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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Em que Crê um Cristão Reformado?

Muitos irmãos em Cristo devem ter percebido que me identifico sempre como um "cristão reformado", apesar de, logicamente, ser um evangélico. Talvez alguns já indagaram a si próprios sobre o que significa essa expressão, porém nunca tiveram coragem de perguntar. Escrevo este artigo com o objetivo de satisfazer a curiosidade de todos aqueles que ficam com um nó na cabeça sempre que ouvem ou lêem essa expressão de minha parte.

Um cristão reformado é alguém que crê na doutrina bíblica conforme expressa pela Teologia Reformada, elaborada no tempo da Reforma Protestante. Como já foi dito anteriormente, a Reforma foi o maior avivamento da história da igreja, tendo como marco inicial a publicação das 95 Teses contra a venda de indulgências, por Martinho Lutero, em 31 de outubro de 1517. Depois de Lutero surgiram muitos outros reformadores, entre eles João Calvino. Enquanto Lutero foi o responsável pela recuperação da doutrina da justificação pela fé, Calvino recuperou a doutrina da soberania de Deus. E foi sobre essas doutrinas que se construiu a chamada Teologia Reformada, que nada mais é do que uma sistematização da doutrina bíblica.

Para que a Teologia Reformada fique mais clara a todos, gostaria de fazer uma breve confissão de fé sobre o que creio como cristão reformado. Não tenho a pretensão de ser exaustivo nesta confissão, pois para isso já existem as confissões de fé históricas. Desejo apenas apresentar a fé reformada de forma resumida para aqueles que ainda não a conhecem.

Em primeiro lugar, creio como reformado que a Bíblia deve ser interpretada seguindo o modelo histórico-gramatical. Isto significa que, por ser um livro inspirado pelo Espírito Santo (II Tm.3.16), a Bíblia deve ser interpretada em espírito de oração e na total dependência do Espírito, que ilumina nossa mente para que possamos compreender seu verdadeiro significado (I Co.2.10-16). Porém, como a Bíblia também é um livro humano, no sentido de que foi escrita por seres humanos usados por Deus (II Pe.1.21), devemos interpretá-la usando regras de interpretação, a que damos o nome de Hermenêutica Bíblica. Essa interpretação é histórico-gramatical porque deve levar em consideração o contexto histórico em que a passagem analisada foi escrita (autor, destinarários, etc) e também o contexto gramatical no qual está inserida (tipo de literatura, versículos anteriores e posteriores, etc).

Neste ponto discordo dos neo-pentecostais, que muitas vezes interpretam a Bíblia alegoricamente, atribuindo um significado simbólico ou espiritual diferente do significado pretendido pelo escritor original do texto. Também discordo dos dispensacionalistas que, sob o pretexto de interpretarem a Bíblia literalmente, acabam pegando as passagens em seu sentido literal mesmo em escritos poéticos e proféticos, cheios de símbolos e figuras, chegando a interpretações precipitadas sobre o texto bíblico.

Em segundo lugar, creio como reformado na justificação pela fé. A justificação é um ato legal, no qual Deus declara que o pecador é justo (Rm.3.22-26; 4.5), não por alguma obediência ou boa obra dele próprio (Ef.2.8), nem por algo operado nele pelo próprio Deus, mas somente por causa da obediência perfeita de Cristo à lei (Rm.5.18-19). Essa justificação é composta de dois processos: o negativo, que consiste no perdão de pecados (Rm.4.6-8), e o positivo, que consiste na imputação da justiça de Cristo (II Co.5.21). O pecador é justificado somente pela fé (Rm.3.28).

Neste ponto discordo de diversas visões sobre a justificação pela fé. Discordo dos católicos, que crêem que a justificação é uma mudança moral do pecador, uma infusão de justiça (e não imputação), confundindo justificação com santificação, e fazendo, assim, com que ela dependa não apenas da fé, mas também das boas obras (Rm.4.1-5). Discordo de muitos dispensacionalistas, que freqüentemente negam que a justificação consista também da imputação da justiça de Cristo, fazendo ela consistir apenas em perdão de pecados, e considerando a fé como sendo, ela própria, a justiça que vem de Deus. Discordo também daqueles que ensinam que no Antigo Testamento a justificação era pela obediência à lei, pois as Escrituras são muito claras em afirmar que o homem nunca foi justificado pela lei (Rm.3.20), e a fé sempre foi a condição para justificação, mesmo no Antigo Testamento (Rm.4.3).

