou uma lista de requerimentos daquilo que dá densidade e estrutura a esse crescimento. A igreja sem confissão, ou apenas com o mínimo de afirmações sobre sua doutrina, tem a desvantagem de não ser capaz de, perante  o povo, estabelecer qualquer visão bíblica do que a teologia de um cristão maduro deve ser.

4) Confissões enfatizam o que é mais importante

Talvez fosse possível expressar esse ponto de forma negativa: se não estiver na confissão, vai ser difícil defender que é um ponto de muita importância. Essa é uma das razões pelas quais as confissões devem ser um tanto elaboradas. Se, por exemplo, uma igreja tem uma base doutrinária ou uma confissão de 10 pontos, o problema que os oficiais terão que enfrentar é como convencer o povo de que um décimo primeiro ponto doutrinário é realmente importante. Se algo não está na confissão, então a igreja está funcionalmente permitindo a liberdade de consciência nesse ponto. Por exemplo, se a confissão não faz referência ao batismo, permitem que tanto pedobatistas quanto credobatistas ocupem o cargo de oficial, então o batismo é  transformado em um assunto de indiferença prática. O mesmo se aplica para qualquer doutrina – perseverança, santificação, escatologia: se não é mencionado, então a igreja não tem uma posição oficial nisso e é relegado a ser um assunto de menor importância.

Novamente, para voltar ao ponto anterior: o novo convertido ou novo membro não saberá, necessariamente, no momento em que se junta à igreja, o que é importante e o que é indiferente. Uma boa e elaborada confissão provê à igreja não só um ótimo mapa pedagógico, mas também uma boa fonte de ensino para as pessoas sobre aquilo que realmente importa e sobre o porquê.

5) Confissões relativizam o presente e nos conectam ao passado

Todos sabemos que o cristianismo não é reinventado a cada domingo. Todos nós nos firmamos em uma base que foi construída para nós por muito irmãos e irmãs em Cristo que se foram antes de nós. Entretanto, frequentemente somos tentados a viver como se isso não fosse verdade. Isso dificilmente é surpresa, já que vivemos numa era onde as forças anti-históricas da cultura geral são poderosas e invasivas. Seja um comercial nos dizendo que a próxima aquisição irá nos trazer felicidade ou a ciência prometendo algum avanço que irá tornar nossas vidas mais fáceis, tudo a nossa volta aponta para o futuro como o que é mais importante e, certamente, vastamente superior ao passado.

Em contraste, o cristianismo é uma religião enraizada na história. Ele é constituído pelas ações históricas de Deus culminando em Cristo, e ele vem a nós pela articulação fiel e preservação de sua mensagem pela igreja de Deus durante os séculos. Isso é profundamente contracultural e algo do qual precisamos ser constantemente relembrados. Ironicamente, pode ser que aqueles que afirmam não ter credo algum a não ser a bíblia estejam, na verdade, meramente refletindo o espírito da nossa geração com todo o seu triunfalismo anti-histórico.

Nesse contexto, o uso dos credos e confissões é um dos meios intencionais para nos conectarmos com o passado, nos identificarmos com a igreja das gerações passadas, e, assim, relativizar nosso próprio significado no grande propósito de tudo que existe. Recitar os antigos credos no culto é um exemplo prático disso. A afirmação dos documentos confessionais históricos, como uma expressão dos compromissos dos oficiais da igreja e o conteúdo das ambições pedagógicas da igreja para sua membresia é outro exemplo prático.

6) Confissões refletem a essência da nossa adoração

Quando eu ministro minha disciplina de Igreja Primitiva, sempre enfatizo que a dinâmica dos debates trinitarianos e cristológicos primitivos era doxológica e intrinsicamente conectada à adoração cristã. De forma simples, a afirmação da igreja primitiva “Jesus é o Senhor!” e a conjunção do Pai, do Filho e do Espírito Santo nos dizeres do batismo apontam diretamente para uma fundação de teologia profunda. Eles proveram o contexto para as discussões que acabariam por constituir o Credo Niceno e a Definição de Fé de Calcedônia. A tradição confessional da igreja começou com a reflexão a cerca do significado dos atos de adoração.

Por dois milênios, a adoração da igreja não mudou em seus pontos fundamentais – isto é, a declaração que Jesus é o Senhor e que a salvação é uma ação do Deus triúno: Pai, Filho e Espírito Santo – e nossas confissões explicam o conteúdo desses pontos.

Portanto, não devemos pensar que as confissões e doutrinas são contrárias à  adoração vibrante. A posse de uma confissão, é claro, não se igualará à adoração vibrante, nem mesmo a garante, tanto quanto a mera existência de um código legal garante uma sociedade civilizada. Entretanto, as confissões são pré-requisitos para a adoração vibrante e consciente, são o sentido do que fazemos como cristãos.

Essa função confessional provavelmente se tornará mais visivelmente importante nos anos que estão por vir. À medida que outras religiões colidem com o cristianismo e, especialmente, algumas dessas religiões usam o mesmo tipo de vocabulário bíblico que usamos, será mais e mais crucial que entendamos não apenas as palavras que usamos, mas também o que essas palavras realmente significam. O seu amigável vizinho mórmon poderá muito bem concordar com você que Jesus é o Senhor e pode até cantar alguns dos mesmos hinos que você no culto. Assim, você terá que saber exatamente o que sua igreja quer dizer com “Jesus é o Senhor” ou com o batismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Boas confissões te possibilitam fazer isso com mais facilidade do que qualquer outra coisa.

