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terça-feira, 21 de abril de 2015

A falta de confessionalidade como razão do caos teológico contemporâneo



Organizar a fé em sistematizações ou resumi-la em credos não é algo somente dos séculos XVI em diante, os judeus usavam a Shema (duas primeiras seções da Torá) para professar a sua fé (exemplo encontrado em Deuteronômio 6:4-9). As varias declarações de fé encontradas no Novo Testamento (João 4:42 , 6:14, 6:69) além do Credo Apostólico datado dos primeiros séculos da igreja cristã que tinha função pedagógica para o batismo dos novos na fé e para combater as heresias da época.
Após o marco da Reforma Protestante, em 31 de Outubro de 1517, o cristianismo teria a sua principal divisão em função dos abusos encontrados em diversos pontos da doutrina da Igreja Católica Romana e embora Lutero inicialmente não tivesse a intenção se fundar uma nova religião, mas sim purificar a igreja de tais desvios e para que ficassem claras as intenções de Lutero, as 95 teses constituíam a exposição publica e escrita dos desvios. Contudo, a resposta protestante aos abusos da ICAR gradualmente foram copilados nos Cinco Solas e também no moto Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est. Posteriormente as confissões de fé Belga (1561), Catecismo de Heidenberg (1563), Segunda Confissão Helvética (1566), Cânones de Dort (1618-1619), Confissão de Fé de Westminster (1647) e seus Catecismos Maior e Menor (1648).
Augustus Nicodemus fala que comumente alguns dos lemas reformados são usados e entendidos de maneira diferente em nossos dias, por exemplo o moto Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est (A Igreja é reformada e está sempre se reformando). Nicodemus diz que o holandês calvinista Gisbertus Voetius (1589-1676), que escreveu tal moto na época do Sinodo de Dort, dificilmente estava se referindo a ‘igreja estar sempre mudando’, de forma que a voz passiva do “Ecclesia Reformata” lembra que o agente da reforma não é a igreja, mas sim o Espírito Santo, que leva os cristãos às Escrituras, entendendo que a verdade não muda [1] . Mas em nossos dias não é bem assim que acontece. Evocando para si a justificativa de que a igreja “está sempre se reformando”, as mais variadas aberrações entraram na igreja com a interpretação errônea que isto significava novas interpretações que não tem nenhum comprometimento com as Escrituras.
Toda falsa doutrina tem como principal argumento o recebimento de novas revelações da parte de Deus, ou seja, começam então a negar o Só a Escritura e assim ao contrário do que pensam ser o progresso da igreja, voltam as práticas da ICAR e regressam a uma situação de obscuridade da qual contrasta fortemente com a iluminação do Verdadeiro Espírito que nos chama a Palavra e somente a ela. A falta de apego confessional deságua na livre interpretação pessoal dos textos bíblicos e não na livre consulta (CFW cap. 1. V), porém é necessário não menosprezar a história da Igreja, onde os Pais da Igreja se esmeraram para explicar passagens e fundamentar a fé cristã, inclusive não rejeitando a doutrina apostólica, mas se apoiando nela.
É obvio que a subscrever uma confissão não é incoerente, a Bíblia é infalível, as confissões não. A autoridade das confissões é vinda da própria Bíblia, por isso ser confessional significa entender que tal confissão é a interpretação mais harmoniosa do Sagrado Texto e isto não coloca a confissão acima das Escrituras nem deixa de lado o lema Só a Escritura. Joel Beeke cita que os primeiros reformadores reconheciam o serviço que as confissões prestavam à igreja na adoração (tarefa doxológica), o testemunho (tarefa proclamadora), o ensino (tarefa didática) e a defesa da fé (a tarefa disciplinadora), ou seja, nas confissões a igreja declara no que ela crê [2].
Sérios desvios doutrinários como o arminianismo, adventismo, mormonismo, liberalismo, neopentecostalismo e etc. tem aparecido pela falta de apego às confissões reformadas. Os Cânones de Dort, por exemplo, foram os cinco artigos escrito contra os seguidores dos ensinos de Armínio. Eles foram elaborados em 154 sessões durante sete meses, rejeitado os ensinos dos remonstrantes. Uma volta no arminianismo, em função do pentecostalismo, não teria ocorrido se fosse levado em conta o trabalho do Sínodo de Dort. Talvez fosse possível evitar a força que neopentecostalismo tem desde Charles Finney. Não obstante Ellen G. White não teria influenciado com seus escritos a volta às praticas da lei cerimonial e civil de Israel por parte do adventismo, quem sabe Joseph Smith Jr tivesse suas duvidas sanadas antes das mesmas o levar a fundar a religião mórmon ou mais talvez ainda mais importante nos nossos dias, o liberalismo teológico fosse apenas uma clara blasfêmia contra Deus.
Claramente o abandono das confissões da época da reforma constitui um perigo que nos fez chegar até o atual quadro de caos no meio evangélico. Somos filhos de um retorno efetivo às Escrituras, principalmente com Lutero e Calvino, mas claramente a ausência literal ou funcional do apego as confissões reformadas como o trabalho da vida dos reformadores e dos Pais da Igreja, nos tem feito perceber a necessidade da ‘igreja ser reformada e sempre se reformar’. Não nesse sentido em que a Palavra é diluída nos achismos das seitas, mas no sentido de volta às Escrituras guiada pelo Espírito Santo.
É importante frisar que não se trata de tornar qualquer confissão um ídolo, mas sim tentar abandonar o ídolo da interpretação particular das escrituras, ou seja, o ídolo do “eu”. Não há duvidas que o espírito deste século tem usado de estratégias que se valem do argumento da comparação das confissões com a tradição romana, para diminuir obra do Espírito ao longo da história da igreja. Confissão alguma tem caráter igual ou superior às Escrituras, inclusive as próprias confissões claramente expressam a inerrância bíblica, algo que tanto a tradição católica nega (igualando-se a Palavra) quanto os líderes carismáticos que negam efetivamente com suas novas revelações e interpretações, a autoridade bíblica.
Um cristianismo confessional sem dúvida expõe mais do que um credo aos de fora da comunhão, o cristianismo confessional tem contribuído para que os próprios cristãos sejam mais conhecedores da Palavra e não sejam levados por qualquer vento de doutrina que se proliferam aos montes à medida que a volta de Cristo se aproxima. Que Deus nos dê a graça de poder encontrar na Sua Palavra a verdadeira espada do Espírito!


[2] BEEKE, Joel R. Vivendo para a glória de Deus. Capítulo 2: pág. 35. Editora Fiel, 2010.