Em terceiro lugar, creio como reformado na soberania de Deus. Por soberania de Deus deseja-se mostrar o controle absoluto de Deus sobre toda Sua criação (Mt.6.26; 10.29), e todos os acontecimentos passados, presentes e futuros, sendo Ele o Senhor da história (Dn.4.35). Deus não é somente o Criador, é também o Preservador do Universo, sustentando todas as coisas pela Palavra do Seu poder (Hb.1.3). Ele é quem determina tudo o que acontece, Sua vontade é totalmente soberana (Is.46.10), inclusive sobre nossas vontades (Fp.2.13). Logo, não existe, como muitos dizem, um livre-arbítrio. Existe sim uma liberdade e responsabilidade humana, mas que é limitada pela vontade soberana de Deus.

Nisto discordo de diversos ramos cristãos, em diversos aspectos. Discordo daqueles que crêem que a oração pode mudar a vontade de Deus, fazendo orações "determinatórias", pois em Deus não há mudança, nem sombra de variação (Tg.1.17); nossas orações são respondidas quando feitas segundo Sua vontade (Mt.6.10; I Jo.5.14) e mudam apenas acontecimentos. Discordo daqueles que pensam que certas coisas acontecem fora do controle de Deus, como catástrofes naturais, guerras ou o problema do mal no mundo, pois tudo isso está em Seus planos e foi por Ele determinado, como demonstram diversas passagens do Antigo e Novo Testamento (Gn.50.20; Rm.8.28). Discordo também daqueles que pensam poder determinar o seu próprio destino, como se o poder da vida ou da morte estivesse em suas próprias mãos (Dt.32.39).

Em quarto lugar, creio como reformado na soberania de Deus especificamente em relação à salvação(Rm.8.29-30). Isso foi perfeitamente expresso num documento chamado Cânones de Dort, elaborado entre 1618 e 1619, onde a salvação é apresentada em 5 pontos: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, chamada eficaz e perseverança dos santos.

Depravação total significa que o homem foi de tal forma afetado pelo pecado que é totalmente incapaz de se salvar sozinho ou mesmo contribuir, por pouco que seja, nessa salvação (Rm.3.9-20). A depravação total mostra que "todos pecaram e carecem da glória de Deus" (Rm.3.23), que os pecadores estão "mortos em delitos e pecados" (Ef.2.1) e que "todo aquele que comete pecado é escravo do pecado" (Jo.8.34). Um morto espiritual não pode fazer nada para viver, e um escravo não tem vontade própria. O poder para ressuscitá-lo espiritualmente tem que vir de fora, e para ser livre precisa antes ser liberto pelo Filho (Jo.8.36) . Por isso, ninguém pode escolher a Jesus por si próprio para ser salvo, nem fazer uso de um tipo de livre-arbítrio para aceitar ou rejeitar a salvação alcançada por Cristo.

Eleição incondicional significa que Deus, somente pela Sua soberana vontade, escolheu desde toda a eternidade (Ef.1.4) uma multidão de "todos os povos, tribos, línguas e nações" (Ap.7.9) para serem salvos de seus pecados e herdarem a vida eterna. Porém, Ele não escolheu a todos (Rm.9.13). Essa escolha não se baseou em nada de bom ou que agradasse a Deus presente nos próprios pecadores , ou alguma fé que Ele tivesse previsto pela Sua presciência (Rm.9.11); pelo contrário, foi totalmente pela Sua maravilhosa graça que Ele os escolheu soberanamente, para o louvor da Sua glória (Rm.9.14-18; Ef.1.5,6,11,12). Aqueles que não foram escolhidos estão destinados à condenação eterna no inferno, sem que Deus seja culpado pelo seu destino ou pelos seus pecados. Deus salva uns para demonstrar a Sua graça, e condena outros para demonstrar Sua justiça (Rm.9.19-24). Outra coisa interessante a se observar é que Deus não era obrigado a salvar ninguém de seus pecados, nem deixaria de ser um Deus amoroso se não o fizesse. Logo, o fato de Deus salvar uma multidão da humanidade por pura graça já é uma demonstração infinita de amor e misericórdia, acima de toda comparação.