7) Confissões são uma parte vital do plano de Paulo para a igreja pós-apostólica

Quando Paulo escreveu, quando estava preso, para seu aprendiz, Timóteo, sua mente estava focada em como a igreja iria se virar quando ele e os outros apóstolos saíssem de cena. A resposta dele é composta por duas partes: uma estrutura na qual o governo da igreja fosse colocado nas mãos de homens ordinários, porém fiéis, e a forma de sãs palavras. Ambas eram necessárias. Sem a estrutura, a igreja não teria liderança; sem a forma de sãs palavras, ela iria se desviar por ventos de doutrina, perdendo contato com seu passado e com outras congregações no presente. Uma forma de sãs palavras, uma confissão, era crucial para manter tanto a continuidade com os apóstolos quanto a unidade entre os cristãos do presente. E isso é o que nossos documentos confessionais fazem hoje: eles nos ligam aos nossos irmãos e irmãs crentes do passado e aos do presente.

A exclamação “Nenhum credo, exceto Cristo, e nenhum livro, exceto a Bíblia!” tem uma aparência ilusoriamente piedosa e bíblica, mas não deveríamos nos envergonhar de sermos cristãos confessionais, pois as confissões nos capacitam a manter determinadas prioridades bíblicas. Nós deveríamos ser gratos por isso e, da mesma forma, tentar mostrar aos nossos irmãos e irmãs não confessionais um caminho melhor para preservar as coisas que são valiosas para todos os cristãos.

Carl Trueman

Traduzido por Fernanda Vilela | iPródigo.com | Original aqui
Publicado em: http://iprodigo.com/traducoes/por-que-cristaos-precisam-de-confissoes.html

Intercâmbio feiro por Rodrigo Ribeiro

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Uma Necessidade Contínua


A história de Jonas nos mostra que o evangelho – as boas novas de que Deus busca os pecadores sem medir esforços para salvá-los – é tanto para cristãos como para não cristãos. A vida de Jonas é uma prova disso, pois Jonas, que conhece a Deus, obviamente necessita tanto de salvação quanto qualquer outro personagem da história. De fato, sua necessidade de resgate acaba ganhando muito mais ênfase do que que a dos outros. É a história dele, não a dos Ninivitas, que aparece mais. Só isso já deveria ser suficiente para nos convencer de que o resgate de Deus é uma necessidade contínua para cristãos e não cristãos.
O evangelhos não são simplesmente um conjunto de verdades que os não cristãos devem acreditar para se tornarem salvos. É uma realidade que os cristãos devem abraçar diariamente para experimentarem a salvação. O evangelho não apenas nos salva da penalidade do pecado (pela justificação), mas também nos salva do poder do pecado (pela santificação) dia após dia. Ou, como John Piper disse certa vez, “A cruz não é só um lugar passado de substituição objetiva; é um lugar presente de execução subjetiva”. Nosso pecado diário requer a graça diária de Deus – a graça que vem a nós através da obra completa de Jesus Cristo.
As igrejas tem estado em conflito por anos a respeito de se os cultos devem ser voltados aos cristãos (para encorajá-los e fortalecê-los) ou aos não cristãos (para atraí-los e conquistá-los). Mas esse debate e o conflito sobre ele é uma perda de foco. Estamos fazendo as perguntas erradas e assumindo conceitos errados. A verdade é que nossos cultos devem ser voltados a pecadores em necessidade do resgate de Deus – e isso inclui tanto cristãos quanto não cristãos. Já que os dois grupos precisam da intervenção de Deus, ambos precisam do evangelho.
Eu vejo que sou especialmente necessitado de um ajuste de foco, por meio do evangelho, para me manter longe de uma constante tendência de caminhar em direção à um relacionamento de barganha com Deus. Não estou sozinho nesse caminho; Jerry Bridges observa o quão comum é isso em nosso meio:Cristãos necessitam do evangelho porque nossos corações estão sempre propensos a se desviarem; somos sempre tentados a fugir de Deus. É preciso o poder do evangelho para nos direcional de volta ao primeiro amor. Caminhar conscientemente em direção ao evangelho deve ser uma realidade e uma experiência diária para todos nós. Isso significa, como Jerry Bridges nos lembra, “pregar o evangelho para nós mesmos todos os dias”. Devemos permitir que Deus nos lembre todos os dias, através de sua Palavra, sobre a obra completa de Cristo em favor dos pecadores para continuarmos convencidos de que o evangelho é relevante.
Minha observação sobre o cristianismo me revela que a maioria de nós tende a basear nosso relacionamento com Deus em nossas atitudes ao invés da graça. Se agirmos bem – seja lá o que “bem” significa para cada um de nós – então esperamos que Deus nos abençoe. Se não agirmos tão bem, nossas expectativas diminuem na mesma proporção. Nesse sentido, vivemos pelas nossas obras, ao invés de vivermos pela graça. Somos salvos pela graça, mas ainda vivemos pelo “suor” de nossas próprias obras.
Mais ainda, estamos sempre nos desafiando e desafiando uns aos outros a “tentar um pouco mais”. Parece que acreditamos que o sucesso da vida cristã (seja lá como definimos “sucessos”) depende basicamente de nós: nosso comprometimento, nossa disciplina e nosso zelo, com alguma ajuda de Deus ao longo do caminho. Falamos da boca para fora que somos como o apóstolo Paulo, “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou” (1 Coríntios 15:10), mas nosso lema velado é “Deus ajuda quem se ajuda”.
O reconhecimento de que meu relacionamento diário com Deus é baseado nos méritos infinitos de Cristo, ao invés das minhas obras, é uma experiência muito libertadora e confortante.
A diferença entre viver para Deus e viver para qualquer outra coisa é que quando nós vivemos para qualquer outra coisa, o fazemos para sermos aceitos, mas quando vivemos para Deus, o fazemos porque já fomos aceitos. Verdadeira liberdade (a liberdade que apenas o evangelho garante) é viver para algo que já nos favoreceu ao invés de viver por algo em troca de favorecimento.

