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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O Senhorio de Cristo no Contexto Universitário

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NOTA: O que se segue é um sermão pregado pelo pastor Jonas Madureira no dia o2/08/14 no culto de abertura da Aliança Bíblica Universitária de São Paulo, na Igreja Batista de Vila Mariana. Não se trata de uma transcrição integral do sermão, embora grande parte dele tenha sido transcrito. Alguns trechos foram adaptados para a linguagem formal e a essência da mensagem não foi alterada.
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Como lidar com a questão de alguém que está na universidade, deseja ser um profissional, e sofre pressões de um contexto cultural secular?
Poderíamos pensar o senhorio de Cristo em termos de um Ser que tem controle sobre tudo, que controla até mesmo a quantidade de fios de cabelo, ou como um governo extremamente meticuloso e rigoroso que nos leva a uma espécie de preparação militar para entrar na universidade em uma campanha e vencer todos os principados. Porém, precisamos repensar o senhorio de Cristo a partir das implicações de todas as esferas da existência.
Uma visão equivocada sobre o senhorio de Cristo
Quero iniciar a partir de um equívoco que cometemos. Em uma apreensão equivocada, acabamos não reconhecendo Seu senhorio. Por que temos um entendimento equivocado, acabamos perdendo de vista a dimensão do significado e o valor do Senhorio de Cristo. Não são poucos que entendem a obra de Cristo como uma espécie de plano B de Deus, como uma espécie de “jeitinho brasileiro”. O plano A de Deus seria Adão. Essas pessoas dizem que o plano de Deus só seria perfeito se Adão tivesse sido “aprovado na prova”, ou seja, não tivesse pecado. Como Adão errou, o plano B de Deus entra em ação. Deus, então, “inventa Jesus” para resolver o problema do pecado.
Não há nada mais anticristão do que esse pensamento. Jesus não é o plano B. Ele sempre existiu, ele é Deus e não uma invenção. O fato de a Bíblia dizer que Jesus foi gerado, não significa que ele não seja Deus. Há uma diferença entre gerar e criar, como explica C. S. Lewis. Eu posso criar uma estátua a partir de uma matéria bruta, criar uma música, uma teoria, um espetáculo, uma máquina etc., mas não posso criar filhos, somente posso gerá-los. A geração é sempre uma espécie daquilo que a gera. A Bíblia usa a palavra monogenés (μονογενής) para se referir a Jesus, ou seja, ele é o único gerado. Se ele foi gerado, não podemos entender isso do ponto de vista temporal. Significa que ele foi gerado por Deus. João 1.1 diz: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” Tudo que existe foi criado por intermédio de Jesus. Ele é o intermediador da criação. Estamos, em primeira instância, diante de Deus. Não se trata de um plano B para resolver o pecado do homem. Independentemente de o homem pecar, Jesus já existia.
Quando falamos do senhorio de Cristo, portanto, falamos dele como o criador do universo, que fez tudo. Não existe absolutamente nada que não seja fruto da obra criadora de Jesus. Abraham Kuyper disse: “Não há um único centímetro quadrado de todos os domínios da existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame ‘é meu!’.” Aquela divisão entre sagrado e profano não existe. Até mesmo um ateu glorifica a Deus porque sempre que usa a inteligência dele para negar a Deus, ele está se valendo de algo que foi dado por Deus. Não há como olharmos para todas as dimensões da cultura e não concluir que Deus pode ser glorificado lá.
Glorificando a Deus no contexto universitário
Neste sentido, Jesus é o criador, o mediador, de todas as esferas do mundo. Deste modo, Jesus não será Senhor nas diversas disciplinas de uma universidade só porque você coloca o nome de Deus em sua teoria. O fato de algo ter o nome de Deus, não significa que honre a Deus. As coisas à nossa volta podem glorificar a Deus na medida em que realizam em si mesmas as coisas pelas quais elas foram feitas. É por isso que não existe jazz gospel. Há coisas em que não vamos conseguir colocar o nome de Deus.
A pergunta então é: isso não é para Deus? O nome de Deus será glorificado quando o seu trabalho for o melhor. Você não precisa colocar o nome de Deus nele. De alguma forma, precisamos repensar nossa maneira de servir a Deus. Enquanto pensarmos nosso serviço a Cristo apenas em termos dualistas, ou seja, somente posso servir a Deus tocando um instrumento ou pregando, iremos servi-lo apenas dessa maneira. Se você estuda química, matemática, zootecnia etc., e não consegue imaginar usar essas coisas na igreja, você deve se conscientizar que o senhorio de Cristo não está preso às quatro paredes da igreja.
Quando falamos do senhorio de Cristo no contexto universitário, estamos chamando atenção para uma cegueira. Isso envolve sabedoria. Quando fazemos um estudo sobre o nascimento das universidades, vemos que elas surgem a partir do contexto eclesiástico. É incrível como perdemos essa ligação entre Deus e a universidade.
