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terça-feira, 21 de abril de 2015

A falta de confessionalidade como razão do caos teológico contemporâneo



Organizar a fé em sistematizações ou resumi-la em credos não é algo somente dos séculos XVI em diante, os judeus usavam a Shema (duas primeiras seções da Torá) para professar a sua fé (exemplo encontrado em Deuteronômio 6:4-9). As varias declarações de fé encontradas no Novo Testamento (João 4:42 , 6:14, 6:69) além do Credo Apostólico datado dos primeiros séculos da igreja cristã que tinha função pedagógica para o batismo dos novos na fé e para combater as heresias da época.
Após o marco da Reforma Protestante, em 31 de Outubro de 1517, o cristianismo teria a sua principal divisão em função dos abusos encontrados em diversos pontos da doutrina da Igreja Católica Romana e embora Lutero inicialmente não tivesse a intenção se fundar uma nova religião, mas sim purificar a igreja de tais desvios e para que ficassem claras as intenções de Lutero, as 95 teses constituíam a exposição publica e escrita dos desvios. Contudo, a resposta protestante aos abusos da ICAR gradualmente foram copilados nos Cinco Solas e também no moto Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est. Posteriormente as confissões de fé Belga (1561), Catecismo de Heidenberg (1563), Segunda Confissão Helvética (1566), Cânones de Dort (1618-1619), Confissão de Fé de Westminster (1647) e seus Catecismos Maior e Menor (1648).
Augustus Nicodemus fala que comumente alguns dos lemas reformados são usados e entendidos de maneira diferente em nossos dias, por exemplo o moto Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est (A Igreja é reformada e está sempre se reformando). Nicodemus diz que o holandês calvinista Gisbertus Voetius (1589-1676), que escreveu tal moto na época do Sinodo de Dort, dificilmente estava se referindo a ‘igreja estar sempre mudando’, de forma que a voz passiva do “Ecclesia Reformata” lembra que o agente da reforma não é a igreja, mas sim o Espírito Santo, que leva os cristãos às Escrituras, entendendo que a verdade não muda [1] . Mas em nossos dias não é bem assim que acontece. Evocando para si a justificativa de que a igreja “está sempre se reformando”, as mais variadas aberrações entraram na igreja com a interpretação errônea que isto significava novas interpretações que não tem nenhum comprometimento com as Escrituras.
Toda falsa doutrina tem como principal argumento o recebimento de novas revelações da parte de Deus, ou seja, começam então a negar o Só a Escritura e assim ao contrário do que pensam ser o progresso da igreja, voltam as práticas da ICAR e regressam a uma situação de obscuridade da qual contrasta fortemente com a iluminação do Verdadeiro Espírito que nos chama a Palavra e somente a ela. A falta de apego confessional deságua na livre interpretação pessoal dos textos bíblicos e não na livre consulta (CFW cap. 1. V), porém é necessário não menosprezar a história da Igreja, onde os Pais da Igreja se esmeraram para explicar passagens e fundamentar a fé cristã, inclusive não rejeitando a doutrina apostólica, mas se apoiando nela.
É obvio que a subscrever uma confissão não é incoerente, a Bíblia é infalível, as confissões não. A autoridade das confissões é vinda da própria Bíblia, por isso ser confessional significa entender que tal confissão é a interpretação mais harmoniosa do Sagrado Texto e isto não coloca a confissão acima das Escrituras nem deixa de lado o lema Só a Escritura. Joel Beeke cita que os primeiros reformadores reconheciam o serviço que as confissões prestavam à igreja na adoração (tarefa doxológica), o testemunho (tarefa proclamadora), o ensino (tarefa didática) e a defesa da fé (a tarefa disciplinadora), ou seja, nas confissões a igreja declara no que ela crê [2].
Sérios desvios doutrinários como o arminianismo, adventismo, mormonismo, liberalismo, neopentecostalismo e etc. tem aparecido pela falta de apego às confissões reformadas. Os Cânones de Dort, por exemplo, foram os cinco artigos escrito contra os seguidores dos ensinos de Armínio. Eles foram elaborados em 154 sessões durante sete meses, rejeitado os ensinos dos remonstrantes. Uma volta no arminianismo, em função do pentecostalismo, não teria ocorrido se fosse levado em conta o trabalho do Sínodo de Dort. Talvez fosse possível evitar a força que neopentecostalismo tem desde Charles Finney. Não obstante Ellen G. White não teria influenciado com seus escritos a volta às praticas da lei cerimonial e civil de Israel por parte do adventismo, quem sabe Joseph Smith Jr tivesse suas duvidas sanadas antes das mesmas o levar a fundar a religião mórmon ou mais talvez ainda mais importante nos nossos dias, o liberalismo teológico fosse apenas uma clara blasfêmia contra Deus.
Claramente o abandono das confissões da época da reforma constitui um perigo que nos fez chegar até o atual quadro de caos no meio evangélico. Somos filhos de um retorno efetivo às Escrituras, principalmente com Lutero e Calvino, mas claramente a ausência literal ou funcional do apego as confissões reformadas como o trabalho da vida dos reformadores e dos Pais da Igreja, nos tem feito perceber a necessidade da ‘igreja ser reformada e sempre se reformar’. Não nesse sentido em que a Palavra é diluída nos achismos das seitas, mas no sentido de volta às Escrituras guiada pelo Espírito Santo.
É importante frisar que não se trata de tornar qualquer confissão um ídolo, mas sim tentar abandonar o ídolo da interpretação particular das escrituras, ou seja, o ídolo do “eu”. Não há duvidas que o espírito deste século tem usado de estratégias que se valem do argumento da comparação das confissões com a tradição romana, para diminuir obra do Espírito ao longo da história da igreja. Confissão alguma tem caráter igual ou superior às Escrituras, inclusive as próprias confissões claramente expressam a inerrância bíblica, algo que tanto a tradição católica nega (igualando-se a Palavra) quanto os líderes carismáticos que negam efetivamente com suas novas revelações e interpretações, a autoridade bíblica.
Um cristianismo confessional sem dúvida expõe mais do que um credo aos de fora da comunhão, o cristianismo confessional tem contribuído para que os próprios cristãos sejam mais conhecedores da Palavra e não sejam levados por qualquer vento de doutrina que se proliferam aos montes à medida que a volta de Cristo se aproxima. Que Deus nos dê a graça de poder encontrar na Sua Palavra a verdadeira espada do Espírito!