Tullian Tchividjian
Traduzido por Filipe Schulz | iPródigo.com | Trecho retirado do livro “Surprised by Grace”, disponibilizado aqui
Intercâmbio feito por Ruan Medeiros

quarta-feira, 10 de abril de 2013

As 95 teses de Martinho Lutero


Histórico

Lutero certamente não planejava que as suas Noventa e Cinco teses fossem uma chamada para a Reforma, pois ele não queria causar uma divisão na igreja. Ele apenas queria ser fiel às Escrituras. De fato, a discussão pública incitada pela publicação das teses era simplesmente a forma típica em que ocorriam debates naquele tempo. Entretanto, o conteúdo das teses que Lutero publicou era bastante controverso. E por causa das novas tecnologias da imprensa e da situação cultural do inicio dos anos 1500, a ideias de Lutero foram espalhadas por toda a Alemanha e abriu caminho para o braço germânico da Reforma.
As Noventa e Cinco Teses foram estimuladas pela controvérsia na igreja sobre a venda de indulgências. Uma indulgência era uma declaração feita pela igreja que removia ou satisfazia a punição pelo pecado. As indulgências se baseavam no “tesouro dos méritos”. De acordo com essa ideia, muitos dos santos da igreja morreram com mais mérito do que precisavam para entrar no céu. Então, o excesso de mérito era “armazenado” e o Papa era o distribuidor desses méritos.
O povo da época Medieval estava muito preocupado com o período de punição no purgatório – uma punição pós-morte enfatizada em detalhes pela igreja. Eles não tinham muito medo do inferno porque acreditavam que o perdão e a benção de seu sacerdote lhes garantiriam a entrada no céu. No entanto, as dores do purgatório permaneciam uma realidade que eles tinham medo de enfrentar. A igreja ensinava que, antes que pudessem estar aptos a entrar no céu, eles precisavam ser limpos de qualquer pecado que tivessem cometido nas suas vidas na terra. As indulgências serviam, então, para limpá-los dos pecados. A igreja fez da penitência um sacramento, solidificando na mente do povo que uma indulgência poderia diminuir o tempo de punição a ser enfrentado no purgatório.
O principal adversário de Lutero na questão da controvérsia da indulgência nas Noventa e Cinco Teses era Johann Tetzel, um vendedor de indulgências contratado por Albrecht, o arcebispo de Mainz. Albrecht concordou em patrocinar a reconstrução da Catedral de São Pierre em Roma, e o Papa concordou com a concessão de uma indulgência especial que ele poderia vender a fim de levantar os fundos necessários.

Conteúdo

Muitos protestantes são muito familiarizados com as ênfases de Lutero na justificação pela fé; no entanto, suas Noventa e Cinco Teses eram sobre indulgências, autoridade papal, a autoridade da Escritura, e o perdão de pecados. As Noventa e Cinco Teses de Lutero foram principalmente destinadas a facilitar a discussão sobre a teologia das indulgências. Após vários séculos de abuso da responsabilidade pastoral na igreja, a prática da venda de indulgências tinha crescido e se tornado um escândalo.
Lutero viu um grande problema pastoral na venda de indulgências. Isso encorajava as pessoas em seus pecados e voltava suas mentes para longe de Cristo e do perdão de Deus, e para a compra do perdão. A frustração de Lutero com a igreja foi com a sua reivindicação de ter autoridade para controlar o tempo das pessoas no céu, no inferno ou no purgatório. Enquanto as Noventa e Cinco Teses tocavam em um assunto de prática diária e atingiu um ponto profundo da estrutura da autoridade que existia na igreja medieval, a causa formal da Reforma Protestante era o tópico da justificação e a causa material era a Eclesiologia, a doutrina da igreja.
As Noventa e Cinco Teses chamaram a igreja ao arrependimento e pedia aos líderes do movimento de indulgências que direcionassem seus olhares para Cristo, o único que seria capaz de pagar o castigo merecido pelo pecado: “Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: ‘Arrependei-vos… ’, certamente quer que toda a vida dos seus crentes na terra seja contínuo arrependimento” (Tese 1). Em vez do tesouro de mérito que estava sendo vendido, Lutero protestou, “O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.” (Tese 62).
De todas as partes do documento, a conclusão de Lutero (Teses 92-95) é, talvez, a mais memorável:
(92) Fora, pois, com todos estes profetas que dizem ao povo de Cristo: Paz! Paz! E não há Paz. (93) Abençoados sejam, porém, todos os profetas que dizem à grei de Cristo: Cruz! Cruz! E não há cruz. (94) Admoestem-se os cristãos a que se empenhem em seguir sua Cabeça Cristo através do padecimento, morte e inferno. (95) E assim esperem mais entrar no Reino dos céus através de muitas tribulações do que facilitados diante de consolações infundadas.
Lutero foi condenado pela igreja a se retratar em 1520 e acabou exilado e banido em 1521