Como ver o senhorio de Cristo na universidade? A ideia mais grosseira seria transformar-se em professor para evangelizar. É como uma emboscada. O aluno vai assistir a uma aula de introdução a algum pensamento, acredita que realmente vai estudar isso, mas você apresenta Jesus. O maior folheto evangelístico que você tem é você mesmo.
Quando estava na PUC, uma das minhas maiores dificuldades era que, quando explicava o evangelho a alguém e a pessoa gostava, chegava um professor ateu inteligente e então aquela pessoa queria ser como esse professor. Eu olhava para o meu contexto universitário e não tinha nenhum professor evangélico. Havia a ideia de que ou você é inteligente ou é evangélico. Precisamos fazer ciência na universidade. E precisamos fazer isso pra valer. As pessoas irão olhar então para você e perguntar sobre aquilo em que você acredita, porque você está contribuindo para a universidade. Quando você entende o senhorio de Cristo, você não pensa: “Meu Deus estou estudando teoria geral do processo enquanto muitas almas estão morrendo!”
A igreja e a universidade
Infelizmente, a relação da igreja com a universidade é “menos zero”. A igreja consegue preparar um missionário para um país não alcançando, completamente radical em relação à sua crítica ao evangelho, para que possa fazer um trabalho suado, mas não consegue preparar um missionário para o campo universitário. A igreja tem medo da universidade. Eles têm medo de que o jovem entre na universidade. Ficam desesperados. Os pastores têm medo de perguntas. “Pastor, será que a criação foi em sete dias mesmo?” Não dá pra ter uma conversa franca. A igreja não sabe lidar com a universidade e o nome dessa igreja são os pastores. Os pastores não amam a universidade. Enquanto não derem “um beijo” na universidade, continuarão a perder universitários cristãos.
Qual igreja você conhece que consegue investir em um jovem para que possa fazer pós-graduação, doutorado em biologia? Vão pensar, “por que a igreja precisa de biólogo?”. A biologia é um saber que pode glorificar a Deus. Quando fazemos da melhor maneira, Deus é glorificado. Por que você não consegue usar sua ciência para glorificar a Deus, para servir a Deus? Estamos vendo o senhorio de uma maneira muito equivocada.
O filósofo Georg Hegel era protestante e a igreja pagou todos os estudos dele. Se ele foi reconhecido por aquilo que ele fez, foi porque a igreja fez isso. Quantas de nossas igrejas estão investindo pesado nos universitários?
Enquanto os pastores não entenderem que podemos glorificar a Deus e servi-lo em outros campos, não conseguiremos ter um contexto universitário em que podemos vislumbrar o senhorio de Cristo sendo glorificado por cristãos e que são chamados.
Como disse Bruce Nichols, “O evangelho nunca é hóspede da cultura, mas sempre seu juiz e redentor”. Neste sentido, o evangelho nunca é o hospede de uma universidade, porque ele é sempre o juiz.
A doutrina da encarnação
Para que isso possa acontecer, precisamos ter conhecimento da doutrina da encarnação. E ela ensina duas coisas:
1. Deus é Senhor: Quando Deus quis revelar algo de si sobre a humanidade de uma maneira mais sublime, Ele o fez por meio da encarnação. Deus se tornou homem. Tornou-se carne. Isto significa que Deus participou de nossa realidade. Precisamos nos inspirar na doutrina da encarnação. Se queremos influenciar a universidade, não podemos vê-la como inimiga da fé. Precisamos participar, nos engajar. Em outras palavras, estou dizendo que aproveite o que você esta fazendo e seja o melhor juiz, o melhor biólogo. Faça o melhor curso. O que mais precisamos hoje é de referências na universidade. Enquanto não tivermos, seremos sempre considerados uma subclasse.
2. Não apenas devemos participar, mas também comunicar o evangelho: Jesus comunicou o evangelho em nossa linguagem. Você acha que o evangelho chegaria até nós se Ele não assumisse a humanidade? Ele precisou ser como nós para que pudéssemos, a partir de sua humanidade, entendermos o que Ele queria comunicar a nós. Existem varias linguagens. Filosófica, biológica, psicológica, e podemos comunicar através dessas linguagens. O maior desafio, então, é como podemos usar essa linguagem e comunicar com ela essa visão de mundo que o evangelho nos dá.
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Talvez a maior dificuldade seja, no fundo, o seu pastor. Precisamos encontrar pessoas que entendam nosso dilema, a tensão que enfrentamos em todas as áreas do saber, e que possam nos tutorear. Qualquer ministério que, de alguma forma, esteja presente na universidade, tem condições de fazer isso.
Que a mensagem de hoje te anime a mergulhar nos seus estudos, sabendo que eles podem glorificar a Deus ainda que eles sejam um monte de números.
Publicado em: http://tuporem.org.br/o-senhorio-de-cristo-no-contexto-universitario/
Intercâmbio feito por Walber Arruda