Felipe Medeiros

felipealexandremedeiros@outlook.com

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A Reforma e a Missão

Após participar de um encontro de igrejas no nordeste da França tive a oportunidade de dar uma palavra também aos adolescentes de uma escola cristã. Na entrada da escola a réplica de um mapa de 1573 chamou a minha atenção. Era o mapa do império francês do fim do século 16 com centenas e centenas de marcas, em forma de uma cruz, espalhadas por toda a sua extensão. O diretor da escola se aproximou explicando que as marcas indicavam a localização de cada escola cristã na França da época, cerca de duas mil! Com voz melancólica completou que “hoje não passam de vinte”. A forte presença de escolas cristãs era um resultado direto da Reforma Protestante sob a influência de Lutero, Calvino, Zwínglio, Farel e Knox que defendiam a pregação da Palavra, uma escola cristã em cada igreja cristã e um culto centrado em Cristo e não na Igreja.
 
A Reforma Protestante - desencadeada com as 95 teses de Lutero divulgadas em 31 de outubro de 1517 – foi, sobretudo, eclesiástica em um momento que todos os olhares se voltavam para a reestruturação daquilo que a Igreja cria e vivia. Renasceram assim os dogmas evangélicos. 
 
Sola Scriptura defendia uma Igreja centrada nas Escrituras, Palavra de Deus; a Sola Gratia reconhecia a salvação e vida cristã fundamentadas na Graça do Senhor e não nas obras humanas; a Sola Fide evocava a fé e o compromisso de fidelidade com o Senhor Jesus; a Solus Christus anunciava que o próprio Cristo estava construindo Sua Igreja na terra sendo seu único Senhor e a Soli Deo Gloria enfatizava que a finalidade maior da Igreja era glorificar a Deus. 
 
A missão da Igreja, sua Vox Clamantis, não fez parte dos temas defendidos e pregados na Reforma Protestante de forma direta. Isso por um motivo óbvio: os reformadores possuíam em suas mãos o grande desafio de reconduzir a Igreja à Palavra de Deus e, assim, todos os escritos e esforços foram revestidos por uma forte convicção eclesiológica e sem preocupação imediata com a missiologia. Isso não dilui, entretanto, a profunda ligação entre a reforma e a missão como veremos a seguir. 
 
A Reforma e as Escrituras na língua do povo
 
A Reforma levou a Igreja a crer que o curso de sua vida e razão de existir deveriam ser conduzidos pela Palavra de Deus, submetendo o próprio sacerdócio a esse crivo bíblico. Foi justamente essa ênfase escriturística que despertou Lutero para a tradução da Palavra na língua do povo e inspirou posteriormente centenas de traduções populares em diversos idiomas, fomentando movimentos como aWycliffeBibleTranslators com a visão da tradução das Escrituras para todas as línguas entre todos os povos da terra. 
 
Hoje contamos com a Palavra do Senhor traduzida para mais de duas mil línguas vivas. João Calvino enfatizava que “... onde quer que vejamos a Palavra de Deus pregada e ouvida em toda a sua pureza... não há dúvida de que existe uma igreja de Deus”. O grande esforço missionário para a tradução bíblica resulta diretamente deste conceito resgatado na Reforma Protestante. 
 
A Reforma e o culto participativo
 
A Reforma reavivou o culto em que todos os salvos, e não apenas o sacerdote, podem louvar e buscar a Deus. E Lutero, como uma de suas primeiras atitudes, colocou em linguagem comum os hinos entoados nos cultos. Esta convicção de que é possível ao homem comum louvar a Deus incorporou na Igreja pós-reforma o pensamento multiétnico através do qual “o desejo de levar o culto a todos os homens”, como disse Zuínglio, não demorou a ressoar na Igreja, culminando com o envio de missionários para o Ceilão pela igreja Reformada holandesa no século 17. Isso, então, disparou um progressivo envio missionário e expansão da fé Cristã nos séculos que viriam. 
Um culto vivo ao Deus vivo foi um dos pressupostos reformados que induziu a obra missionária a levar esse culto a todos os homens transpondo barreiras linguísticas, culturais e geográficas.
 
A Reforma e a expansão da fé cristã
 
A Reforma destacou a Glória de Deus como motivo de existência da Igreja e isso definiu o curso de todo o movimento missionário pós-reforma no qual o estandarte de Cristo, e não da Igreja, era levado com a Palavra proclamada entre outros povos. Os morávios já testificavam sobre isto, no século 18, quando o conde Zinzendorf, ao ser questionado sobre seu real motivo para tão expressivo e sacrificial movimento missionário, respondeu: “estamos indo buscar para o Cordeiro o galardão do Seu sacrifício”. John Knox, na segunda metade do século 16, escreveu que, como resultado da Reforma, o Evangelho era exposto em toda parte, perto e longe. O centro das atenções, portanto, era Cristo e nascia ali um modelo cristocêntrico de pregação do Evangelho que marcaria o curso da história missionária nos séculos posteriores.
 
A Reforma Protestante passou a Igreja pelo crivo da Palavra e isto revelou a nossa identidade bíblica segundo o coração de Deus. Seguindo o esboço da eclesiologia reformada, poderemos concluir que somos uma comunidade chamada e salva pelo Senhor e com uma finalidade na terra. Zwínglio, logo após manifestar sua intenção de passar a pregar apenas sermões expositivos, em janeiro de 1519 afirmou em sua primeira prédica que “a salvação põe sobre nós a responsabilidade de obediência”. Não era suficiente apenas ouvir e compreender. Era preciso obedecer e seguir.
 
A Reforma e a motivação para o serviço e a missão
 
A Reforma também destacou o assunto do nosso propósito de vida e elucidou que a finalidade maior da nossa existência não é servir à Igreja ou a nós mesmos. A exposição de Calvino da carta aos Romanos, com especial destaque no último capítulo, deixa bem clara a evidência bíblica e convicção reformada de que vivemos e trabalhamos para a glória de Deus. A obra missionária, assim, passou a ser realizada não para expandir uma instituição, uma ideia ou um clero, mas para glorificar ao Supremo Criador e esta foi uma das grandes contribuições da Reforma para a missiologia protestante e para as ações missionárias.
 
Em Romanos16, versos 25 a 27, lemos: “Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu Evangelho” (fala de Deus), “conforme a revelação do mistério” (o “mistério” é o Messias prometido a todos os povos), "e foi dado a conhecer por meio das Escrituras Proféticas" (aponta para o meio de revelação), "segundo o mandamento do Deus eterno" (aponta para o desejo fomentador da nossa salvação), "para a obediência por fé"(aponta para o meio de salvação), "entre todas as nações” (esta é a extensão do plano salvífico de Deus).
 
Que lindo texto! Nele, Paulo resume a teologia da missão e expõe o propósito de Deus em resgatar pessoas de perto e de longe, em Cristo Jesus.
 
Mas qual o motivo maior para esse plano divino que visa a redenção de todos os povos? Ele completa no verso 27: “Ao Deus único e sábio seja dada glória ...”. É a glória de Deus! E esse é também o maior e mais importante motivo para nos envolvermos com o propósito de fazer Jesus conhecido até a última fronteira do país mais distante, ou da família na casa vizinha. 
 