Relevância Contemporânea

Uma das grandes formas em que as Noventa e Cinco Teses de Lutero nos afeta hoje – além da maravilhosa herança dos cinco solas da Reforma – é que elas nos levam a examinar cuidadosamente as práticas da igreja à luz do padrão estabelecido na Bíblia. Lutero viu um abuso, não teve medo de enfrentá-lo e foi exilado como resultado de sua fidelidade à Bíblia em meio a uma férrea oposição.


Texto de Justin Holcomb
Traduzido por Marianna Brandão | iPródigo.com | Original aqui

Intercâmbio feito por Ruan Medeiros

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Dizer no que você crê é mais claro que dizer “calvinista”


Nós somos cristãos. Seres radicais, de sangue puro, saturados de Bíblia, exaltadores de Cristo e centrados em Deus. Nós avançamos com missões, ganhamos almas, amamos a igreja, buscamos a santidade e saboreamos a soberania. Somos completamente embriagados pela graça, quebrantados de coração e  felizes seguidores do Cristo onipotente crucificado. Pelo menos esse é o nosso compromisso imperfeito.
Em outras palavras, somos calvinistas, mas esse rótulo não é nem um pouco útil para dizer às pessoas no que você realmente acredita! Então esqueça o rótulo, se isso ajudar, e diga a elas claramente, sem evasivas e sem ambiguidade, o que você acredita a respeito da salvação.
Se eles disserem “Você é um calvinista?” diga “Você decide. É nisso aqui que eu creio…”
Eu creio que sou tão espiritualmente corrupto e orgulhoso e rebelde que eu nunca teria vindo à fé em Jesus sem a misericordiosa e soberana vitória de Deus sobre os últimos vestígios da minha rebelião. (1 Coríntios 2:14; Efésios 3:1-4; Romanos 8:7)
Eu creio que Deus me escolheu antes da fundação do mundo para ser seu filho, sem basear essa escolha em nada que pudesse haver em mim no presente ou no futuro. (Efésios 1:4-6; Atos 13:48; Romanos 8:29-30; Romanos 11:5-7)
Creio que Cristo morreu como um substituto dos pecadores para, de boa fé, oferecer salvação a todas as pessoas. Creio que ele teve um plano invencível em sua morte para obter sua noiva escolhida, a saber, a assembléia de todos os crentes, cujos nomes foram eternamente escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto. (João 3:16; João 10:15; Efésios 5:25; Apocalipse 13:8)
Quando eu estava morto em minhas transgressões, e cego para a beleza de Cristo, Deus me tornou vivo, abriu os olhos do meu coração, me deu a capacidade de crer e me uniu a Jesus, com todos os benefícios do perdão e da justificação e da vida eterna (Efésios 2:4-5; 2 Coríntios 4:6; Filipenses 2:29; Efésios 2:8-9; Atos 16:14; Efésios 1:7; Filipenses 3:9)
Estou eternamente seguro não por causa de qualquer coisa que eu tenha feito no passado, mas decisivamente porque Deus é fiel para completar a obra que ele começou – sustentar minha fé e me manter longe da apostasia, e me afastar do pecado que leva à morte (1 Coríntios 1:8-9; 1 Tessalonicenses 5:23-24; Filipenses 1:6; 1 Pedro 1:5; Judas 25; João 10:28-29; 1 João 5:16)
Chame do jeito que você quiser, isso é minha vida. Eu acredito nisso porque eu vejo isso na Bíblia. E porque eu experimentei isso. Louvor eterno à grandeza da glória da graça de Deus!
Traduzido por Daniel TC | iPródigo | Original aqui.

Intercâmbio feito por Ruan Medeiros

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A Capacidade Humana de Escolher a Deus


É irônico que no mesmo capítulo, na verdade no mesmo contexto, em que nosso Senhor ensina a absoluta necessidade da regeneração para ver o reino, quanto mais escolhê-lo, visões não-reformadas encontram um dos seus principais textos-prova para argumentar que homens decaídos possuem uma pequena ilha de habilidade para escolher Cristo. É João 3.16: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.

O que esse famoso versículo ensina sobre a capacidade do homem decaído de escolher Cristo? A resposta é: simplesmente nada. O argumento usado pelos não-reformados é que o texto ensina que todas as pessoas do mundo têm em si o poder para aceitar ou rejeitar a Cristo. Um olhar cuidadoso no texto revela, no entanto, que ele nada ensina sobre isso. O que ensina é que todos os que creem em Cristo serão salvos. Quem faz  A (crê) receberá B (vida eterna). O texto não diz nada, absolutamente nada, sobre quem vai crer. Ele não diz nada sobre a capacidade (moral) natural do homem decaído. Reformados e não-reformados, ambos, concordam plenamente que todos que creem serão salvos. Eles discordam plenamente sobre quem tem a capacidade de crer.