Expiação limitada significa que o valor da morte de Cristo é absolutamente infinito e poderoso para perdoar todos os pecados daqueles que Deus escolheu, e apenas desses (Is.53.11-12). Dizer que Cristo morreu pelo mundo não significa que Ele morreu por todas as pessoas do mundo, mas por pessoas de todas as partes do mundo (Jo.3.16; I Jo.2.2). Logo, Cristo não morreu por todos os homens literalmente; apenas pelos escolhidos de Deus, que são Suas ovelhas e Sua Igreja (Jo.10.11,15; 17.9; Ef.5.5-27). Porém, essa expiação dá aos eleitos uma salvação eterna, pois, perdoados de todos os seus pecados pelo sacrifício de Cristo, e tendo sido imputada a eles a justiça de Cristo, eles já não podem ser condenados; eles tem, agora, a vida eterna (Jo.5.24).

Chamada eficaz nos fala sobre como Deus salva os Seus escolhidos. Deus usa a pregação do evangelho como meio de chamar os eleitos para Si mesmo (Rm.10.14-17). O evangelho deve ser pregado a todas as pessoas (Mc.16.15), pois não sabemos quem Deus escolheu, e a Palavra se tornará eficaz na vida daqueles que foram eleitos antes da fundação do mundo (At.13.48). O Espírito Santo irá agir na vida dos eleitos, operando a regeneração (ou novo nascimento- Jo.3.3-8) pela Palavra (I Pe.1.23), tornando-os dispostos a responderem positivamente ao convite do evangelho (At.16.14). É nesse momento que os eleitos recebem a capacidade de "escolher a Deus" e receber a Cristo (Jo.6.65), arrependendo-se de seus pecados e tendo fé em Cristo para salvação. Tanto o arrependimento como a fé são dons de Deus, dados no momento da regeneração (At.5.31; 11.18; Ef.2.8; Fp.1.29; II Tm.2.25). Por isso, ninguém deve se achar melhor que os outros por ter se arrependido ou ter tido fé, porque essa capacidade é algo sobrenatural dado por Deus. Dizer que essa chamada aos eleitos é eficaz significa que é impossível a um eleito resistir ao convite do Espírito Santo, pelo evangelho, no seu coração (Is.43.13).

Perseverança dos santos significa que aqueles que foram eleitos por Deus, desde o dia em que foram salvos, não poderão mais perder essa salvação (Jo.6.39; Rm.8.30; Fp.1.6). Como Cristo morreu por todos os seus pecados - passados, presentes e futuros - nenhum pecado pode, agora, levá-los à condenação: "Nenhuma condenação há para aqueles que estão em Cristo" (Rm.8.1). Uma vez salvo, salvo para sempre. Eles têm a vida eterna e, se é eterna, não pode acabar um dia (Jo.10.28-29). Nada, agora, pode separá-los do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm.8.35-39). Porém, isso não significa que os eleitos nunca mais pecarão, porque isso certamente irá acontecer (I Jo.1.8-10). Mas como eles foram regenerados, seu prazer agora não é mais o pecado, mas a santidade (I Jo.3:6-10). Uma pessoa que viva em pecado e alegue ter sido salva deve ter sua salvação seriamente questionada. Um cristão pode até cometer um pecado terrível, porém, esse pecado certamente requererá uma disciplina da parte de Deus, não com o objetivo de fazê-lo pagar pelo seu pecado, que ja foi pago na cruz por Cristo, mas com a finalidade de aperfeiçoá-lo, para que seja participante da santidade de Deus (Hb.12.5-13). Davi foi um exemplo dessa disciplina de Deus, no caso de Bate-Seba (II Sm.11 e 12).