[2] BEEKE, Joel R. Vivendo para a glória de Deus. Capítulo 2: pág. 35. Editora Fiel, 2010.


Felipe Medeiros

felipealexandremedeiros@outlook.com

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A Trindade e a Vida Cristã

A trindade, embora uma doutrina cardinal do cristianismo, às vezes não recebe a devida atenção. Isso se dá mesmo por parte daqueles que reconhecem a importância e a necessidade de sermos trinitarianos, de abraçarmos a fé num Deus que é um em substância e essência, mas três em Pessoa: Pai, Filho e Espírito Santo. A experiência de Sam Alberry, infelizmente, não é coisa rara:
Quando jovem cristão, eu tinha um entendimento básico que, oficialmente, Deus era uma Trindade. Mas não oficialmente, isso quase não fazia diferença na minha vida cristã. Eu orava a Deus. Sabia que Jesus tinha morrido por meus pecados. Eu lia a Bíblia e tentava viver a vida de uma maneira que agradasse ao meu Pai celestial. Nunca me ocorreu ir além disso. A doutrina da Trindade estava cuidadosamente arquivada na gaveta de “Coisas que todos os bons cristãos creem” e, então, nunca mais revista.[1]
Gostamos de enfatizar a importância da justificação pela fé. Alegamos, seguindo Lutero e tantos outros, que ela é a doutrina pela qual a Igreja cai ou fica de pé. Embora reconheçamos a importância da bendita verdade de que somos justificados unicamente por causa de Cristo, por termos fé nele, como nosso Salvador e Substituto, há algo ainda mais fundamental. É a doutrina de Deus.
Se não conhecermos o Deus verdadeiro, que se revela na sua Palavra de maneira infalível, qualquer outro conhecimento será deturpado e carente de significado. Antes de conhecermos a obra da salvação, devemos conhecer o Deus que nos salva. Assim, creio que Bavinck coloca a questão de uma forma mais bíblica:
A doutrina da Trindade é de importância incalculável para a religião cristã. Todo o sistema cristão de crença, toda a revelação especial fica de pé ou cai com a confissão da doutrina da Trindade. Ela é o núcleo da fé cristã, a raiz de todos os seus dogmas, o conteúdo básico da nova aliança.[2]
Sim, devemos conhecer o Deus que se revela. E ele, ao se autorrevelar, nos informa que é uma Trindade. A partir do que encontramos na Bíblia, a autorrevelação de Deus, podemos dizer que o ensino bíblico sobre a Trindade abrange quatro afirmações essenciais:
  1. Há um e somente um Deus vivo e verdadeiro;
  2. Este único Deus existe eternamente em três pessoas — Deus o Pai, Deus o Filho e Deus o Espírito Santo;
  3. Essas três pessoas são completamente iguais em atributos, cada uma com a mesma natureza divina;
  4. Embora cada pessoa seja plena e completamente Deus, as pessoas não são idênticas.
As diferenças entre Pai, Filho e Espírito Santo estão fundamentadas na forma como eles se relacionam um com o outro e o papel que cada um desempenha ao realizar o propósito divino.
A unidade da natureza e a distinção de pessoas da Trindade podem ser ilustradas nas seguintes afirmações adicionais:
  • O Pai é Deus;
  • O Pai não é o Filho;
  • O Pai não é o Espírito Santo;
  • O Filho é Deus;
  • O Filho não é o Pai;
  • O Filho não é o Espírito Santo;
  • O Espírito Santo é Deus;
  • O Espírito Santo não é o Pai;
  • O Espírito Santo não é o Filho.
Ao longo da história da Igreja cristã, diversos credos, confissões e catecismos tentaram resumir e apresentar as principais doutrinas do cristianismo. Como era de se esperar, os documentos que se mantiveram fieis à Escritura apresentam a doutrina da Trindade de maneira clara. Aqui, vale citar as três perguntas e respostas do Breve Catecismo de Westminster:
Pergunta 4. O que Deus é?
Resposta: Deus é espírito, infinito, eterno e imutável em seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade.
Pergunta 5. Há mais de um Deus?
Resposta: Há um só Deus, o Deus vivo e verdadeiro.
Pergunta 6. Quantas pessoas há na Divindade?
Resposta: Há três pessoas na Divindade: O Pai, o Filho e o Espírito Santo, e estas três pessoas são um Deus, da mesma substância, iguais em poder e glória.
Devemos deixar claro que o ensino sobre a Trindade não é uma verdade descoberta pelo homem, mas revelada por Deus. E trata-se de uma revelação especial, disponível apenas na Escritura Sagrada. Deus se revela na criação também, mas inúmeras verdades só são encontradas na Bíblia. A Trindade é uma delas, ao lado das duas naturezas de Cristo e tantas outras doutrinas gloriosas. Contemplar o céu e as demais obras da criação podem me apontar para a existência de um Criador, de um Deus, mas não para a existência de um Deus que subsiste em três Pessoas. É por isso que o Evangelho deve ser pregado, pois somente nele temos a revelação plena e salvífica de Deus. Sim, ninguém será salvo sem conhecer a Trindade.
O objetivo deste artigo é analisar como a doutrina da Trindade se relaciona com a vida cristã. Antes disso, veremos alguns erros a se evitar.