Alguns provavelmente responderão: “Tudo bem. O texto não ensina explicitamente que homens decaídos têm a capacidade de escolher Cristo sem antes nascerem de novo, mas ele certamente implica isso”. Não estou disposto a concordar que o texto implique uma coisa dessas. No entanto, mesmo se fizesse não faria diferença no debate. Por que não? Nossa regra de interpretação das Escrituras é que implicações extraídas das Escrituras devem sempre ser subordinadas ao ensino explícito das Escrituras. Nunca, nunca, nunca devemos reverter isso para subordinar o ensino explícito das Escrituras para possíveis implicações retiradas das Escrituras. Esta regra é compartilhada por pensadores reformados e não-reformados.

Se João 3.16 implicasse uma capacidade humana, natural e universal dos homens decaídos de escolher Cristo, então essa implicação seria apagada pelo ensino explícito contrário de Jesus. Acabamos de ver que Jesus ensinou explícita e inequivocamente que nenhum homem tem a capacidade de chegar a ele sem que Deus realize alguma coisa para lhe dar essa capacidade, isto é, atraí-lo.

O homem decaído está na carne. Na carne, ele não pode fazer nada para agradar a Deus. Paulo declara, “Por isso, o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus” (Rm 8.7,8).
Perguntamos, então, “Quem são aqueles que estão ‘na carne?”. Paulo continua: “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se, de fato, o Espírito de Deus habita em vós. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9). A palavra crucial aqui é “se”. O que distingue aqueles que estão na carne daqueles que não estão é a habitação do Espírito Santo. Ninguém que não é regenerado é habitado por Deus Espírito Santo. Pessoas que estão na carne não foram regeneradas. A menos que sejam primeiro regenerados, nascidos do Espírito Santo, eles não podem estar sujeitos à lei de Deus. Eles não conseguem agradar a Deus.

Deus nos ordena a crer em Cristo. Ele se agrada com aqueles que escolhem Cristo. Se as pessoas não regeneradas pudessem escolher Cristo, então poderiam se submeter a pelo menos um dos mandamentos de Deus, e poderiam pelo menos fazer algo que é agradável a Deus. Se é assim, então o apóstolo errou aqui em insistir que aqueles que estão na carne não podem estar sujeitos a Deus, nem agradá-lo.

Concluímos que o homem decaído continua livre para escolher o que deseja. Porém, porque os seus desejos são somente maus, ele não tem capacidade moral de chegar a Cristo. Enquanto ele permanece na carne, não regenerado, nunca chegará a Cristo. Ele não pode escolher Cristo precisamente porque não pode agir contra a sua própria vontade. Ele não tem desejo por Cristo. Ele não pode escolher o que não deseja. A sua queda é grande. É tão grande que somente a graça eficaz de Deus trabalhando em seu coração pode lhe trazer fé.

R. S. Sproul

Texto publicado em: http://diarioreformado.com/2012/03/21/a-capacidade-humana-de-escolher-a-deus/
Fonte original da tradução: iprodigo.com