Martinho Lutero, em um sermão expositivo em 1513, baseado no Salmo 91, afirmou que “a glória de Deus precede a glória da igreja”. É momento de renovar nosso compromisso com as Escrituras, reconhecer que existimos como Igreja pela graça de Deus, orar ardentemente por fidelidade de vidas e entender que o próprio Jesus está construindo a Sua igreja na terra. 
 
A Reforma e a busca por um coração pronto e sincero
 
O símbolo de Calvino passou a ser um coração seguro por uma mão e apresentado bem alto. Ao redor, escrito em latim, se lia Cor Meum Tibi Offero Domine Prompte et Sincere – “meu coração a ti ofereço Senhor, pronto e sincero”. Calvino, usado por Deus em sua geração e tantas outras entendia que, além de todo o conhecimento teológico e humano, havia a grave necessidade de um coração quebrantado e pronto.
 
John Knox, na busca por um coração aquecido e avivado no Senhor Jesus proclamava que a ponte entre o conhecimento e a transformação era o quebrantamento. Dizia em outras palavras que, sem um coração quebrantado, nenhum conhecimento teológico ou humano produziria uma vida transformada. 
 
Concluo citando uma vez mais as palavras do reformador Lutero no livro GlorytoGlory em que ele nos ensina a dar passos e nos mostra que nossa vida em Cristo, como também a nossa missão na terra, são uma caminhada.
 
“Esta vida, portanto, não é justiça, mas crescimento em justiça. Não é saúde, mas cura. Não é ser, mas se tornar. Não é descansar, mas exercitar. Ainda não somos o que seremos, mas estamos crescendo nesta direção. O processo ainda não está terminado, mas vai prosseguindo. Não é o final, mas é a estrada. Todas as coisas ainda não brilham em glória, mas todas as coisas vão sendo purificadas”.
 
Que o Senhor nos quebrante, converta, abençoe e use para a Sua glória.

Ronaldo Lindório

Original: http://www.ultimato.com.br/conteudo/a-reforma-e-a-missao#reforma+protestante

Intercâmbio feito por Cícero da Silva Pereira

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Em que Crê um Cristão Reformado?

Muitos irmãos em Cristo devem ter percebido que me identifico sempre como um "cristão reformado", apesar de, logicamente, ser um evangélico. Talvez alguns já indagaram a si próprios sobre o que significa essa expressão, porém nunca tiveram coragem de perguntar. Escrevo este artigo com o objetivo de satisfazer a curiosidade de todos aqueles que ficam com um nó na cabeça sempre que ouvem ou lêem essa expressão de minha parte.

Um cristão reformado é alguém que crê na doutrina bíblica conforme expressa pela Teologia Reformada, elaborada no tempo da Reforma Protestante. Como já foi dito anteriormente, a Reforma foi o maior avivamento da história da igreja, tendo como marco inicial a publicação das 95 Teses contra a venda de indulgências, por Martinho Lutero, em 31 de outubro de 1517. Depois de Lutero surgiram muitos outros reformadores, entre eles João Calvino. Enquanto Lutero foi o responsável pela recuperação da doutrina da justificação pela fé, Calvino recuperou a doutrina da soberania de Deus. E foi sobre essas doutrinas que se construiu a chamada Teologia Reformada, que nada mais é do que uma sistematização da doutrina bíblica.

Para que a Teologia Reformada fique mais clara a todos, gostaria de fazer uma breve confissão de fé sobre o que creio como cristão reformado. Não tenho a pretensão de ser exaustivo nesta confissão, pois para isso já existem as confissões de fé históricas. Desejo apenas apresentar a fé reformada de forma resumida para aqueles que ainda não a conhecem.

Em primeiro lugar, creio como reformado que a Bíblia deve ser interpretada seguindo o modelo histórico-gramatical. Isto significa que, por ser um livro inspirado pelo Espírito Santo (II Tm.3.16), a Bíblia deve ser interpretada em espírito de oração e na total dependência do Espírito, que ilumina nossa mente para que possamos compreender seu verdadeiro significado (I Co.2.10-16). Porém, como a Bíblia também é um livro humano, no sentido de que foi escrita por seres humanos usados por Deus (II Pe.1.21), devemos interpretá-la usando regras de interpretação, a que damos o nome de Hermenêutica Bíblica. Essa interpretação é histórico-gramatical porque deve levar em consideração o contexto histórico em que a passagem analisada foi escrita (autor, destinarários, etc) e também o contexto gramatical no qual está inserida (tipo de literatura, versículos anteriores e posteriores, etc).

Neste ponto discordo dos neo-pentecostais, que muitas vezes interpretam a Bíblia alegoricamente, atribuindo um significado simbólico ou espiritual diferente do significado pretendido pelo escritor original do texto. Também discordo dos dispensacionalistas que, sob o pretexto de interpretarem a Bíblia literalmente, acabam pegando as passagens em seu sentido literal mesmo em escritos poéticos e proféticos, cheios de símbolos e figuras, chegando a interpretações precipitadas sobre o texto bíblico.

Em segundo lugar, creio como reformado na justificação pela fé. A justificação é um ato legal, no qual Deus declara que o pecador é justo (Rm.3.22-26; 4.5), não por alguma obediência ou boa obra dele próprio (Ef.2.8), nem por algo operado nele pelo próprio Deus, mas somente por causa da obediência perfeita de Cristo à lei (Rm.5.18-19). Essa justificação é composta de dois processos: o negativo, que consiste no perdão de pecados (Rm.4.6-8), e o positivo, que consiste na imputação da justiça de Cristo (II Co.5.21). O pecador é justificado somente pela fé (Rm.3.28).

Neste ponto discordo de diversas visões sobre a justificação pela fé. Discordo dos católicos, que crêem que a justificação é uma mudança moral do pecador, uma infusão de justiça (e não imputação), confundindo justificação com santificação, e fazendo, assim, com que ela dependa não apenas da fé, mas também das boas obras (Rm.4.1-5). Discordo de muitos dispensacionalistas, que freqüentemente negam que a justificação consista também da imputação da justiça de Cristo, fazendo ela consistir apenas em perdão de pecados, e considerando a fé como sendo, ela própria, a justiça que vem de Deus. Discordo também daqueles que ensinam que no Antigo Testamento a justificação era pela obediência à lei, pois as Escrituras são muito claras em afirmar que o homem nunca foi justificado pela lei (Rm.3.20), e a fé sempre foi a condição para justificação, mesmo no Antigo Testamento (Rm.4.3).