A Trindade e alguns erros comuns

Durante toda a história da Igreja, muitos tentaram simplificar a doutrina da Trindade, torná-la mais “palatável”, mais fácil de crer. Mas ao fazê-lo, eles acabaram não representando o que a Escritura ensina verdadeiramente, e terminaram com uma doutrina da Trindade bem diferente da doutrina bíblica.
Os erros mais comuns, que ainda persistem em nossos dias, são os seguintes: triteísmo, monarquismo e modalismo.
triteísmo ignora a afirmação bíblica recorrente de que Deus é um. Essa heresia afirma que há três deuses, que são do mesmo tipo e, todavia, distintos e separados um do outro. Devemos cuidar para que não sejamos triteístas quando pensamos sobre Deus, mesmo que não verbalizemos isso. O alerta é oportuno, pois alguns cristãos tendem a pensar em “Deus mais em trindade do que unidade.[3] Eles pensam nele mais facilmente como Três do que como Um-em-Três ou Três-em-Um”.[4] Note que o triteísmo é uma forma de politeísmo.
monarquismo é o erro daqueles que não reconhecem a igualdade das Pessoas da Trindade. Alguns pensam que o Filho é menos Deus que o Pai, e o Espírito Santo menos Deus que o Filho. Ou pensam que há uma subordinação ontológica das Pessoas. É verdade que na economia da salvação há uma subordinação do Filho ao Pai, e do Espírito ao Filho e ao Pai. Mas isso não está ligado à essência das Pessoas, pois os três são Deus. Trata-se do cumprimento do Pacto, do Acordo feito entre as três Pessoas. O Filho deliberadamente aceitou ser subordinado ao Pai para resgatar o seu povo, e o Espírito aceitou ser subordinado ao Filho e ao Pai para aplicar a salvação adquirida pelo Filho.
Por último, o modalismo é a heresia de que não existem três Pessoas na Trindade. Há um Deus, que é apenas uma Pessoa, mas que se revela de diversos modos (daí o nome modalismo). Portanto, existem vários modos, diversas maneiras de Deus se revelar à humanidade. Em tempos diferentes, ele se revela como Pai, como Filho e então como Espírito Santo.[5]
Tendo visto rapidamente alguns erros comuns sobre a doutrina da Trindade, vejamos a relevância dessa verdade para a vida cristã.

A Trindade e o Fim Principal do Homem

Nenhum cristão verdadeiro ousaria dizer que o ensino sobre Deus é irrelevante, ou de pouca praticidade. Longe disso! Aquele que foi salvo deseja conhecer mais e mais o Deus que o salvou.
Para o cristão reformado[6], a primazia do conhecimento de Deus é ainda mais nítida. Afinal, oBreve Catecismo de Westminster, um dos belos e antigos símbolos de fé da tradição reformada, começa com a seguinte pergunta: Qual é o fim principal do homem?
A resposta, que mesmo as crianças da família da aliança conhecem,[7] não poderia ser mais bela e bíblica:
O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre.[8]
Embora a necessidade e obrigação de conhecermos e prosseguirmos em conhecer a Deus (Oseias 6.3) seja uma verdade abraçada e afirmada com vigor pelos cristãos, o mesmo não acontece com a Trindade. Muitos consideram a Trindade uma doutrina obscura, estranha, difícil demais para merecer a nossa atenção. Uma doutrina que não pode ser negada, mas que deve ser deixada de lado; afinal, é mais seguro, a fim de evitarmos alguma heresia ao lidar com tão “perigosa” doutrina.
Além disso, não poucos lutam e não conseguem encontrar alguma praticidade na doutrina de que Deus existe em três Pessoas distintas e igualmente gloriosas.
A ideia subjacente a esse pensamento é que ensinar sobre a Trindade não é diferente de ensinar sobre Deus. Contudo, o Deus que existe é uma Trindade. Se em nosso forço diário para conhecermos a Deus não buscarmos conhecer o Deus que é uma Trindade, estaremos atrás de um falso deus, um deus criado pela nossa imaginação pecaminosa.
Em outras palavras, se haveremos de cumprir o nosso fim principal, devemos necessariamente aprender sobre a Trindade. Nada pode ter mais relevância prática do que a doutrina sobre Deus, e o Deus que existe é uma Trindade.
Conhecer a Deus, conhecer como ele realmente é, conhecê-lo como revelado na Bíblia, é conhecê-lo como o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

A Trindade e a Salvação

Quando as pessoas são salvas, geralmente elas não percebem que algo trinitariano lhes aconteceu. Mas “algo trinitariano” é precisamente o que aconteceu na salvação: todo aquele que é salvo foi trazido pelo Pai (Jo 6.44) e levado pelo Espírito a confessar que Jesus é Senhor (1Co 12.3).
O Evangelho nos dá tremendo discernimento sobre a Trindade, pois no Evangelho vemos o Pai enviando o Filho, revestido de poder pelo Espírito Santo, para receber a ira do Pai e nos colocar em eterna comunhão com Deus.
Voltando à alegação, por parte de alguns, que a Trindade é irrelevante, ou no mínimo uma doutrina “opcional”. Ora, nenhum cristão argumentaria que o Evangelho é opcional. Afinal, o Evangelho é o poder de Deus, para salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16). Todavia, o Evangelho é uma realidade trinitariana. O Evangelho torna-se ininteligível sem um conceito das Pessoas distintas de Deus.
Em 1 João 4.14, por exemplo, lemos que “o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo”. Este simples versículo abre os nossos olhos para as pessoas da Trindade trabalhando em prol da nossa salvação.
A Trindade é indispensável para entendermos o Evangelho. Sem ela, “todo o plano da redenção fica em pedaços”[9].

A Trindade e a Oração

A falta do entendimento da Trindade é muitas vezes revelada na forma como oramos. Não poucas vezes as pessoas da Trindade são confundidas nas orações do povo de Deus.
― Ó Pai, Deus de amor, te agradecemos por ter morrido em nosso lugar.
Essa é, infelizmente, uma oração comum, mas revela um erro grosseiro por não distinguir as Pessoas da Trindade. Somente o Filho encarnou e somente o Filho morreu em favor do seu povo. O Pai, nem o Espírito fez isso.[10]
A nossa oração é, ou ao menos deveria ser trinitariana. O nosso Senhor ensinou claramente que devemos orar ao Pai (Lucas 11.2), em nome de Jesus (isto é, por causa dos seus méritos), e no poder do Espírito Santo.
“Orando no Espírito Santo” (Judas 20), é o que devemos fazer. É ele, a Terceira Pessoa da Trindade, quem desperta em nós o desejo de orar, e quem intercede por nós, pois não sabemos orar como convém. É Paulo quem nos ensina isso claramente:
Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. (Romanos 8.26)
Todas as três pessoas da Trindade estão presentes na verdadeira oração. Dirigimo-nos ao Pai, o Filho conseguiu esse livre acesso, e o Espírito nos capacita e nos auxilia neste santo dever.