Por Rafaelle Amado

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

“Foi Deus quem me disse” e a Suficiência da Escritura


Eu fiquei perplexo (o que não acontece muitas vezes). Certo homem me disse que seu supervisor havia designado a ele a tarefa de elaborar um plano para a plantação de uma nova igreja, e que quando ele orou sobre isso, Deus o instruiu para usar as palavras de Cristo. Deixe-me esclarecer. Ele contou que Deus ordenara que em seu planejamento para essa nova igreja, ele deveria consultar, refletir e citar apenas palavras que Jesus havia dito.
Esse homem era um empregado de tempo integral em uma organização cristã. Era evidentemente cristão. Além disso, ao contrário de outros empregados dessa organização, tinha um mestrado em teologia. Obtido em um seminário evangélico. Lá ele foi, como nós imaginamos, treinado cuidadosamente sobre a Bíblia e sobre teologia. Também devemos imaginar que ele trabalhou de alguma forma liderando uma igreja local, já que agora ocupava uma posição de muita responsabilidade. Foi essa pessoa que estava diante de mim e me disse com sincera piedade e sinceridade verdadeira que Deus o ordenou a consultar apenas as palavras de Cristo quando estivesse planejando uma nova igreja.
Se você já foi ao circo e viu aquela típica entrada dos palhaços, em que um carro minúsculo surge no meio do palco, e de dentro dele sai uma porção de palhaços que logo se espalham pelo meio da platéia causando risadas e até alguns sustos, você tem alguma idéia do que aconteceu na minha cabeça quando eu ouvi isso. Mas sem a parte engraçada. “Jesus mencionou a igreja explicitamente apenas duas vezes!”, pensei. “Há mais de 20 outros livros no Novo Testamento que são cartas com instruções a igrejas!”, pensei. “Quem foi que te deu tanta responsabilidade?”, pensei. “O que foi que te ensinaram no seminário?”, pensei. “Como foi que Deus te disse isso?”, pensei. “O que mais ‘Ele’ falou?”, pensei.
E tinha mais. Eu não disse nada, em parte pela surpresa, em parte pelo medo do que eu pudesse dizer. Após algumas perguntas respondidas com grunhidos, decidi dizer alguma coisa simples sobre como havia outros livros do Novo Testamento que o Espírito de Cristo inspirou particularmente para direcionar igrejas, e que eu esperava que ele também levasse em conta, e logo dei um jeito de sair dali. Espero que minha surpresa diante disso tudo não tenha ficado muito evidente.
Situações como essa – e muitas outras – que aconteceram nos últimos anos que me encorajou a refletir sobre a importância da doutrina da suficiência da Escritura. Essa doutrina foi um dos pontos fundamentais da Reforma Protestante. Uma das maiores disputas entre Roma e os Reformadores era se Deus havia de fato prometido que continuaria provendo instruções inspiradas e inerrantes através de Pedro e seus sucessores. Roma afirmava que era isso que Jesus havia ensinado em Mateus 16. Os reformadores negavam isso, dizendo que, pelo contrário, a Escritura por si só era suficiente para instrução, mediante a iluminação de nossas mentes pelo Espírito Santo. Eles ensinaram que as Escrituras são claras e suficientes. Questões importantes seriam claras ao entendimento, não obscuras. E as Escrituras, se vistas como um todo, seriam suficientes para nossa necessidade de orientação divina. Existem muitas outras questões relacionadas a isso, mas o que devemos levar em conta aqui é simplesmente que as Escrituras são suficientes.
Enquanto o protestantismo Evangélico como um todo continuou a ensinar assim – margeado pela declaração de autoridade da igreja de Roma e a tradição pela direita, e declarações subjetivas de autoridade da “luz interior” de cada um pelos Quakers pela esquerda – surgiu outro pensamento em meio ao evangelicalismo.  Mais em nossa vida prática do que na teologia escrita, surgiu a idéia de que a Palavra escrita de Deus deve se tornar a Palavra de Deus a nós pessoalmente por meio de algum tipo de poderoso encontro com ela ou com seu significado. Isso não acontece em meio à leitura de textos sobre divindade, como muitos teólogos Neo-Ortodoxos como Karl Barth imaginavam, mas prática comum e corriqueira. Lembro-me de outro amigo que participou de um grupo evangélico de estudantes, onde ficaram por duas horas cantando, orando sinceramente e clamando que Deus falasse com eles, enquanto por todo esse tempo suas Bíblias ficaram fechadas em seus assentos. Esse é o problema que a prática do “Deus me disse” com a suficiência da Escritura. E se nossos pastores e líderes não entendem que a Escritura é suficiente, não devemos nos surpreender os membros de nossas igrejas, em uma sincera busca pela verdade, forem até Roma, de um lado, ou ao subjetivismo liberal, do outro, buscando algum tipo de autoridade que seja suficiente. Os Mórmons, em particular, se aproveitam da fraqueza dos evangélicos nesse ponto de terem pouca instrução a respeito da suficiência da Escritura.
Essa questão é vital para nós pastores, particularmente se formos pastores que valorizam a centralidade da exposição bíblica em nosso ministério. Um entendimento da suficiência da Escritura é o contexto em que afirmamos, mantemos e praticamos a centralidade da Escritura na vida da igreja.
Vinte anos atrás, em meio à enxurrada de escritos sobre a inerrância da Escritura, pouco foi escrito sobre a suficiência da Escritura. Ela apareceu em escritos sobre a visão dos Reformados sobre a Escritura. Então você podia ler um grande artigo de R. C. Sproul, “Sola Scriptura: Crucial ao Evangelicalismo”, no livro Os Fundamentos da Autoridade Bíblica, editado por James Montgomery Boice. Mais recentemente, Wayne Grudem escreveu um capítulo muito bom sobre a suficiência da Escritura em sua Teologia Sistemática. As últimas páginas são dedicadas às aplicações práticas da doutrina, e há muita sabedoria nelas. Ele afirma claramente que “quando estamos enfrentando problemas de genuína importância em nossa vida cristã, devemos buscar a Escritura com a confiança que Deus nos proverá orientação através dela para o nosso problema”.
Se vamos nos comprometer com o pastoreio das ovelhas, levando-as à Palavra de Deus, devemos estar aptos a responder o que significa a suficiência das Escrituras. Devemos saber, considerar, explicar e ensinar que as Escrituras são suficientes. Eu sei que elas são. Deus me disse:
Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra. (2 Timóteo 3.16-17)
Traduzido por Filipe Schulz | iPródigo
Mark Dever
Texto publicado originalmente em: http://iprodigo.com/traducoes/%E2%80%9Cfoi-deus-quem-me-disse%E2%80%9D-e-a-suficiencia-da-escritura.html
Intercâmbio feito por Walber Arruda

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Siga seu coração?