Em terceiro lugar, creio como reformado na soberania de Deus. Por soberania de Deus deseja-se mostrar o controle absoluto de Deus sobre toda Sua criação (Mt.6.26; 10.29), e todos os acontecimentos passados, presentes e futuros, sendo Ele o Senhor da história (Dn.4.35). Deus não é somente o Criador, é também o Preservador do Universo, sustentando todas as coisas pela Palavra do Seu poder (Hb.1.3). Ele é quem determina tudo o que acontece, Sua vontade é totalmente soberana (Is.46.10), inclusive sobre nossas vontades (Fp.2.13). Logo, não existe, como muitos dizem, um livre-arbítrio. Existe sim uma liberdade e responsabilidade humana, mas que é limitada pela vontade soberana de Deus.

Nisto discordo de diversos ramos cristãos, em diversos aspectos. Discordo daqueles que crêem que a oração pode mudar a vontade de Deus, fazendo orações "determinatórias", pois em Deus não há mudança, nem sombra de variação (Tg.1.17); nossas orações são respondidas quando feitas segundo Sua vontade (Mt.6.10; I Jo.5.14) e mudam apenas acontecimentos. Discordo daqueles que pensam que certas coisas acontecem fora do controle de Deus, como catástrofes naturais, guerras ou o problema do mal no mundo, pois tudo isso está em Seus planos e foi por Ele determinado, como demonstram diversas passagens do Antigo e Novo Testamento (Gn.50.20; Rm.8.28). Discordo também daqueles que pensam poder determinar o seu próprio destino, como se o poder da vida ou da morte estivesse em suas próprias mãos (Dt.32.39).

Em quarto lugar, creio como reformado na soberania de Deus especificamente em relação à salvação(Rm.8.29-30). Isso foi perfeitamente expresso num documento chamado Cânones de Dort, elaborado entre 1618 e 1619, onde a salvação é apresentada em 5 pontos: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, chamada eficaz e perseverança dos santos.

Depravação total significa que o homem foi de tal forma afetado pelo pecado que é totalmente incapaz de se salvar sozinho ou mesmo contribuir, por pouco que seja, nessa salvação (Rm.3.9-20). A depravação total mostra que "todos pecaram e carecem da glória de Deus" (Rm.3.23), que os pecadores estão "mortos em delitos e pecados" (Ef.2.1) e que "todo aquele que comete pecado é escravo do pecado" (Jo.8.34). Um morto espiritual não pode fazer nada para viver, e um escravo não tem vontade própria. O poder para ressuscitá-lo espiritualmente tem que vir de fora, e para ser livre precisa antes ser liberto pelo Filho (Jo.8.36) . Por isso, ninguém pode escolher a Jesus por si próprio para ser salvo, nem fazer uso de um tipo de livre-arbítrio para aceitar ou rejeitar a salvação alcançada por Cristo.

Eleição incondicional significa que Deus, somente pela Sua soberana vontade, escolheu desde toda a eternidade (Ef.1.4) uma multidão de "todos os povos, tribos, línguas e nações" (Ap.7.9) para serem salvos de seus pecados e herdarem a vida eterna. Porém, Ele não escolheu a todos (Rm.9.13). Essa escolha não se baseou em nada de bom ou que agradasse a Deus presente nos próprios pecadores , ou alguma fé que Ele tivesse previsto pela Sua presciência (Rm.9.11); pelo contrário, foi totalmente pela Sua maravilhosa graça que Ele os escolheu soberanamente, para o louvor da Sua glória (Rm.9.14-18; Ef.1.5,6,11,12). Aqueles que não foram escolhidos estão destinados à condenação eterna no inferno, sem que Deus seja culpado pelo seu destino ou pelos seus pecados. Deus salva uns para demonstrar a Sua graça, e condena outros para demonstrar Sua justiça (Rm.9.19-24). Outra coisa interessante a se observar é que Deus não era obrigado a salvar ninguém de seus pecados, nem deixaria de ser um Deus amoroso se não o fizesse. Logo, o fato de Deus salvar uma multidão da humanidade por pura graça já é uma demonstração infinita de amor e misericórdia, acima de toda comparação.

Expiação limitada significa que o valor da morte de Cristo é absolutamente infinito e poderoso para perdoar todos os pecados daqueles que Deus escolheu, e apenas desses (Is.53.11-12). Dizer que Cristo morreu pelo mundo não significa que Ele morreu por todas as pessoas do mundo, mas por pessoas de todas as partes do mundo (Jo.3.16; I Jo.2.2). Logo, Cristo não morreu por todos os homens literalmente; apenas pelos escolhidos de Deus, que são Suas ovelhas e Sua Igreja (Jo.10.11,15; 17.9; Ef.5.5-27). Porém, essa expiação dá aos eleitos uma salvação eterna, pois, perdoados de todos os seus pecados pelo sacrifício de Cristo, e tendo sido imputada a eles a justiça de Cristo, eles já não podem ser condenados; eles tem, agora, a vida eterna (Jo.5.24).

Chamada eficaz nos fala sobre como Deus salva os Seus escolhidos. Deus usa a pregação do evangelho como meio de chamar os eleitos para Si mesmo (Rm.10.14-17). O evangelho deve ser pregado a todas as pessoas (Mc.16.15), pois não sabemos quem Deus escolheu, e a Palavra se tornará eficaz na vida daqueles que foram eleitos antes da fundação do mundo (At.13.48). O Espírito Santo irá agir na vida dos eleitos, operando a regeneração (ou novo nascimento- Jo.3.3-8) pela Palavra (I Pe.1.23), tornando-os dispostos a responderem positivamente ao convite do evangelho (At.16.14). É nesse momento que os eleitos recebem a capacidade de "escolher a Deus" e receber a Cristo (Jo.6.65), arrependendo-se de seus pecados e tendo fé em Cristo para salvação. Tanto o arrependimento como a fé são dons de Deus, dados no momento da regeneração (At.5.31; 11.18; Ef.2.8; Fp.1.29; II Tm.2.25). Por isso, ninguém deve se achar melhor que os outros por ter se arrependido ou ter tido fé, porque essa capacidade é algo sobrenatural dado por Deus. Dizer que essa chamada aos eleitos é eficaz significa que é impossível a um eleito resistir ao convite do Espírito Santo, pelo evangelho, no seu coração (Is.43.13).

Perseverança dos santos significa que aqueles que foram eleitos por Deus, desde o dia em que foram salvos, não poderão mais perder essa salvação (Jo.6.39; Rm.8.30; Fp.1.6). Como Cristo morreu por todos os seus pecados - passados, presentes e futuros - nenhum pecado pode, agora, levá-los à condenação: "Nenhuma condenação há para aqueles que estão em Cristo" (Rm.8.1). Uma vez salvo, salvo para sempre. Eles têm a vida eterna e, se é eterna, não pode acabar um dia (Jo.10.28-29). Nada, agora, pode separá-los do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm.8.35-39). Porém, isso não significa que os eleitos nunca mais pecarão, porque isso certamente irá acontecer (I Jo.1.8-10). Mas como eles foram regenerados, seu prazer agora não é mais o pecado, mas a santidade (I Jo.3:6-10). Uma pessoa que viva em pecado e alegue ter sido salva deve ter sua salvação seriamente questionada. Um cristão pode até cometer um pecado terrível, porém, esse pecado certamente requererá uma disciplina da parte de Deus, não com o objetivo de fazê-lo pagar pelo seu pecado, que ja foi pago na cruz por Cristo, mas com a finalidade de aperfeiçoá-lo, para que seja participante da santidade de Deus (Hb.12.5-13). Davi foi um exemplo dessa disciplina de Deus, no caso de Bate-Seba (II Sm.11 e 12).