Em quinto lugar, creio como reformado que o "fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre", como diz o Breve Catecismo de Westminster. Logo, um reformado tenta viver uma vida que glorifique a Deus em todos os aspectos, e entende que Deus é adorado e glorificado em todas as áreas de sua vida: no trabalho, na família, na sociedade, no lazer, na igreja, etc. "Quer comais, quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus" (I Co.10.31), como diz o apóstolo Paulo. A busca da glória de Deus e a adoração cheia de amor que brota do coração de um cristão reformado é a aplicação prática e conseqüência da doutrina da soberania de Deus. Pode-se perceber isso no próprio Paulo que, depois de discorrer sobre o assunto da soberania de Deus dos capítulos 9 a 11 de Romanos, encerra o assunto com adoração: "Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem deu primeiro a ele, para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém." (Rm.11.33-36).

Este é um pequeno resumo do que eu creio como reformado. Digo com segurança e convicção que essa é a doutrina original dos evangélicos, mas que, infelizmente, foi abandonada com o tempo. Tenho buscado um retorno ao evangelho bíblico conforme ensinado pelos reformadores, nossos pais na fé, e creio que esse é o único caminho para um verdadeiro avivamento na igreja evangélica moderna. O segredo do avivamento não é inovar, mas olhar para o passado e restaurar o que se perdeu: "Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas." (Jr.6.16).


Minha sincera oração é que Deus utilize este artigo para abrir os olhos de muitos irmãos em Cristo às verdades esquecidas da Palavra de Deus, e que assim, despertos para o evangelho eterno, possam ter seus corações em chamas por essas mesmas verdades que custaram o sangue de nossos pais!

André Aloísio 
Publicado em: http://teologia-vida.blogspot.com.br/2006/10/em-que-cr-um-cristo-reform_116136941580431401.html

Intercâmbio feito por Walisson Arruda

terça-feira, 22 de abril de 2014

O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Cair em Falsas Doutrinas

"Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal. Porque jamais uma profecia foi proferida por efeito de uma vontade humana. Homens inspirados pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus." 
                                                                                  (2 Pe 1:20,21)


          Depois de acolhermos essas palavras proferidas pelo apóstolo Pedro, tendo ele tratado nesse texto a respeito da origem divina e da confiabilidade das Escrituras Sagradas, podemos fazer algumas breves observações sobre questões pertinentes à sadia interpretação dos Textos Sagrados e também considerações a respeito do que temos vivenciado nos nossos dias com relação à má interpretação bíblica e suas drásticas consequências para a Igreja.

1) A BÍBLIA E SUA DIVISÃO

            Quando abrimos nossa Bíblia logo vemos todos os seus livros divididos em capítulos e versículos. Essa divisão é um recurso bastante interessante que nos permite facilitar a leitura nas igrejas, bem como o encontro de uma citação bíblica, a comparação entre um texto e outro, etc; entretanto, mesmo em meio a tantos benefícios, temos que ter em mente que esse desmembramento do texto é um elemento que foi adicionado, não fazendo parte dos manuscritos originais, pois todos os livros foram escritos em forma de texto corrido. 

            Por que saber disso é importante? Porque embora tal divisão tenha sido um método que veio para nos ajudar, ela também teve e tem uma contribuição danosa para nós por conta de alguns que fizeram e fazem mal uso dela. Vejamos o porquê no decorrer do texto.


2) A BÍBLIA E SEU CONTEXTO

            Outro fator que merece nossa atenção que cada livro da Bíblia possui suas particularidades. Embora todos eles estejam centrados na pessoa de Cristo e não se contradigam entre si, todos eles têm seu assunto principal, seu propósito, público-alvo; e é o conjunto de todo o livro que trará a correta interpretação e aplicação de cada versículo contido nele.
            Louis Berkhof, em seu livro "Princípios de interpretação Bíblica" [1] discorre sobre os três principais pontos relacionados à interpretação bíblica, sendo eles: A interpretação gramatical, a histórica e a teológica. Falemos rapidamente sobre eles:

                     a) Gramatical: A interpretação gramatical está intimamente ligada ao estilo literário do texto. Um exemplo básico disso é o notável uso de figuras de linguagem em muitos livros das Escrituras, sejam elas metáforas, metonímias, ironias, etc. Isso é um dos pormenores não podem ser deixados de lado se quisermos entender o sentido do texto. Além de atentar para o estilo literário, Berkhof ainda dá importância à interpretação do pensamento ou a interpretação lógica, afirmando que "ela baseia-se na suposição de que a linguagem da Bíblia é, como em qualquer outra linguagem, um produto do espírito humano, desenvolvida sob direção providencial." [2]

                     b) Histórico: Mesmo sendo muitas vezes ignorado, o aspecto histórico desempenha um papel valoroso na correta interpretação bíblica. As circunstâncias sociais do autor, seu propósito, o público original influenciam de forma direta na compreensão correta do texto.

                     c) Interpretação teológica: Embora a interpretação lógica e histórica sejam necessárias, por vezes, não são suficientes. Uma afirmação que entra nesse princípio de interpretação, por exemplo, é de que "a Bíblia é a Palavra de Deus". Aqui é necessário mais que conhecimento gramatical ou histórico. O fato é que não se chega a conclusões como essa de todo o coração sem a ação do Espírito Santo iluminando os olhos do entendimento.

3) A BÍBLIA E SUA SUFICIÊNCIA E INFALIBILIDADE

          "Quanto a você, porém, permaneça nas coisas que aprendeu e das quais tem convicção, pois você sabe de quem o aprendeu. Porque desde criança você conhece as sagradas letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus." (2 Tm 3:14-15)

       Temos uma profunda necessidade das Escrituras. Em Hebreus 1:1 vemos que Deus, outrora, se revelou verbalmente, tendo falado por meio de profetas. Essa revelação (que compreende o Antigo Testamento) foi esporádica, progressiva e incompleta, embora tenha sido genuína. Foi em Jesus, o Filho do Homem, que Deus foi plenamente revelado (Cl 2:9; Hb 1:1-3). Cristo é a completa e perfeita Revelação de Deus! Essa revelação também foi escrita e compreende o Novo Testamento. "Isso torna indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar a Deus e a sua vontade ao seu povo" (CFW, I.I) [4]

         A Bíblia deve ser a nossa única regra de fé e prática. Além de ser a revelação de Deus, é a forma que Ele usa para mostrar à Igreja a sua vontade. Ela nos é completamente suficiente, sendo toda inspirada por Deus e útil para ensinar, repreender, corrigir e nos educar na justiça (2 Tm 3: 16).

          Partindo disto e vendo que muitos movimentos religiosos que se dizem cristãos negam a suficiência das Escrituras e acrescentam seus próprios pensamentos aos ensinamentos bíblicos, é de suma importância que nos apeguemos confiadamente às Verdades já reveladas. Como disse o reformador Lutero: "Qualquer ensinamento que não se enquadre nas Escrituras deve ser rejeitado, mesmo que faça chover milagres todos os dias”. Porque grandes sinais e prodígios podem ser realizados até mesmo por falsos cristos e falsos profetas (Mt 24:24), mas Aquele que pode não somente fazer grandes milagres e prodígios materiais, mas que pode convencer o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16:8), a saber, o Espírito Santo de Deus, o faz, e faz por meio da Palavra de Deus (Rm 10:17).

          Ao entendermos que as Escrituras são a verbalização da vontade de Deus para nós, podemos descansar e saber que Ele sempre falará conosco e nos responderá quando estivermos afogados em dúvidas. A Palavra de Deus em sua forma escrita e imutável, é tão completa que podemos, sem qualquer receio, depositar nela toda nossa confiança e esperança. Deus falou; cabe a cada um dizer, confiadamente: "Amém. Eu creio". [3]


CONCLUSÃO

          Em suma, precisamos tomar muito cuidado para não basearmos nossas convicções em textos ou versículos isolados. Uma frase bastante conhecida diz: "Texto sem contexto é pretexto para heresia." E é! Muitos falsos profetas têm usado da própria Escritura para criar e trazer ensinamentos que a Bíblia não traz. Usam de versos e textos isolados sem dar atenção a todos os outros que vêm antes e depois, criando interpretações que muitas vezes ultrapassam o que pode se chamar de erro doutrinário, dando origem às heresias. Com sagacidade, ludibriam toda uma gente a acreditar nas fábulas engenhosamente inventadas, como a própria Escritura as caracteriza. Fujamos desses! Corramos para Jesus Cristo!