O coração humano
O popular mantra “siga seu coração” assume que nós temos uma bondade inerente dentro de nós, e que nós precisamos apenas expressar isso às outras pessoas.
John Keats, poeta romântico inglês, escreveu: “Eu de nada tenho certeza, a não ser da realidade das afeições do coração e da verdade da Imaginação.”
E quem não se lembra do desenho “Ursinhos carinhosos”, que  usavam poderes vindos do coração para derrotar o vilão “Coração Gelado”?
A incorporação foi desativada mediante solicitação
Ursinhos Carinhosos
Na verdade, Jesus trouxe algumas más notícias no que diz respeito ao que vem do coração humano: pensamentos vis, imoralidade sexual, roubo, homicídio, adultério, falso testemunho, ganância, malícia, dissimulação, lascívia, inveja, fofoca, arrogância e frivolidades (Mateus 15.17-20; Marcos 7.20-22). Ele conclui, “Todos esses males vêm de dentro e tornam o homem ‘impuro’.
Em Gálatas 5.17-21, Paulo segue a linha de Jesus e nos diz que é inerente a nós a imoralidade sexual, impureza, sensualidade, idolatria, feitiçaria, inimizade, conflito, ciúmes, ira, rivalidade, dissensão, divisão,  inveja, embriagues, orgias e outras coisas desse tipo.
O Fruto do Espírito
Após fazer uma lista de desejos pecaminosos, Paulo procede e lista os Frutos do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, mansidão, fidelidade e domínio próprio. O fruto do Espírito não nos é inerente, mas é trabalhado em nós pelo Espírito Santo.
O coração natural do homem produz um tipo de desejo, e o Espírito produz outro tipo ao nos dar um novo coração. E eles se opõem. Moitas não produzem laranjas. Grama não produz maçãs. E o coração humano não consegue produzi naturalmente o fruto do Espírito.
Enganos
Infelizmente, alguns Cristãos tratam o fruto do Espírito como uma nova lei – metas que precisamos nos esforçar para atingir com nossas próprias forças. Não é isso que Paulo quer dizer. O fruto do Espírito é trabalhado pelo Espírito, não por nós. Essa é uma mensagem de grade esperança, não de resignação pessimista. O fruto do Espírito é algo que podemos pedir a Deus e esperar que ele nos dê. O fruto do Espírito é a esperança pelo agir de Deus em nós; não é um dever a ser cumprido. O fruto do Espírito é uma antecipação do que Deus pode fazer por nós; não é uma expectativa moral com ameaça de punição. O fruto do Espírito é Deus matando partes de nós para transformá-las – cortando para curar, destruindo para reconstruir. O fruto não é nossa dedicação a nossas intenções piedosas.
Se é Deus quem trabalha em nós a o querer e o efetuar de acordo com sua bondade (Filipenses 2.13), então porque nós começamos com o Espírito e na realidade, tentamos atingir nossos objetivos por nossas próprias forças (Gálatas 3.3)?
Como você demonstra seu amor quando sente ódio por seu (sua) ex? Ou pela pessoa que te ofendeu? Ou aquele seu amigo egocêntrico e chato?
Como você demonstra alegria quando está paralisado pelo medo e pela insegurança?
Como você encontra paz quando está cheio de preocupações sobre seu passado, presente, ou futuro?
Como você mantém a paciência quando você acorda no meio da noite, cheio de uma ansiedade tão grande que você consegue até sentir no próprio corpo?
Como você age com bondade quando há tantas pessoas que agem como se fosse seus inimigos?
Como você age com mansidão quando percebe que os mais mansos são normalmente pisados como pano de chão?
Como você age com bondade quando a maldade surge mais naturalmente e parece ser mais recompensadora?
Como você mantém o domínio próprio quando seu desejo pelo prazer imediato parece tão fora de controle?
Transformação
Por nós mesmos, não somos capazes de nenhuma dessas coisas, pois o fruto do Espírito é um agir de Deus em nós, não um plano de ação para eliminar o pecado e atingir a santidade. Não precisamos de um ajuda do Espírito Santo combinada com nosso “esforço espiritual”. Precisamos que o Espírito nos transforme. Precisamos que o Espírito nos dê um novo coração, com novos desejos e afeições: “Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!” (2 Coríntios 5.17).
O fruto do Espírito é o fruto da fé e do arrependimento, não uma auto-determinação espiritual. O fruto do Espírito é a esperança de que Deus vai fazer o que prometeu: restaurar o que foi destruído, ser fiel quando você não é, e agir com poder em tempos de fraqueza.
Justin Holcomb é o Diretor Acadêmico do centro de treinamento do The Resurgence
Traduzido por Filipe Schulz
Intercâmbio feito por Guilherme Barros
Artigo originalmente publicado em: http://iprodigo.com/traducoes/siga-seu-coracao.html

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

20 coisas impossíveis para Deus

Talvez já tenha acontecido com você. Você está em uma roda conversando, sendo que alguns ali são ateus. De repente alguém vem com a pergunta: “Deus pode criar uma pedra tão grande que nem Ele mesmo possa levantar?”.