Em quinto lugar, creio como reformado que o "fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre", como diz o Breve Catecismo de Westminster. Logo, um reformado tenta viver uma vida que glorifique a Deus em todos os aspectos, e entende que Deus é adorado e glorificado em todas as áreas de sua vida: no trabalho, na família, na sociedade, no lazer, na igreja, etc. "Quer comais, quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus" (I Co.10.31), como diz o apóstolo Paulo. A busca da glória de Deus e a adoração cheia de amor que brota do coração de um cristão reformado é a aplicação prática e conseqüência da doutrina da soberania de Deus. Pode-se perceber isso no próprio Paulo que, depois de discorrer sobre o assunto da soberania de Deus dos capítulos 9 a 11 de Romanos, encerra o assunto com adoração: "Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem deu primeiro a ele, para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém." (Rm.11.33-36).

Este é um pequeno resumo do que eu creio como reformado. Digo com segurança e convicção que essa é a doutrina original dos evangélicos, mas que, infelizmente, foi abandonada com o tempo. Tenho buscado um retorno ao evangelho bíblico conforme ensinado pelos reformadores, nossos pais na fé, e creio que esse é o único caminho para um verdadeiro avivamento na igreja evangélica moderna. O segredo do avivamento não é inovar, mas olhar para o passado e restaurar o que se perdeu: "Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas." (Jr.6.16).


Minha sincera oração é que Deus utilize este artigo para abrir os olhos de muitos irmãos em Cristo às verdades esquecidas da Palavra de Deus, e que assim, despertos para o evangelho eterno, possam ter seus corações em chamas por essas mesmas verdades que custaram o sangue de nossos pais!

André Aloísio 
Publicado em: http://teologia-vida.blogspot.com.br/2006/10/em-que-cr-um-cristo-reform_116136941580431401.html

Intercâmbio feito por Walisson Arruda

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Só a Graça

       
Se perguntarmos a qualquer crente o que é GRAÇA, creio que sem titubear seus lábios proferirão a seguinte frase: GRAÇA É FAVOR IMERECIDO. Se continuarmos e perguntarmos qual o significado disto e suas implicações na vida prática do cristão, aí as coisas se complicam e as respostas já não saem com tanta facilidade e rapidez. Também não acho que seja algo de fácil resposta e exposição, mas creio podermos refletir alguma coisa sobre o tema.
       Primeiro, ao entendermos graça (e aqui fique claro que sempre ao usarmos este termo estamos falando da graça de Deus) como favor imerecido confessamos nossa total incapacidade de alcançarmos tal favor através de nossos próprios méritos. Isto nos faz entender que tudo o que temos e somos é manifestação da graça misericordiosa de Deus para conosco, pois a Ele aprouve nos fazer ser e ter. E tudo para a glória Dele. E aí vem outro aspecto importantíssimo.

       Compreender a graça como favor imerecido nos dá a consciência de quem somos (Rm 3.23) e de quem Deus é (Rm 11. 33-36). Quando entendemos isto, vivemos na prática a diferença que faz crer na soberania de Deus. Este aspecto é muito importante e merece reflexão, pois vivemos momentos difíceis, onde o que se chama de evangelho está cada vez mais centrado no homem, e que este pode tudo, inclusive pressionar Deus para que este faça o que apraz ao homem. O cristianismo bíblico, verdadeiro e simples não deixa lugar para a vontade do homem. Paulo escrevendo aos romanos diz que devemos renovar as nossas mentes, não nos conformar com o presente século para experimentarmos a vontade de...Deus (Rm12.2). Sendo assim, entender a graça significa também entender a soberania total e absoluta de Deus, pois todas as coisas são dele, por meio dele e para ele. Um episódio bíblico que mostra alguém com consciência de si mesmo e de Deus está relatado em Lc 18.9-14. O publicano acerta em cheio quando derrama seu coração diante do soberano: Ó Deus,, sê propício a mim, que sou pecador.

     Mês passado comemoramos mais um aniversário da reforma protestante (31 de outubro). O grande clamor dos reformadores foi uma chamada a igreja ao retorno das práticas da Palavra de Deus. Entre estas a pregação da justificação somente pela fé por meio da graça (Ef 2.8-10). Crer assim mostra que entendemos  não merecermos esta salvação (lembremos: favor imerecido), que somos alcançados por ter Deus nos predestinado antes da fundação do mundo (2 Tm 1.9) e não podemos resistir a esta graça (Jo 6.37; Sl 65.4), pois nossa salvação não depende de nós. E assim mostramos também que temos umbigo temos consciência quando dizemos que somos reformados.

       Por fim, a crença na graça de Deus nos dá ânimo e confiança na jornada cristã, pois é esta graça que nos mantém firmes no caminho do Senhor e assim será até o fim (Fp 1.6), pois a salvação é pela graça, por meio da fé, e esta fé foi entregue aos santos de uma vez por todas (Jd 3).

DEUS NOS ABENÇOE
Presb. Cicero da Silva Pereira

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A Arrogância Evangélica

A Igreja cristã protestante sempre foi conhecida por sua postura firme e convicções resolutas em relação a sua fé. As firmes convicções doutrinárias defendidas ao longo do tempo e a resistência à união com falsas crenças, culminaram por atrair a antipatia de muitos, se tornando alvo de críticas, com acusações de serem arrogantes, radicais, intolerantes, alienados, entre outros termos pejorativos. Críticas estas vindas por parte daqueles que não confessam a religião revelada nos Escritos sagrados e querem a todo custo promover a união de todos os credos num movimento da religião moderna conhecido por ecumenismo.

O ecumenismo nos moldes atuais nada mais é do que uma tentativa humana de unir todos os credos, pretendendo assim, abraçar todas as diferenças em nome da paz. Apontando a tolerância como elo de harmonia entre as diferenças, o movimento apresenta um aparente discurso inclusivista e livre de qualquer preconceito.