 A Trindade e a Adoração

O verdadeiro culto cristão é trinitariano. É algo inescapável. Deixe-me explicar.
Gosto como Tim Chester coloca isso:
Nossa adoração é inevitavelmente trinitariana. O Pai e o Filho se deleitam um no outro, na alegria do Espírito e juntos participamos desse deleite (Lucas 10.21-22).[11]Mas frequentemente perdemos a percepção disso quando não é algo explícito na forma como moldamos a nossa adoração. Mas a Trindade impacta nossa adoração (quer percebamos ou não)! Mesmo quando nossa adoração é fraca e desfigurada pelo pecado, o Espírito nos conecta a Cristo nosso Sacerdote, que nos representa diante do Pai na congregação celestial (Hb 2.11-13).[12]
Em outras palavras, a verdade da Trindade deveria estar explícita em nosso culto comunitário: nas orações, nos hinos e, sobretudo, na pregação. Contudo, mesmo quando isso não acontece, o culto ainda é trinitariano. O motivo é belo e enche o coração de alegria: a Trindade está trabalhando para nos perdoar e tornar o nosso culto aceitável.
Todavia, isso não é escusa para não trabalharmos em busca de um culto cada vez mais trinitariano. A nossa liturgia deve ser evidentemente triúna, e não apenas os ministros do Evangelho, mas toda a congregação deve ser capaz de explicar o motivo de ser assim.

A Trindade e “Deus como Amor”

Em 1 João 4.8, lemos que “Deus é amor”. Mesmo crianças podem entender que o amor exige a existência de mais de uma pessoa. Assim, se Deus é amor, entendemos que Deus é tanto o amante como o amado.
Mas se Deus não fosse uma Trindade, ele não poderia ser amor. Ele existiria durante uma eternidade “passada”,[13] isto é, antes de ter criado, sozinho, sem amar e sem ser amado.
A ideia de que Deus precisa de nós, de que ele precisava criar, é uma ideia de quem não entendeu a Trindade. Deus não estava sozinho, não estava em busca de alguém para amar ou por quem ser amado. Ele já amava e era amado antes da fundação do mundo. Vejamos:
Portanto, a criação não é Deus em busca de amor, mas Deus derramando o seu amor, jorrando o seu amor. O fato de ele nos criar, mesmo sem precisar, nos revela o seu amor. Se ele não estava carente de companhia (e de fato não estava!), se não necessitava da criação (longe disso!), e mesmo assim decidiu ir adiante e criar, só podemos exclamar: quão grande é esse amor!

Uma Palavra de Cautela

Não precisamos e não devemos simplificar o conceito da Trindade. Mas permitir que a explicação da Trindade seja complexa não significa entrar em todos os detalhes da Trindade econômica, muito menos nas noções especulativas a partir dos debates acadêmicos.
A Trindade não é um mistério, pois está revelada na Escritura.[14] Trata-se de uma verdade que Deus nos apresentou em sua Palavra inspirada, inerrante e infalível. Por outro lado, ela é um mistério[15] no sentido de não sabermos diversas coisas; na Escritura, não nos foi revelado tudo acerca da existência de Deus como uma Trindade. Não há uma descrição detalhada e exaustiva de como a Trindade “funciona”.
Portanto, devemos lidar apenas com aquilo que a Escritura nos revela acerca do Deus que existe, do Deus que é uma Trindade. Não nos é lícito especular sobre inúmeras verdades, muito menos a verdade sobre Deus. E mais: não apenas não sabemos tudo sobre Deus, mas não podemos, e nunca poderemos saber! Eu explico:
As Pessoas da Trindade são plenamente conhecidas apenas uma pelas outras. Deus é um ser Infinito e nós, seres finitos, não podemos saber tudo o que é possível saber sobre ele. Digo possível, pois, como já dissemos, trata-se de algo possível e factual entre as Pessoas da Trindade. Jesus diz em Mateus 11.27:
Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho…
É verdade que ao final Jesus diz: “e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. Mas não se trata de uma revelação completa. Esta não é uma interpretação forçada, pois é corroborada por outras passagens, dentre elas 1 Coríntios 2.11:
Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele está? Assim, também as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus.
O Pai conhece o Filho, o Filho conhece o Pai e ambos conhecem e são conhecidos pelo Espírito de uma forma que nunca estará acessível a nós, criaturas. A distinção Criador-criatura é instransponível. Alguns reconhecem isso, mas acham que a distinção e a limitação de conhecimento serão eliminadas no céu, após sermos glorificados. É claro que teremos um conhecimento mais claro e abrangente de quem Deus é, mas ainda será um conhecimento muitíssimo limitado. Afinal, seremos glorificados, mas não deixaremos de ser criaturas.
Este é o nosso Deus. Prostremo-nos diante dele.
FELIPE SABINO

[1] Sam Allberry, Connected: Living in the light of the Trinity (Nottingham: IVP, 2012), p. 13.
[2] Herman Bavinck, Dogmática Reformada — Deus e a Criação, Volume 2 (São Paulo: Cultura Cristã, 2012), p. 341. Ênfase adicionada.
[3] Ou seja, embora usemos o termo Trindade, devemos pensar em Deus como triunidade, como um Deus triúno. Há unidade na pluralidade!
[4] Stuart Olyott, What the Bible Teaches about The Trinity (Darlington, England: EP Books, 2011), 88.
[5] A tentativa de explicar a Trindade como a água em seus três estados (líquido, gasoso e sólido) é claramente uma visão modalista. Vale lembrar que qualquer analogia para a Trindade é inapropriada, pois não se trata de uma realidade presente e descoberta na criação. Conhecemos a Trindade somente mediante revelação proposicional do Criador, em sua Palavra.
[6] Ou seja, que creem naquilo que é comumente chamado de Teologia Reformada. Para os não familiarizados com a Teologia Reformada, recomendo as seguintes leituras: O que é teologia reformada, de R. C. Sproul; Calvinismo, de Abraham Kuyper; Vivendo para a glória de Deus, de Joel Beeke.
[7] Na verdade, o Breve Catecismo de Westminster, embora usado em nossos dias para instrução de adultos, foi criado para o ensino das crianças.
[8] Ou, como sugerem alguns amigos, “deleitar-se nele para sempre”.
[9] Stuart Olyott, What the Bible Teaches about The Trinity (Darlington, England: EP Books, 2011), 98.
[10] É claro, muitos dos que oram assim o fazem por ignorância, sem perceberem o que estão fazendo. Aliás, não poucos soltam essas “pérolas” devido ao nervosismo quando oram em público. A despeito da não intencionalidade desses cristãos, orar dessa maneira é afirmar a heresia do modalismo.
[11] Naquela hora, exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém sabe quem é o Filho, senão o Pai; e também ninguém sabe quem é o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. (Lucas 10.21-22)
[12] Credo Magazine, Abril 2013, p. 18.