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Cosmovisão Cristã: Um Breve Resumo

Cosmovisão significa basicamente “visão ou concepção de mundo” o que seria uma das possíveis traduções da palavra alemã weltanchauun. Inicialmente a cosmovisão era entendida como a capacidade humana de perceber a realidade sensível (definição de Immanuel Kant), e estava vinculada unicamente a grande sistemas metafísicos e construções teóricas da cultura, mas o significado de weltanchauun foi sendo ampliado, ao ponto de reconhecer-se hoje nos estudos da sociologia do conhecimento que a cosmovisão não somente precede a reflexão teórica mas também a condiciona. Em resumo, a nossa cosmovisão é um conjunto de valores pré-teóricos, a fonte primária de todas as nossas reflexões, a origem de todos os pressupostos científicos, artísticos e culturais. É nesta perspectiva que diversos pensadores protestantes desenvolveram seus estudos, como por exemplo, Abraham Kuyper, James Orr e Dooyeweerd.

Kuyper foi inclusive o mentor do movimento neocalvinista, exercendo de forma prática e admirável suas ideias de cosmovisão, sendo parlamentar, fundando um partido, assim como uma universidade, um jornal e chegando até mesmo ao cargo de primeiro ministro da Holanda, além de ser ministro da Igreja Reformada da Holanda. Este homem notável desenvolveu brilhantemente a concepção de que o Cristianismo nos moldes da doutrina calvinista se revela como um verdadeiro sistema completo de vida, assim como também esposou outras questões bastante interessantes como a noção de que todo homem é fundamentalmente religioso e que a criação deve ser regida mediante as esferas de soberania.

A cultura, entendida como tudo aquilo que é produzido e partilhado pelos homens de uma determinada sociedade, é reflexo das cosmovisões subjacentes no contexto em que é gerada. As crenças fundamentais do indivíduo serão delineadas em todas as suas manifestações culturais, sendo revelada basicamente através de algumas questões essenciais que dizem muito a respeito de sua cosmovisão, como por exemplo: qual a origem da vida ou a finalidade desta, ou ainda, como podemos saber o que é certo ou errado?