Agora atentemos para o seu significado bíblico. Ecumenismo vem de uma palavra grega que originalmente significa “todo o mundo habitado” (Mt 24.14; At 17.26; Hb 2.5). O ecumenismo bíblico, por sua vez, é totalmente diferente da união sincretista da religião moderna, pois trata da unidade de um grande povo formado não exclusivamente por uma linhagem segundo a carne, mas que abarca pessoas de diferentes raças, tribos e nações, e que tem em comum a semente da fé em Cristo Jesus. Escolhidos segundo a graça eletiva de Deus, revelada primeiramente em Abraão, mas estendida a todos os santos espalhados pela terra e que estarão diante do trono de Deus glorificando-o para sempre.

Fica evidente que o posicionamento reformado deve-se aquilo que as Escrituras apontam como a verdadeira unidade religiosa e nada tem haver com ódio e intolerância, como propagado pelos que defendem o pluralismo religioso. O Senhor Jesus orou para que todos fossem um, mas enfatizou que esta unidade só poderia ser possível se fincada na verdade. “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17); “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um [...]” (Jo 17.21,22). Portanto, fora deste princípio qualquer tentativa de comunhão será falsa e danosa para o povo de Deus.

A luta pela verdade sobrepõem-se a qualquer outra tentativa de unidade religiosa. Martinho Lutero sintetizou bem a condição bíblica de unidade quando considerou que deveríamos buscar a paz, se possível, mas a verdade a todo custo. Então, o que eles chamam de arrogância, é na verdade a firme convicção de fé reformada. Temos certeza sobre no que cremos e isto não nos foi revelado por homens, mas pelo próprio Deus através das Escrituras. Esta sociedade pós moderna rotula de arrogantes aos que tem certeza no que crêem, pois eles mesmo não sabem no que acreditam, crêem em tudo e em nada ao mesmo tempo, estão completamente perdidos, pois negam-se a glorificar a Deus (Rm 1.21).

Outra acusação leviana sofrida pelos protestantes é a de causarem divisão e discórdia na Igreja por motivos supérfluos. Mas este nunca foi o interesse dos reformados, aliás, vale ressaltar que nem foi esta também a intenção dos primeiros reformadores, que procuraram manter a unidade evangélica de forma coerente com as Escrituras, objetivo este impossível de ser alcançado por motivos históricos já bem conhecidos.

Em suma, não importa que sejamos falsamente tidos por arrogantes, e tachados por cristãos extremistas, lutemos juntos pela fé evangélica (Fl 1.27) com coragem e ousadia para denunciarmos o falso ecumenismo, disfarçado de tolerância e harmonia, mas que na verdade representa uma séria ameaça à unidade orgânica da Igreja do Senhor Jesus. Descansemos no que disse o Apóstolo Pedro inspirado por Deus: Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus (1 Pe 4.14).

Ericon Fábio

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Hebreus, a Reforma, e o Séc. XXI

Venho meditando há um bom tempo na carta aos Hebreus. E mais uma vez, ao ler as sagradas escrituras vejo que mesmo sendo escrita há tanto tempo atrás, ela ainda nos alcança e traz advertências sérias as nossas práticas hoje. Isso se deve a dois detalhes muitos importantes. O primeiro é que nada é novidade, como já disse o Rei Salomão: “O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol.” Eclesiastes 1:9. E o segundo é que tudo que nós conhecemos e vemos vai passar, mas a palavra de Deus permanecerá para sempre. Nas palavras do próprio Cristo: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão.” Lucas 21:33. A muitos outros motivos pelos quais a palavra de Deus fala para nós hoje, mas vou me ater a estes dois.

O livro de Hebreus foi escrito cerca de 70 anos após a morte e ressurreição de Cristo. Este período foi marcado por uma terrível perseguição aos Cristãos por parte do império Romano, que não aceitava o Cristianismo como religião, apenas o judaísmo. 

Mediante a este cenário, muitos Cristãos estavam enfraquecendo na fé. Visto que muitos deles não foram testemunhas oculares de Jesus e sua ressurreição. Eles acreditavam nos testemunhos de uma minoria que ainda estava viva.

Os Cristãos estavam abandonando o Cristianismo e voltando as velhas práticas judaicas.

O autor de Hebreus (não se sabe ao certo quem foi) escreveu esta carta, para encorajar os Cristãos a permanecer em Cristo. O apóstolo durante todo seu escrito mostra toda a riqueza da vida e do ministério de Cristo, como sua superioridade a todas as coisas existentes. Ele queria mostrar que Cristo é imensamente superior ao Judaísmo. Nas palavras de Stuart Olyott: “Afastar-se de Cristo é afastar-se de algo imenso para algo menor – muito, muito menor. É afastar-se do ser mais glorioso que há em direção a algo comum. É dar as costas ao esplendor da glória de Deus para andar nas trevas exteriores.”

No período da Idade média (séculos V a IX), a igreja proporcionou o que foi chamado de idade das trevas. Onde a igreja era o estado, e como tal reprimia todo e qualquer desenvolvimento cientifico, intelectual, e artístico, se tais conhecimentos não fossem aprovados pela a instituição chamada igreja católica. Se observarmos as obras artísticas, e cientificas, todas eram relacionadas a questões religiosas. Esse período foi marcado pela forte repressão religiosa da igreja, onde somente o clero poderia interpretar as escrituras, e somente eles tinham acesso a tal.

Essa época foi marcada por fortes distorções doutrinárias, e éticas vindas da própria igreja. Suas convicções eram fundamentadas pela tradição, e as escrituras não tinha sua autoridade dentro da igreja. A instituição se colocava como mediadora entre Deus e os homens. Chegando a vender terrenos no céu (as famosas indulgências.), e colocando o Papa como cabeça da igreja e substituto de Cristo. Qualquer pessoa que se opusesse a tais “verdades” era levada a julgamento pela inquisição, e muitas vezes condenados a morte.

Diante deste cenário Deus levantou grandes homens para batalhar pelas verdades bíblicas, e trazer a verdade à tona. Entre eles estavam Lutero, Calvino, Zwinglio e etc. Estes homens lutaram para romper com os falsos ensinos da igreja católica. Entre os quais eu queria destacar 5 deles, e como o livro de Hebreus os ajudou os reformadores a combaterem tais ensinos:

1. A igreja é a mediadora entre Deus e os homens.

2. A tradição e o papado tem tanta autoridade quanto as escrituras.

3. O Papa é o substituto de Cristo como cabeça da igreja.

4. Padres são sacerdotes a quem devemos nos confessar e ter nossos pecados perdoados.

5. A salvação vem pelo sacrifício de Cristo, mas juntamente com isto tem de vir o dízimo, as penitências e a participação em atividades eclesiásticas. Somente o sacrifico não salva.


No Séc. XXI a principal afronta ao Cristianismo não vem da Igreja católica, visto que tal já foi identificada como herética. E há uma separação entre as igrejas protestante e católica. Mas o maior inimigo, ao meu ver, do cristianismo nos nossos dias é um movimento que vem surgindo dentro das nossas igrejas, o chamado Neopentecostalismo.