A intenção da pergunta é mostrar que Deus não é onipotente. Ou Ele não pode criar a pedra, o que mostra que Ele não pode fazer qualquer coisa, ou Ele pode criá-la, mas não pode movê-la, o que também mostra que Ele não pode fazer qualquer coisa. A pergunta parece não deixar saída, mas apenas confirmar que Deus não é onipotente.
A pergunta é bem antiga. Ela tem, pelo menos, 800 anos. E há registros de uma versão semelhante de 1.500 anos atrás. Ela é comumente conhecida como “O Paradoxo da Pedra”.
Essa pergunta não prova nada contra a onipotência de Deus. Ela fere os princípios da lógica. A pergunta faz tanto  sentido  quanto  perguntar  “Vai  chover  ontem?”,  “É  possível  fazer  um  triângulo  redondo?”  ou “Quanto poder é necessário para fazer 2+2 ser igual a 5?”. Ela mistura duas premissas que não podem existir juntas. Deus pode criar uma pedra de qualquer tamanho. Ele também pode mover qualquer pedra. Mas misturar essas duas premissas em um mesmo universo fere o princípio da não-contradição. Filósofos e Apologetas cristãos têm respondido satisfatoriamente a essa pergunta ao longo dos anos1. Ela não é nenhuma ameaça para o poder ilimitado de Deus.
Mas a partir dessa pergunta, fiquei pensando em coisas que são impossíveis para Deus. Aqui vai uma lista de 20 coisas impossíveis para o nosso Santo e Todo-Poderoso Deus:
1.     É impossível para Deus mentir.
Deus não é homem para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa (Números 23.19a).
Seja Deus verdadeiro, e mentiroso, todo homem. (Romanos 3.4a).
2.    É impossível para Deus ser injusto.
Não fará justiça do Juiz de toda a terra? (Gênesis 18.25b).
Deus é fidelidade, e não há nele injustiça; é justo e reto (Deuteronômio 32.4b).
Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei das nações! (Apocalipse 15.3c).
3.     É impossível para Deus ser tentado.
Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta (Tiago 1.13).
4.   É impossível para Deus deixar de existir.
Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus (Salmos 90.2).
Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-Poderoso (Apocalipse 1.8).
5.    É impossível para Deus fazer algo mal.
O SENHOR é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras (Salmos 145.9).
O SENHOR é bom, é fortaleza no dia da angústia e conhece os que nele se refugiam (Naum 1.7).
6.   É impossível para Deus fazer algo impuro.
Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar (Habacuque 1.13a).
7.     É impossível para Deus não estar em todos os lugares ao mesmo tempo.
Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra me susterá (Salmos 139.7-10).
8.   É impossível para Deus negar quem Ele é.
Se  somos  infiéis,  ele  permanece  fiel,  pois  de  maneira  nenhuma  pode  negar-se  a  si  mesmo  (2 Timóteo 2.13).
9.   É impossível para Deus não se irar contra o pecado.
Por isso, os perversos não prevalecerão no juízo, nem os pecadores na congregação dos justos. Pois o SENHOR conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá (Salmos 1.5-6).
10.  É impossível para Deus deixar de agir graciosamente para conosco.
Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? (Romanos 8.32)
11.   É impossível para Deus ser limitado por alguém.
E segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes? (Daniel 4.35b)
12.  É impossível para Deus ficar cansado.
Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o SENHOR, o Criador dos fins da terra, nem se cansa, nem se fatiga?(Isaías 40.28)
13.  É impossível para Deus ganhar algum conhecimento novo.
Não! Com Deus está a sabedoria e a força; ele tem conselho e entendimento (Jó 12.13).
Grande é o Senhor nosso e mui poderoso; o seu entendimento não se pode medir (Salmos 147.5).
14.  É impossível para Deus dormir.
É certo que não dormita, nem dorme o guarda de Israel (Salmos 121.2).
15.  É impossível para Deus nos abandonar.
E eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século (Mateus 28.20b).
16.  É impossível para Deus perder algum dos seus.
Eu mesmo recolherei o restante das minhas ovelhas, de todas as terras para onde as tiver afugentado, e as farei voltar aos seus apriscos (Jeremias 23.3).
Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora (João 6.37).
17.  É impossível para Deus deixar de cumprir suas promessas.
Porventura, tendo ele prometido, não o fará? Ou, tendo ele falado, não o cumprirá? (Números 23.19b).
Porque a visão ainda está para cumprir-se no tempo determinado, mas se apressa para o fim e não falhará; se tardar, espera-o, porque, certamente, virá, não tardará (Habacuque 2.3).
18.  É impossível para Deus não completar Sua obra em nós.
Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus(Filipenses 1.6).
19.  É impossível para Deus ter alguma necessidade externa.
O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas. Nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais (Atos 17.24-25).
20. É impossível para Deus abrir mão de sua glória.
Eu sou o SENHOR, este é o meu nome; a minha glória não darei a outrem, nem a minha honra, às imagens de escultura (Isaías 42.8).
O fato de haver coisas impossíveis para Deus não o torna menos Deus. Pelo contrário! Isso o exalta ainda mais. O único Deus verdadeiro é infinitamente bom, justo e santo. Por causa de sua natureza divina, Ele não faz nada contrário às suas infinitas perfeições. Ele nunca peca, nunca é injusto ou faz algo que não seja santo. Que Deus grandioso nós temos! Que maravilha viver em um mundo governado por um Deus assim! Aí está uma coisa impossível: não adorá-lo.
1Uma delas em português aqui
Alex Daher
Intercâmbio feito por Rafaelle Amado