A título de exemplificação, Fabiano de Almeida Oliveira cita algumas ilustrações para auxiliar na visualização da relação entre a cosmovisão e a cultura, dentre elas a figura de uma construção onde a cosmovisão é um alicerce, contendo os compromissos de fé, as crenças e os valores, e a imagem de um iceberg, onde se identifica uma pequena camada de gelo visível (cultura, moralidade, ciência, artes), mas no fundo, de modo submerso encontra-se a dimensão tácita da cosmovisão (nossas percepções pré-teóricas).

Esta “camada submersa” em nosso interior é divida em duas partes: a mais profunda, que é a dimensão sócio religiosa central ou espiritual e a segunda, mais próxima da superfície, a dimensão psíquico-social. A camada mais profunda é identificada nas escrituras como o coração do homem, de onde provem todos os seus impulsos (Pv 4.23), e partindo de pressupostos bíblicos é preciso compreender que não existe neutralidade nesta dimensão: o coração do homem é sempre religioso, a grande questão é se ele está voltado para Deus ou se ainda está afetado pelos efeitos pecaminosos da queda em franca rebelião, entregue a desejos apostatas e idólatras. A segunda camada é resultante das experiências psíquicas e sociais acumulados ao longo da vida, desde as menores idades no seio familiar até a relação com agrupamentos sociais mais complexos ao longo da vida. Desta forma a uma soma de duas dimensões no ser humanos, uma mais básica que envolve os impulsos religiosos mais primários de seu coração e outro construída socialmente.

No entanto nossas cosmovisões não ficam estagnadas ou isoladas em nosso interior, muito pelo contrário, elas são constantemente compartilhadas com outros, assim como também somos influenciados por terceiros, em um processo de síntese. Este intercâmbio de valores e informações se inicia nos agrupamentos mais básicos e próximos, mas como numa reação em cadeia, este compartilhamento alcança níveis locais, regionais e até mesmo globais, formando assim o que denomina de espírito de uma época ou Zeitgest. E este é um processo de retroalimentação, os indivíduos influenciam a criação da cosmovisão global e também são influenciados por elas.

Ocorre que este movimento dinâmico de formação e propagação de cosmovisões não se dá de forma aleatória e desinteressada. O fluxo contínuo de percepções e valores de uma sociedade é direcionado por uma rede de interesses através de vários mecanismos que vão desde a educação familiar até mesmo a legislação e produções culturais. E nesta perspectiva é importante ressaltar que algumas cosmovisões são alijadas do processo de compartilhamento, por não se enquadrarem nos critérios daquilo que a sociológica chama de estrutura de plausibilidade, ou seja, os valores escolhidos e defendidos pelos interesses sociais majoritários.

Neste sentido importa elencar os mecanismos utilizados para anular as cosmovisões rejeitadas pela estrutura de plausibilidade: a absorção, que consiste na síntese da cosmovisão minoritária que tem seus valores diluídos e por fim completamente absorvidos; a cristalização que ocorre quando há um isolamento daqueles valores, que passam a ser consideradas peças de um museu, e ainda que continuem a existir são nulas em influência; e por fim a marginalização através de um comportamento ostensivo e hostil contra esta cosmovisão.

A cosmovisão cristã é fundada nos pressupostos bíblicos e é revelada inicialmente em um coração regenerado que não mais está em rebelião contra Deus, mas direciona todos os seus esforços na glorificação de nome, propósito de nossa existência. Assim há uma transformação completa neste individuo, que passa moldar-se a imagem de Cristo e guardar a palavra no coração para não pecar contra Deus (Salmo 119:11), que significa moldar toda a sua cosmovisão de acordo com os princípios bíblicos, resumidamente compreendidos através do tripé Criação-Queda-Redenção.