Após 496 anos da reforma protestante muita coisa aconteceu dentro das igrejas frutos da reforma. Muitas divisões aconteceram, diferentes denominações surgiram por algumas divergências doutrinárias, mas toleráveis. Visto que por sermos limitados por nossa natureza pecaminosa, nunca chegaremos a unidade de pensamento, pois enquanto não formos redimidos por completo nunca chegaremos a conhecer a verdade de maneira plena.

Mas da década de 80 para cá, um movimento chamado de Neopentecostalismo vem crescendo significativamente no meio protestante. Esta SEITA (como eu gosto de nomeá-la...) traz ensinamentos que ferem em grande parte o que foi defendido pelos reformadores, levando mais uma vez a igreja a práticas muito parecidas com as que praticava na idade das trevas.

Os líderes desse movimento estão muito preocupados com a influência política da igreja, para satisfazerem seus interesses. Montam grandes impérios com o dinheiro que ganham dos fiéis. Com toda sua influência e oratória formam “crentes” a cada dia mais ignorantes em relação as escrituras, botando-as em segundo plano em seus púlpitos e reuniões.

Deste movimento queria destacar 5 pontos em que se assemelha a igreja católica:

1. As igrejas mais uma vez se tornam mediadoras entre Deus e os homens. Grandes líderes detém o poder de curas, milagres e outros tipos de poderes sobrenaturais. E as pessoas que quiserem ter acesso a esses benefícios tem de procurá-los.

2. Com o surgimento de novos “apóstolos”, vem novas revelações diretamente de Deus para esses homens. Que muitas vezes vão de encontro as escrituras sagradas.

3. Esses grandes apóstolos funcionam como os donos da verdade. O que é dito por eles é lei. Não se pode contestá-los pois são “ungidos do Senhor”. E quem vai de encontro a suas ideias são chamados de inimigos da fé. Alguns chegam a amaldiçoar seus perseguidores. (Qualquer semelhança com o papado não é mera coincidência).

4. As indulgências voltam, mas disfarçadas de ofertas, “dízimos”, objetos abençoados e etc. Todas essas coisas são vendidas aos fiéis com a promessa de alcançarem o favor de Deus.

5. Diminuem a figura de Cristo a ponto de colocar em dúvida a sua Divindade.

Agora, tomando como base o livro de Hebreus vou apresentar Biblicamente o quanto essas práticas estão equivocadas:

1. Os capítulos 5, 7 e 8 de Hebreus apontam para Cristo como mediador da nova aliança, apontando para ele como sumo-sacerdote da ordem de Melquisedeque. Que diferente dos sacerdotes comuns, não adentou no santo dos santos, mas sim na presença do próprio Deus nos céus. Sendo desta forma o mediador entre Deus e os homens. Somente nEle temos livre acesso a Deus.

2. O capítulo 1 de Hebreus trata de afirmar a revelação messiânica como sendo a última e superior revelação de Deus para nós. Superior as dos anjos e dos profetas. Sendo Cristo a chave hermenêutica para se interpretar toda a bíblia. E que qualquer revelação diferente da de Cristo deve ser descartada.

3. Porque Cristo precisaria de substituto? A igreja católica age como se Jesus tivesse morrido e continuado morto. E sendo assim precisa que alguém cumpra sua função. Mas a Bíblia afirma que Cristo ressuscitou, e que continua comandando sua igreja, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder. E diz noutro lugar: "Tu és sacerdote PARA SEMPRE, segundo a ordem de Melquisedeque". Hebreus 5:6

4. A bíblia nos diz que cristo é nosso advogado junto ao pai. Que nEle temos perdão de pecados. E que devemos nos confessar a Cristo, pois ele está a direita de Deus intercedendo por nós! (Hebreus 5,6 e 7)

5. A carta aos Hebreus nos ensina claramente que o sacrifício de Cristo foi único e suficiente, para nos redimir. Visto que os sacerdotes faziam sacrifícios uma vez ao ano, para redimir os seus pecados e os do povo. Cristo se ofereceu uma única vez por nós. Sendo ele mesmo entregue em sacrifício. O cordeiro puro, imaculado, unigênito de Deus com sua morte nos garante a vida eterna. (Hebreus 9 e 10).


É evidente o quanto foi importante o estudo do livro de Hebreus para se combater os falsos ensinos da Igreja católica da idade das trevas, e daí surgir o protestantismo, trazendo Cristo de volta pro Cristianismo. E ainda hoje ele serve muito bem para nos alertar sobre os ensinos heréticos atuais. Como se pode observar a muitas semelhanças entre as práticas da igreja anterior a reforma e as que estão sendo resgatadas pelo movimento Neopentecostal atual.

Não há nada de novo. A igreja já combateu esses ensinos uma vez. E por meio desse texto venho convocar a igreja para mais uma vez entrar na guerra pela verdade. Não deixemos Cristo e sua obra mais uma vez serem postos de lado dentro de nossas igrejas. Cristo é o DONO DA IGREJA. E tal só existe por que e Ele a edificou!

Para terminar esse texto deixo o alerta que o Autor de Hebreus fez aos Cristãos da época, que estavam querendo descartar Cristo e voltar ao judaísmo. Que serviu muito bem na reforma, e que serve para hoje, onde Cristo não tem lugar dentro de “nossas” igrejas. Deus requer a glória devida ao seu Filho, e todos nós um dia estaremos diante do Deus vivo para lhe prestar contas!

“Quão mais severo castigo, julgam vocês, merece aquele que pisou aos pés o Filho de Deus, que profanou o sangue da aliança pelo qual ele foi santificado, e insultou o Espírito da graça? Pois conhecemos aquele que disse: "A mim pertence a vingança; eu retribuirei"; e outra vez: "O Senhor julgará o seu povo". Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo!Hebreus 10:29-31



Guilherme Barros

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A Reforma Começa em Mim


Em outubro comemoramos 496 anos desde o início da Reforma Protestante. Sua força e influência chegam até os dias de hoje, encorajando diversas gerações a lutarem por uma igreja firmada na Palavra e centralidade de Cristo. Mas o que tem ficado para trás de verdade é a prática de tudo que essas doutrinas trazem. Você pode se perguntar o que você tem haver com a Reforma Protestante, ou porque querer ser um cristão reformado? Nas palavras de John D.Hannah*: “A reforma foi uma chamada ao cristianismo autêntico, uma tentativa de escapar da corrupção medieval da fé por meio de renovação e reforma”. Seus ensinos, que giravam em torna da repetição quíntupla da palavra sola (“somente”), eram uma mensagem radical para aquela época (e deveria ser para a nossa), porque exigiam um compromisso com um ponto de vista completamente teocêntrico da fé e da vida.”

Então como pensarmos em uma reforma, sem começarmos por nós mesmos?