[13] Como Deus criou o próprio tempo, não existe uma eternidade passada.
[14] Diferente do uso popular do termo, mesmo por grandes teólogos, mistério não é algo desconhecido, algo nebuloso, muito menos um conhecimento místico. Antes, é um conhecimento que estava oculto, que era desconhecido, mas foi posteriormente revelado por Deus. O termo é muito usado pelo apóstolo Paulo e pode ser visto em diversas passagens, das quais citamos três: “Mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória” (1 Coríntios 2.7);   “Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos” (1 Coríntios 15.51); “O mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos” (Colossenses 1.26).
[15] Não há contradição aqui. Estou simplesmente dizendo que sabemos alguma coisa, mas não tudo (longe disso!).

FONTE ORIGINAL: https://www.facebook.com/l.php?u=http%3A%2F%2Freforma21.org%2Fartigos%2Fa-trindade-e-a-vida-crista.html&h=vAQGg0k2v

Intercâmbio feito por Lídia Santos

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Fé ou Arrependimento: o que vem Primeiro?

Quando o evangelho é proclamado, à primeira vista parece que duas diferentes respostas, até mesmo alternativas, são necessárias. Às vezes o chamado é “Arrependa-se!”. Assim, “apareceu João Batista pregando no deserto da Judéia e dizia: ‘Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus’” (Mt 3.1-2). Novamente, Pedro insta com os ouvintes cujas consciências foram abertas no dia do Pentecoste: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo” (At 2.38). Mais tarde, Paulo insta com os atenienses para se arrependerem em resposta à mensagem do Cristo ressurreto (At 17.30).
Ainda assim, em outras ocasiões, a resposta apropriada ao evangelho é: “Creia!”. Quando o carcereiro filipense perguntou a Paulo o que ele deveria fazer para ser salvo, o apóstolo disse a ele: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo” (At 16.31).
Mas não há mistério ou contradição aqui. Mais adiante em Atos 17, descobrimos que precisamente onde a resposta do arrependimento era necessária, aqueles que foram convertidos são descritos como crentes (At 17.30, 34).
Qualquer confusão é certamente resolvida pelo fato de que quando Jesus pregou “o evangelho de Deus” na Galiléia, ele instou aos seus ouvintes: “O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1.15). Aqui o arrependimento e a fé estão unidos. Eles denotam dois aspectos na conversão que são igualmente essenciais. Assim, cada termo sugere a presença do outro, pois cada realidade (arrependimento ou fé) é sine qua non da outra.
Em termos gramaticais, portanto, as palavras arrepender crer funcionam como uma sinédoque — uma figura de linguagem na qual uma parte é usada para referir-se ao todo. Portanto, arrependimento sugere fé e fé sugere arrependimento. Um não pode existir sem o outro.
Mas, logicamente, o que vem primeiro? O arrependimento? A fé? Ou nenhum possui uma prioridade absoluta? Houve prolongados debates no pensamento reformado sobre isso. Cada uma das três possíveis respostas têm seus defensores:
Primeiro, W.G.T. Shedd insistiu que a fé deve preceder o arrependimento seguindo a ordem de natureza: “Embora a fé e o arrependimento sejam inseparáveis e simultâneos, ainda assim, em ordem de natureza, a fé precede o arrependimento” (Dogmatic Theology, 2.536). Shedd argumentou isso alegando que o poder motivador para o arrependimento reside na compreensão da fé da misericórdia de Deus. Se o arrependimento precedesse a fé, tanto o arrependimento quanto a fé seriam legais em caráter, e se tornariam pré-requisitos para a graça.
Segundo, Louis Berkhof parece ter tomado a posição contrária: “Não há dúvida de que, logicamente, o arrependimento e o conhecimento do pecado precedem a fé que se entrega a Cristo em amor confiante” (Systematic Theology, p. 492).
Terceiro, John Murray insistiu que essa questão levanta:
... uma pergunta desnecessária e a insistência fútil de que uma precede à outra. Não há prioridade. A fé que é para a salvação é uma fé penitente, e o arrependimento que é para a vida é um arrependimento crente [...] fé salvífica é permeada de arrependimento, e arrependimento é permeado de fé salvífica. (Redemption — Accomplished and Applied, p. 113).
Essa é, certamente, a perspectiva mais bíblica. Não podemos separar o desviar-se do pecado em arrependimento e o converter-se a Cristo em fé. Ambos descrevem a mesma pessoa na mesma ação, mas a partir de perspectivas diferentes. Sob um ângulo (arrependimento), a pessoa é vista em relação ao pecado; de outro (fé), a pessoa é vista em relação ao Senhor Jesus. Mas o indivíduo que simultaneamente confia em Cristo se desvia do pecado. Ao crer, ele se arrepende, e ao arrepender-se, ele crê. Talvez R. L. Dabney expresse isso melhor quando ele diz que arrependimento e fé são graças “gêmeas” (talvez possamos dizer “gêmeas siamesas”).
Mas tendo dito isso, de maneira nenhuma dissemos tudo o que há para se dizer. Entrelaçada com qualquer teologia da conversão repousa uma psicologia da conversão. Em qualquer indivíduo, ao nível da consciência, pode predominar um senso de arrependimento ou de confiança. O que é unificado teologicamente pode ser psicologicamente diverso. Assim, um indivíduo profundamente convencido da culpa e da escravidão do pecado pode experimentar o desviar-se dele (arrependimento) como uma marca predominante em sua conversão. Outros (cuja experiência de convencimento se aprofunda após a conversão) podem ter um senso predominante da maravilha do amor de Cristo, com menos agonia na alma no nível psicológico. Aqui o indivíduo está mais consciente da confiança em Cristo do que do arrependimento do pecado. Mas na verdadeira conversão, um não pode existir sem o outro.
Os pontos psicológicos que acompanham a conversão assim variam, dependendo às vezes da ênfase predominante do evangelho que é exposta ao pecador (a perversidade do pecado ou a grandeza da graça). Isso é bastante coerente com o perspicaz comentário dos Teólogos de Westminster sobre o fato de que a fé (isto é, a resposta confiante do indivíduo à palavra do evangelho) “age em conformidade com aquilo que cada passagem [da Escritura] contém em particular” (CFW 14.2)1.
De maneira nenhuma, entretanto, a real conversão pode acontecer à parte da presença tanto do arrependimento quanto da fé, e, portanto, da alegria e da tristeza. Uma “conversão” em que não há tristeza pelo pecado, que recebe a palavra apenas com alegria, será temporária.
A parábola de Jesus sobre o semeador é instrutiva aqui. Em um tipo de solo, a semente brota rapidamente, mas morre repentinamente. Isso representa os “convertidos” que recebem a palavra com alegria — mas com nenhum senso de estar sendo arado pela convicção do pecado ou qualquer dor no desviar-se do mesmo (Mc 4.5-6, 16-17). Por outro lado, uma conversão que é apenas tristeza pelo pecado, sem nenhuma alegria pelo perdão, provará ser apenas “tristeza do mundo” que “produz morte” (2Co 7.10). No fim, não dará em nada.
Isso, contudo, levanta a última questão: a necessidade do arrependimento na conversão  constitui um tipo de obra que vai contra a fé sem obras? Ela compromete a graça?
Em uma palavra, não. Pecadores devem sempre achegar-se de mãos vazias. Mas esse é justamente o ponto. Por natureza, minhas mãos estão cheias (de pecado, do ego e das minhas próprias “boas obras”). Contudo, mãos que estão cheias não conseguem agarrar-se a Cristo em fé. Ao invés disso, quando elas agarram nele, elas são esvaziadas. Aquilo que nos impedia de confiar nele, inevitavelmente cai no chão. O velho estilo de vida não pode ser retido nas mãos que estão agarrando o Salvador.
Sim, arrependimento e fé são dois elementos essenciais na conversão. São graças gêmeas que não podem ser separadas. Como João Calvino bem nos lembra, isso é verdadeiro não apenas no início, mas durante toda a nossa vida cristã. Nós somos crentes penitentes e penitentes crentes durante todo o caminho em direção à glória.
Tradução: Alan Cristie