Antes de terminar, VAMOS PROPOR UM EXERCÍCIO RÁPIDO:
Primeiro, observe esses dois versos abaixo apresentados de maneira isolada, e pense na interpretação que você já tem ou terá deles. Depois disso, encontre o texto completo na Bíblia (2 Coríntios 3) e faça a leitura. O objetivo disso é mostrar o quanto somos, muitas vezes, levados por interpretações errôneas e após isso deixar o texto explicar a si mesmo. Vamos aos textos:

Texto 1) "Ele nos capacitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; pois a letra mata, mas o Espírito vivifica."
(2 Coríntios 3:6)


Texto 2) "Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade."
(2 Coríntios 3:17)


Você chegou a uma interpretação? 

         O propósito de ter escolhido esses dois textos foi este: Esses versículos isolados têm sido amplamente utilizados por muitos com um sentido totalmente equivocado pra justificar ações incoerentes com a Palavra de Deus. Vejamos como esses textos são geralmente interpretados:

Texto 1) "A letra mata, mas o Espírito vivifica" já virou um jargão daqueles que condenam o estudo teológico. Interpretam de forma totalmente equivocada esse texto afirmando que a teologia é a "letra", que devemos ser guiados "apenas pelo Espírito". Mas o que Paulo realmente quis dizer?  A verdade é que ele estava condenando o legalismo judaico. Os judeus cuidadosamente observavam Lei, mas não atentavam para o Cristo que é o único suficiente para nos salvar do pecado. Eles eram mais interessados na "letra" que representa o "ministério da morte, gravado com letras em pedras" que através de Moisés foi dado aos israelitas (3:7) do que no “Espírito”, a nova aliança de Cristo com a Sua Igreja, que foi revelada e escrita nos corações através do Espírito Santo (3:3-8).

Texto 2) "Onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade". Essa frase também tem sido inúmeras vezes usada hoje em dia, dessa vez para justificar comportamentos reprováveis no culto ao Senhor. Há tentativa de encobrir a falta de reverência quando afirmam: "Temos liberdade para fazer estas coisas, pois... Onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade". Não preciso nem discorrer muito sobre isso, nem você fará muito esforço pra entender esse texto. Apenas voltaremos para um versículo antes desse. Começaremos a ler a partir do v.16, que diz: "Mas quando alguém se converte ao Senhor, o véu é retirado." E a continuação... "Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade." Não é difícil entender que liberdade o apóstolo Paulo fala. Está longe de ser uma licença apostólica para gritarias e correrias no culto! A liberdade, nesse caso, é relacionada à conversão, nada, além disso.

            Diante de tudo o que foi lido, agora pare um pouco e pense nas coisas as quais você tem convicção. Qual a razão da sua fé? O que você crê tem fundamento em todo o Livro Sagrado ou apenas em textos e versos isolados? Seja sincero com você e responda: As suas interpretações sobre determinados textos vão de encontro aos demais livros das Escrituras? Se assim for, que o Espírito Santo te leve ao reconhecimento. E, ao reconhecer, que Ele te revele a Verdade. E que, depois disso, você se dobre a essa Verdade, viva por ela todos os dias e a defenda, também, sempre que necessário. 

             Que o Senhor coloque em nós o desejo de aprender mais sobre Ele, de estudar Sua Palavra e aplicá-la na nossa vida para o louvor da Sua glória! Somente dessa forma é que não cairemos na lábia dos falsos profetas.

Graça e Paz a todos os meus irmãos em Cristo.

Letícia Lima


______________________

[1]BERKHOF, Louis. Princípios de Interpretação Bíblica. 3 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 142 p.
[2] p.68
[3] ROSS, Ivan. Curso preparatório para a pública profissão de fé. Parte I. Lição 2. 2 ed. São Paulo: Cultura Cristã. p.9.
[4] A Confissão de Fé de Westminster, Capítulo I. Da Escritura Sagrada. I.