Em termos gerais, a cosmovisão cristã percebe que tudo que Deus criou é bom e foi criado com o propósito de glorificar a Deus , sendo ele a fonte de toda a vida, além de mantedor de todas as coisas e única fonte de todo o conhecimento. No entanto a queda trouxe efeitos catastróficos para os nossos corações assim como para toda a criação, de modo que em toda produção cultural há um direção apostata, idolatra, que revela rebelião contra o Criador. Mas a história não termina ai. Através da redenção em Cristo Jesus o cristão deve continuar a exercer o seu mandato cultural, “redimindo” a cultura ao seu redor, combatendo os reflexos de pecado e reforçado aquilo que é fruto da graça comum de Deus que ainda permanece no mundo caído, sempre na certeza que Cristo, e somente ele, irá concluir esta obra na sua volta.

Compreendendo que não pode se abster de sua tarefa, pois o mandato cultural é uma ordem cosmológica, ou seja, quer queira ou não o homem sempre vai desenvolver uma cultura, o cristão deve empenhar-se em ter uma boa base bíblica, a fim de ter uma cosmovisão sadia, e posteriormente um conhecimento sólido também em sua área de atuação, com o objetivo de compreender as cosmovisões presentes no seu oficio, arte ou ciência, e assim combater os valores contrários á palavra de Deus e labutar no sentido de solidificar os pontos de uma graça comum e fortalecer os princípios de uma cosmovisão biblicamente orientados. Esta é uma tarefa de todos: o biólogo, o químico, o artista, o jurista, o técnico em informática, o pais na educação dos filhos, o professor, etc.

Por fim, com base em tudo que foi visto, é necessário combater também uma falácia de nosso tempo que nos induz a ter uma fé privada que não tem implicações públicas, um mero sentimento religioso. Isto é impossível de se realizar, haja visto que todo homem é religioso, ainda que este impulso se revele na forma de rebelião. A religião neste caso não é compreendida apenas como uma manifestação socialmente determinada, como a liturgia, o culto, mas sim como a nossa confiança última, o alvo mais profundo de nossa devoção, o alvo de nosso mais firme e resoluto envolvimento e entrega. O incrédulo que não tem Deus como foco e alvo de sua devoção se coloca como seu próprio ídolo, e utiliza sub-ídolos para auxiliar seu culto auto-centrado (ideologia, dinheiro, poder, sexo, amor), no entanto até o mais convicto ateu tem em si uma motivação fundamental religiosa em seu coração, que direciona toda a sua cosmovisão.


Deste modo, devemos rejeitar o isolamento de nossa fé, pois não existe posição de neutralidade religiosa, e nossa cosmovisão deve ter espaço nas discussões públicas e produção cultural. Precisamos resistir às formas com que a estrutura de plausibilidade de nossa sociedade decaída tem usado para eliminar a cosmovisão bíblica, como a secularização e a confrontação ostensiva de nossos valores, através dos meios de comunicações e até dos movimentos acadêmicos e culturais. Isto é uma tarefa de todos nós. Que Deus nos dê graça para cumprir nossos mandatos culturais!

Rodrigo Ribeiro

Este texto é um resumo do módulo COSMOVISÃO CRISTÃ da Especialização em Estudos Teológicos do Andrew Jumper, ministrado pelo Prof. FABIANO DE ALMEIDA OLIVEIRA, de modo que o material produzido por este professor para o curso supracitado foi a base deste reflexão.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

UMP Indica: Calvinismo, de Abraham Kuyper


É com certo atraso que indicamos este livro, Calvinismo de Abraham Kuyper,, em decorrência da grande influência que os escritos deste autor holandês tiveram nos primeiros artigos deste blog, em especial nos que envolviam a temática graça comum.

Abraham Kuyper, além de teólogo, foi jornalista e primeiro-ministro da Holanda, pelo partido antirrevolucionário, entre os anos de 1901 e 1905. Este livro contém o conteúdo completo de suas palestras proferidas na Universidade e Seminário de Princeton, em 1898.