Intercâmbio feito por: Yasminn Agra

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Uma Igreja pra Chamar de Sua

      Semana passada tivemos a oportunidade de lermos o excelente texto de Rodrigo sobre o mercado de evangelhos, no qual se discute este aspecto de o evangelho ser oferecido como um produto e neste sentido quem tiver o melhor produto agregado aos melhores acessórios tem mais chances de agarrar os clientes. A grande questão é que este mercado é negro e seus produtos são falsos. Mas isto já foi visto na reflexão anterior. Meu foco aqui será o cliente. Este tipo de crente que se acha na condição de consumidor e sendo assim, a igreja deve se esforçar ao máximo para satisfazer as suas vontades, pra não dizer mimos. Todos querem uma igreja pra chamar de sua.

       Este tipo de gente existe e muito nas igrejas atuais, pois esta ideia de igreja empresa e evangelho produto, criou esse personagem cliente e recebedor, no lugar do servo e ofertador. Melhores bancos, sistema de refrigeração, estacionamento e outras coisas estão no topo das prioridades destas igrejas-empresas. E o conteúdo? O ensino? Ah, isto deve ser pensado depois, pois não é primordial. Quando define-se todas estas coisas, aí se pensa em qual evangelho vai se ofertar. Logicamente, o que for mais adequado ao público-alvo. Sim, público-alvo, pois chamar as pessoas de pecadoras condenadas ao inferno é propaganda contraproducente.

       E quando não se está satisfeito com o produto? Simples. Procura-se outro fornecedor. Nada de correção, disciplina, exortação ou excomunhão, se for o caso. Isto é coisa do passado e igrejas que tem essa postura, estão definhando. Vamos procurar outro lugar, pois aqui não podemos chamar a igreja de nossa. Vamos lá. A pergunta que fica é: Até quando? Até a primeira contrariedade. E este entra e sai leva, quase que certamente, ao encontro dos desigrejados, pois lá todos tem uma igreja pra chamar de sua, visto que não há cobrança, nem regras, e cada um vai na sua.

          A Bíblia fala o contrário. Que devemos nos reunir, devemos eleger oficiais, devemos servir uns aos outros com nossos dons e nãos sermos servidos. Que devemos refletir a graça de Deus e o Evangelho neste mundo de amargor. E o compromisso deste povo remido é com o ensino fiel das Escrituras, sem acréscimo nem decréscimo.

         Para encerrar essa reflexão, é bom lembrar que existe alguém que tem uma igreja pra chamar de sua. Este alguém é o senhor Jesus. O Catecismo Maior de Westminster, em sua pergunta 45 diz que Cristo exerce as funções de rei chamando do mundo um povo para si, dando-lhe oficiais, leis e disciplinas para visivelmente o governar.  Ou seja, cremos que a igreja local, sus oficias e governo segundo as Escrituras são uma bênção para seu povo, a verdadeira igreja. Vivamos, então, essa bênção que é ser igreja, em toda sua plenitude, alegre e reverentemente.

Deus nos abençoe. 

FELIZ 2014

Presb. Cícero da Silva Pereira
Facebook: https://www.facebook.com/cicero.dasilvapereira

         
            
          
           

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O que é uma Igreja Tipicamente Presbiteriana? Com a Palavra Francisco Macena


Não poucas vezes sou perguntado sobre algumas incoerências que ocorrem em igrejas presbiterianas. Incansavelmente tenho que responder a mesma coisa sempre: 

De acordo com a nossa constituição, afirmamos que: 

Art.1 - A IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL é uma federação de Igrejas locais, que adota como única regra de fé e prática AS ESCRITURAS SAGRADAS DO VELHO E NOVO TESTAMENTO e como sistema expositivo de doutrina e prática a sua CONFISSÃO DE FÉ E OS CATECISMOS MAIOR E BREVE; rege-se pela presente CONSTITUIÇÃO; é pessoa jurídica, de acordo com as leis do Brasil, sempre representada civilmente pela sua Comissão Executiva e exerce o seu governo por meio de Concílios e indivíduos, regularmente instalados.