·         Prática na Escritura:
Somente pela Escritura, e unicamente por ela, temos o padrão de prática, pois ela é útil “para a correção”, ou seja, ela revela qual é o comportamento e proceder errado - o que nós não devemos fazer - mas também aponta “para a instrução na justiça”, para a prática correta que devemos cultivar e crescer. Lembro-me de uma revista que foi estudada em nossa sala da EBD, a revista tem por nome: Teologia Reformada – Uma Visão Panorâmica. Lembro que a cada aula ficávamos mais deslumbrados do quanto a Bíblia tem sim o ensino para as diversas áreas da nossa vida, como trabalho, educação, casamento, criação dos filhos, e política, devemos seguir por meio dos seus mandamentos para que possamos cumprir o nosso papel de cristão no mundo.

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” (2 Timóteo 3.16-17).

·         Prática através de Cristo:
Somente em Cristo podemos nos espelhar, buscando a perfeita imagem do Deus Criador, assim como diz a Bíblia: “Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8.29). Fomos criados para buscar semelhança a Cristo, atributos como: paciência, paz, alegria, amor, domínio próprio, temperança, fidelidade, bondade, benignidade. Temos a demonstração de toda a vida de Cristo e de seus atributos nos Evangelhos, onde devemos buscar entender e orar a Deus para que possamos nos tornar cada dia mais parecidos com o nosso Salvador.

Somente em Cristo encontramos a Salvação, pois Ele satisfez a justiça de Deus mediante a morte de Cruz. “Se quando éramos inimigos de Deus fomos reconciliados com ele mediante a morte de seu Filho, quanto mais agora, tendo sido reconciliados, seremos salvos por sua vida!” (Romanos 5.10). Devemos entender que não há outra maneira, em nos achegarmos a Deus se não for mediante Cristo, pois Ele é o nosso Sumo Sacerdote, “Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus, o qual se entregou a si mesmo como resgate por todos.” (1 Timóteo 2.5-6a).

Devemos dia após dia buscar nos gloriar em Deus por meio do sacrífico de Cristo.

“Portanto, ninguém se glorie em homens; porque todas as coisas são de vocês, seja Paulo, seja Apolo, seja Pedro, sejam o mundo, a vida, a morte, o presente ou o futuro; tudo é de vocês, e vocês são de Cristo, e Cristo de Deus.” (1 Coríntios 3.21-23).

·         Prática na Graça:
Somente pela graça, e unicamente por ela, é que somos abençoados por Deus. A graça é o favor imerecido de Deus às suas criaturas, se não fosse a Graça não seríamos salvos.

“Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida com Cristo quando ainda estávamos mortos em transgressões - pela graça vocês são salvos.” (Efésios 2.4-5).

Joel Beeke* em seu livro Vivendo para a Glória de Deus nos diz o seguinte: “Ao usarmos a expressão graça gratuita e soberana, estamos dizendo que o supremo Deus do céu e da terra – o Deus trino e soberano da salvação – deseja, espontaneamente, e aplica graça salvadora a pecadores culpados e desprezíveis, transformando suas vidas de tal modo que se regozijem e vivam para servi-lo.”.

Viver pela graça, colocar em prática o conceito de Graça Soberana de Deus em nossa vida é entender que não podemos fazer nada sozinhos, é entender que existe um Deus fiel em Si mesmo, poderoso, soberano e guardador daqueles que nEle confiam e seguem seus mandamentos. Entender a Graça é estar diante da minha falta de capacidade de me salvar, de buscar coisas boas sozinhos. A Graça é um princípio Divino para nos chamar, nos regenerar, nos santificar e nos fazer perseverar até o fim.

“Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus;” (Efésios 2.8).

·         Prática na fé:

Diante da nossa impotência e incompetência, não podemos confiar em nossa
carne, em nosso esforço e sim unicamente na obra de Cristo na cruz. A fé é a atitude de total confiança no que as Escrituras declaram a respeito de Cristo e sua Obra.

“Porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé, como está escrito: ‘O justo viverá pela fé’.” (Romanos 1.17). A Sagradas Escrituras nos dizem: “o justo viverá pela fé”, não viveremos de outra maneira a não ser pela fé, fé essa que implica em nossa total confiança e dependência em Deus e em seus propósitos. A fé nos faz comprometer com toda a obra de Cristo em saber que Ele morreu por nossos pecados e que fomos justificados mediante esse fato.

“A fé se apropria de Cristo e de sua justiça, unindo o pecador com o Salvador. A fé recebe a Cristo, com confiança, apegando-se à Palavra dEle e crendo em suas promessas.” (Joel Beeke).


·         A prática no Viver para a Glória de Deus:

Somente para Deus a glória, e unicamente para Ele. A Igreja existe para a demonstração deste valor: o valor que Ele tem.
A glória de Deus é a demonstração de todos os seus atributos, essa Glória deve ser demonstrada em nossa vida. Quando penso em nossa vida penso em tudo em que fomos fazer devemos fazer para Glória de Deus. “Assim, quer vocês comam, quer bebam, quer façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus.” (1 Coríntios 10.31).
Quando o cristão passa a entender o que é Viver para a Glória de Deus, ele passa a entender o quão cuidadoso e amoroso deve ser em seus princípios e virtudes. Um autor conhecido diz que cada vez mais que damos glória a Deus nos aproximamos mais dEle. Viver para Sua Glória não é simplesmente seguir seus mandamentos descritos nas Sagradas Escrituras, mas é entender que devemos fazer isso como um deleite, com um prazer inexplicável, pois o objetivo principal da vida do homem é glorificar o nome de Deus.

“Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre! Amém.” (Romanos 11.36).


Como falei no início do texto, não tive o objetivo de trazer um manual de como ser um reformado, mas sim de nos fazer entender e refletir que esses ensinos que a Reforma Protestante não serão nada se não os colocarmos em nossa prática diária, se não vivermos isso de verdade em nossa vida. Precisamos entender que a Reforma começa em cada um de nós, é quando estamos nas Sagradas Escrituras deixando-a ser nossa única regra de fé e prática. De forma que pensamos em Cristo como nosso único Salvador e Mediador diante de Deus, O único que devemos buscar ser imagem e semelhança. É quando sabemos em nosso coração que somos salvos somente pela graça misericordiosa de Deus quando Cristo se fez justiça por nós. Quando compreendemos que é pela fé que vivemos, fé em Deus e na Sua Palavra, fé no sacrifício de Cristo e fé nos propósitos divinos. E por último que nosso coração e querer devem estar somente em dar glória a Deus em tudo, entendendo que cada vez mais que nos deleitamos nEle mais Ele será glorificado em nós. Que Deus nos conduza em Sua Santa Vontade. Amém.




LARYSSA LOBO
https://www.facebook.com/laryslobo


*John D. Hannah - To God be the Glory

*Joel Beeke – Vivendo para a Glória de Deus