A tônica das palestras gira em torno de uma assertiva: a cosmovisão reformada, calvinista, dá o suporte necessário para que os cristãos tenham uma sólida filosofia de vida que envolva e influencie todas as áreas da existência humana.

Esta é uma ótima leitura para quem deseja conhecer mais a respeito da “teoria das esferas de soberania” desenvolvida por estre brilhante autor, que o ajudará a compreender a supremacia de Cristo de forma mais ampla, sendo demostrada especificamente na religião, nas ciências, nas artes, na política e na visão do futuro. Fortaleça sua cosmovisão cristã, com este edificante livro!


Rodrigo Ribeiro
@rodrigolgd

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Deus, o Criador da mais bela obra de arte!


Ao viajar pelo interior da Paraíba com um grupo de amigos, em determinado momento de nosso percurso, nos deparamos com uma bela paisagem, a qual palavra alguma escrita neste texto poderá trazer a real dimensão de sua beleza. Olhar até o fim do horizonte e só perceber o verde, a vegetação ainda resguardada do asfalto e do concreto, a brisa suave que sopra sem que seja atrapalhada por prédio algum e o suave calor do sol que parecia acariciar nossa pele, nos faz crer que não há como não notar o agir do Criador nesta cena tão simples, porém linda e repleta de significado.

Por mais belas e excelentes que sejam as obras de artes que os homens se proponham a fazer, jamais alcançaram o esplendor da criação de nosso Deus.  A vigorosa e inexplicável obra de Arte da criação, a natureza, está posta para todos os homens, indiscriminadamente, ensinamento explícito nas santas escrituras: “porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” [1]. Em outra passagem também, observamos Paulo afirmando ao povo de Listra que Deus: nas gerações passadas, permitiu que todos os povos andassem nos seus próprios caminhos; contudo, não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria [2]. Assim sendo, classificamos os elementos naturais como frutos da graça comum, já vistos em outro texto deste blog.

Tal beleza estando às vistas de todos, é certo que muitos acabam revelando aspectos desta beleza em suas obras, como músicas, artes plásticas e poemas. Destaco uma dessas produções como exemplo, o bastante notório poema Canção do Exílio de Gonçalves Dias, da qual transcreverei um trecho:

"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores. [3]

Nestes versos, o poeta exalta as qualidades naturais de sua pátria, quando estava distante, em Portugal, revelando traços marcantes da escola literária do Romantismo, como o ufanismo, a nostalgia e o valor dado à natureza. A verdade está presente nesta obra quando ela valoriza os belos atributos naturais que descreve. Deus se revela através da natureza, e essa é a revelação geral que alcança a todos e faz-se refletir nestas composições, assim como em várias outras, haja vista “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” [4]. Este é um dos motivos que tornam os homens indesculpáveis diante Dele.

Entretanto, tais visões são limitadas, ainda que belas. A graça comum que os inspira, não é suficiente para apreender todo o significado da criação, esta só é completamente entendida através da graça salvadora. Por isso, apesar de lindas, as descrições citadas não alcançam o potencial da beleza divina, pois o desconhecem. Apontam em uma direção que eles próprios não sabem onde vai dar, entretanto os eleitos de Deus o sabem, pois apontam para a glória manifesta do próprio criador do universo. Enquanto as manifestações inspiradas pela graça comum são parciais, e muitas vezes apontam até para caminhos distorcidos, como o panteísmo, muito presente no Romantismo, segundo alguns críticos literários, a graça salvadora nos remete ao significado amplo e completo da natureza. Podemos notar isto claramente no relato do salmista, que entende a quem pertence tais belezas naturais: “Porque o SENHOR é Deus grande, e Rei grande sobre todos os deuses. Nas suas mãos estão as profundezas da terra, e as alturas dos montes são suas. Seu é o mar, e ele o fez, e as suas mãos formaram a terra seca “ [5].