Art.2 - A Igreja Presbiteriana do Brasil tem por fim prestar culto a Deus, em espírito e verdade, pregar o Evangelho, batizar os conversos, seus filhos e menores sob sua guarda e “ENSINAR OS FIÉIS A GUARDAR A DOUTRINA E PRÁTICA DAS ESCRITURAS DO ANTIGO E NOVO TESTAMENTOS, NA SUA PUREZA E INTEGRIDADE, BEM COMO PROMOVER A APLICAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DE FRATERNIDADE CRISTÃ E O CRESCIMENTO DE SEUS MEMBROS NA GRAÇA E NO CONHECIMENTO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO”.

Dito isto, “se” algum pastor, presbítero, conselho, presbitério ou sínodo, age diferente dos termos acima citados, esses tais não representam a Igreja Presbiteriana do Brasil. Sendo assim, aqueles líderes presbiterianos que se declaram publicamente “pentecostais”, aqueles que adotam os moldes de igrejas “inclusivas”, aqueles que adotam um “universalimo prático”, aqueles que mantem comunhão pastoral com “seitas” como a IURD, aqueles usam de atrativos mundanos para atrair as pessoas e chamam isso de “relevância” para a cidade, aqueles que promovem e apoiam a marcha para Jesus, esses tais não representam a Igreja Presbiteriana do Brasil. Não olhem para eles com se fossem uma referencia típica de presbiterianismo. 

A verdadeira referencia de presbiterianismo está nas igrejas que tem a Escritura como regra infalível de fé e de prática, que expõe o sistema doutrinário da Confissão de Fé e dos Catecismos e que seguem as normas legais da Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil.

Pense nisso! Acorde! Faça sua parte por uma igreja presbiteriana tipicamente presbiteriana!


Página do Autor no Facebook

Rodrigo Ribeiro

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Meu Protesto!

No dia 31 de outubro do ano em curso, completaremos 496 anos da reforma protestante. Evento este que foi o divisor de águas para a Igreja do Senhor. Pensar no legado que este movimento espiritual (ponto áureo) nos deixou, e analisar a atual realidade em que se encontram os “protestantes” do nosso tempo, é de lamentar profundamente diante do descaso que alguns cristãos expressam renegando a sua história, doutrina e confissão de fé que nortearam os fiéis no passado, tem sido o diferencial para os remanescentes no presente e de fato, nos conduzirá em triunfo até o dia de Cristo. É a partir deste fato inquestionável, que como jovem pastor, amante das Escrituras, expresso o meu protesto diante desse teatro em que se encontra o evangelho no Brasil:

1.            Protesto contra a indiferença dos evangélicos nas discussões de âmbitos sociais, políticos e econômicos de nosso país.

2.            Protesto contra muitas igrejas que na tentativa de desenvolverem um trabalho social relevante e por não terem uma leitura mais densa das Escrituras, acabam se tornando ONGREJAS. 

3.            Protesto contra a superficialidade de boa parte dos autodenominados evangélicos, a ausência do conhecimento de Deus pelo método indelével da pregação, é um fato que nos assusta! 

4.            Protesto contra os púlpitos vendidos à psicologizações, teorias freudianas, mensagens de auto-ajuda, uma leitura a partir de outras lentes, e não da própria Escritura.

5.            Protesto contra a pobreza musical e poética dos evangélicos brasileiros. Torna-se um árduo trabalho selecionar algo de bom para se ouvir. São centenas de canções centradas num antropocentrismo exacerbado.

6.            Protesto contra a enxurrada de músicas evangélicas que não dizem nada e, portanto, não acrescentam nada à vida cristã.  Canta-se muito, mas não há pedagogia, pois essas “letras” não refletem a beleza do Rei expressa em Sua Palavra.

7.            Protesto contra o comércio em que se tornou a fé evangélica. O cristianismo do Senhor que não tinha onde reclinar a cabeça se tornou a mina de ouro e fonte de poder dos já magnatas evangélicos e moeda de troca das camadas de baixo da comunidade evangélica.

8.            Protesto contra os pastores da mídia e artistas evangélicos que estão enriquecendo as custas do povo brasileiro já tão sofrido. Alguns deles cobram fortunas para exercerem seus “ministérios” em outras igrejas e para suas apresentações. Isso é ministério? Não para Paulo (cf. 1 Co 9.18).

9.            Protesto contra a desonestidade de liberais que não pregam em suas igrejas o que ensinam na academia. Fazem isso ou por medo de perderem o emprego ou por saberem que a teologia que lecionam mataria sua igreja.

10.          Protesto contra a enxurrada de novos seminários teológicos que são abertos com fins unicamente lucrativos. Eles exigem o mínimo dos alunos e têm muito pouco a oferecer a nível acadêmico. São meios de se conseguir um diploma fácil com uma carga horária diminuta. O resultado disso, são pastores e professores de teologia despreparados. “Teólogos” de cabeças ocas devidamente reconhecidos pelo MEC
.
11.          Protesto contra as igrejas que “matam” seus pastores sobrecarregando-os de atividades e desviando-os de seu chamado à Palavra e à Oração.

12.          Protesto contra os pastores que “matam” suas igrejas privando-as de uma pregação expositiva fiel às Escrituras e de um pastorado regado a oração e amor. Elas morrem de inanição espiritual.

13.          Protesto contra o descaso de algumas denominações históricas que abandonam suas confissões de fé em nome do famigerado pragmatismo.

14.          Protesto contra muitos pastores de igrejas confessionais que se mostram desonestos absorvendo e desenvolvendo em seus ministérios práticas oriundas de denominações de linha pentecostal e neo-pentecostal. Seria muito melhor que saíssem, ou fundassem sua própria denominação do que pertencer a uma igreja confessional e na prática não subscrever a sua doutrina.

15.          Protesto contra a frouxidão doutrinária do evangelicalismo brasileiro.  Em muitas realidades, se “prega” tudo, menos a Palavra de Deus.

16.          Protesto contra a ignorância dos denominados evangélicos frente o legado da Reforma Protestante do séc. XVI. O reflexo disto dentre outras coisas é a reprodução de alguns erros de ordem moral, litúrgica, doutrinária e etc, que foram cometidos no passado tudo por falta de conhecimento.

17.          Protesto contra boa leva de cristãos que se autoproclamam reformados, mas sua ortodoxia não reverbera num ortopraxia. Não evangelizam, não se envolvem com a obra missionária, não desenvolvem atividades de caráter social, são turrões, briguentos.  Alguns limitam-se apenas a discutir teologia nas redes sociais criando desta forma uma verdadeira ojeriza para com aqueles que não conhecem a fé reformada.

18.          Protesto contra a falta de santidade daqueles que proclamam em alto e bom som sua fé em Jesus. Alguém precisa informar que uma das ordens do Senhor para o Seu povo é a santidade (cf. 1 Pe 1:16; Hb 12:4).

19.          Protesto contra o abandono de uma cosmovisão que abarque a compreensão da fé em todas as áreas de nossa existência isto inclui tudo: educação, medicina, artes, política, ciência, questões contemporâneas, ética, e tudo mais.

20.          Protesto contra meus próprios pecados. Não me conformo em ser como sou. Mas, sou o que sou, pela graça de Deus.

Pr. José Rafael

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A Confissão de Fé de Westminster e o Valor Supremo das Escrituras Sagradas


De forma extremamente coerente a Confissão de Fé Westminster inicia o primeiro capítulo tratando das questões relativas à bibliologia, em perfeita consonância com o principio formal da reforma protestante, o Sola Scriptura. Se um dos lemas mais preciosos dos reformadores dizia respeito justamente à autoridade exclusiva das Escrituras como regra de fé e prática, é natural que a confissão de Fé iniciasse sua jornada teológica a partir deste ponto de partida: a doutrina das escrituras sagradas.

Neste sentido destaca-se o seguinte artigo que trata exatamente da doutrina da revelação: Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestam de tal modo a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, todavia não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade, necessário à salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna a Escritura Sagrada indispensável, tendo cessado aqueles antigos modos de Deus revelar a sua vontade ao seu povo (Confissão de Fé de Westminster, 1:1).

Posteriormente a Confissão trata dos seguintes temas: Doutrina da Revelação (parágrafo I; O Cânon e a Inspiração das Escrituras (parágrafos II e III); Autoridade das Escrituras (parágrafos IV e V); Suficiência das Escrituras (parágrafo VI); Clareza das Escrituras (parágrafo VII); Preservação e Tradução das Escrituras (parágrafo VIII); Interpretação das Escrituras (parágrafo IX) e O Juiz Supremo das Controvérsias Religiosas (parágrafo X).

No tocante à doutrina da revelação, a CFW professa a doutrina da revelação natural, afirmando que a natureza, seja o macrocosmos (estrelas, plantas e etc) ou o cosmo (terra, os mares, o próprio homem e etc) consistem em uma pregação acerca da existência de Deus. Mesmo o homem pós-queda, nasce com uma versão da lei de Deus em si, impulsionando-o à adoração, e consequente idolatria para naqueles que não foram regenerados. Este doutrina tem como fundamentos diversas passagens das Escrituras, como por exemplo Sl 19:1-4 e Rm 2:14-15. Esta revelação torna o homem indesculpável diante de Deus.

Ao compreender esta doutrina somos inclinados a observar as ciências sob uma nova ótica, não mais como inimiga dos cristãos, mas sim como uma forma de descobrir a glória de Deus mediante o estudo de suas obras, pois como afirma Paulo Anglada: “As ciências podem até ser consideradas departamentos da teologia, especializações que estudam a criação e a providência. O estudo da química, da física, da matemática, da biologia, da geografia, da política, da antropologia, da história, etc., deve ter por fim último a glória de Deus. Não é sem razão que muitos dos primeiros cientistas dignos do nome eram cristãos sinceros, como Isaac Newton e Faraday.

O direcionamento materialista e ateísta percebido nas academias só atestam a ação do pecado na vida de muitos cientistas, que se esmeram em compreender a criação, mas são absolutamente cegos e rebeldes diante do Criador de todas as coisas. Estes homens são indesculpáveis.
Diante da insuficiência da revelação natural para salvar os homens, haja visto que a cegueira causada pelo pecado o faz distorcer completamente o testemunho da criação, aprouve a Deus revelar-se de maneira especial e graciosa a sua igreja.

O Senhor do universo escolheu um povo para si e passou a se revelar de forma gradual e progressivamente, primeiramente através dos patriarcas, profetas e por fim através do seu próprio filho encarnado, Cristo Jesus (Hb 1:1-2). Esta revelação entregue à igreja é único meio eficaz do homem alcançar o caminho que o leva a salvação, restaurando sua comunhão com o Criador.

A fim de resguardar este imenso tesouro de valor imensurável, Deus instruiu seu povo para escrever sua revelação, e assim preservá-la de posteriores adições e deturpações. Ainda que esta processo tenha sido efetuado pelos homens, cremos que o próprio Deus esteve por trás destes atos, resguardando o conteúdo de nossa fé, o caminho para a salvação e a piedade.

Diante deste breve mais profundo relato presente nas Escrituras e organizando na Confissão de Fé de Westminster devemos nutrir um apreço intenso pela Palavra de Deus, dando a esta graça que nos foi dada toda a honra merecida, e nos esforçando para permanecer puros e firmes em seus preceitos pois ela é a orientação que vem dos céus para nos levar para junto de nosso Deus.

Nenhuma tradição deve tomar o seu lugar de honra, e nenhuma outra revelação deve suplantar ou concorrer com seu poder normativo. Seu valor é inestimável pois se não fosse esta preciosa revelação todos nós seríamos condenados. Que esta seja nossa Confissão, mas que também seja a nossa verdade. Sola Scriptura!



Rodrigo Ribeiro
Este texto é fruto de um trabalho feito do módulo de BIBLIOLOGIA da Especialização em Estudos Teológicos do Andrew Jumper, ministrado pelo Prof. LEANDRO LIMA, e que teve como base um resumo feito de um trecho do livro de Paulo R. B. Anglada, Sola Scriptura: A Doutrina Reformada das Escrituras (São Paulo: Editora Os Puritanos, 1998), 25-31.