É nosso dever e privilégio, como filhos alcançados pela graça de nosso Pai, contemplar e valorizar a beleza de sua criação, e jamais renega-la ou tornamo-nos indiferentes a ela, como se isso não fosse importante. Abraham Kuyper, no livro Calvinismo, afirma categoricamente que a Glória de Deus não é antagônica à salvação, pois “certamente a nossa salvação é de valor substancial, mas não pode ser comparada com o valor muito maior da glória de nosso Deus, que tem revelado sua majestade em sua maravilhosa criação” [6]. Ressalta ainda que uma concepção dualista da regeneração também é um equivoco, posto que a obra redentora não se limita a salvação individual, mas abrange toda a criação, e jamais poderemos contemplar de modo exclusivo as coisas celestiais, e abandonar o mundo da criação de Deus.

Por fim, retorno a lembrança inicial do momento que tive no último fim de semana, e compartilho mais uma reflexão que fizemos naquele momento singelo, mas muito especial preparado por Deus para nós: se Deus fez tão belas as coisas que são passageiras, imagine o quanto será lindo aquilo que ele tem preparados para nós na eternidade? Louvado seja o nome deste Deus tão maravilhoso para todo o sempre!

Rodrigo Ribeiro
@rodrigolgd


Citações:
[1]MATEUS: In: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. Barueri, São Paulo, 1993. O Evangelho segundo Mateus, capítulo 5, versículo 45. 855p.

[2]PAULO: In: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. Barueri, São Paulo, 1993. Atos dos Apóstos, capítulo 4, versículos 16 e 17. 989p.

[3]DIAS, Antônio Gonçalves. Poemas de Gonçalves Dias. São Paulo: Cultrix, 1968.

[4]DAVI: In: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. Barueri, São Paulo, 1993. O Livro dos Salmos, capítulo 19, versículo 1. 518p.

[5]DAVI: In: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. Barueri, São Paulo, 1993. O Livro dos Salmos, capítulo 93, versículo 3 a 5. 561p

[6]KUYPER, Abraham; O Calvinismo - Tradução por Ricardo Gouveia e Paulo Arantes. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, 126 p.


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Graça Comum: Deus é o maestro que criou e que rege toda a sinfonia da criação!


Bem sabemos que depois da queda, o homem foi dominado pelo pecado(Rm 3.23), tornando-se escravo de suas próprias paixões e morto espiritualmente, sendo esta a doutrina já discutida aqui em outro texto, a Depravação Total. No entanto, tal perspectiva nos deixa diante de um sério dilema: em meio à tamanha corrupção espiritual, como pode haver uma sociedade ordenada com princípios éticos, e relações de afeto? Como as estruturas da sociedade não foram devoradas pelo desejo insano do coração dos homens? A resposta dada pelo Calvinismo é só uma: a graça comum de Deus.

Essa questão me foi esclarecida durante a leitura do excelente livro Calvinismo de Abraham Kuyper, teólogo holandês do século passado, onde ele afirma que assim como o homem domestica os animais, e prende ou controla seres selvagens, assim também Deus limita a maldade dos homens, extraindo até mesmo o bem do mal, para que se preserve a criação, entendido neste conceito não somente as coisas naturais, mas também toda a criação intelectual que também vem Dele.

É tal pensamento que nos explica a retidão moral de alguns incrédulos, que apesar de caídos espiritualmente, tem uma conduta séria e comprometida com suas causas, ao ponto de causar admiração. Isto nada mais é do reflexo da graça comum de Deus, que é a interferência mínima Dele para garantir que o mundo não seja destruído pelos corações pecaminosos dos homens. Esta graça é diferente da especial, sendo esta a que conduz a salvação por colocar a fé no caminho do escolhido.

A graça comum é um conceito rico e que nos dá amplas possibilidades de contemplação por caminhos muitas vezes negligenciados por separações equivocadas que foram construídas com base em premissas erradas, como a separação do sagrado e do profano. Neste mesmo livro, Kuyper prega que a cosmovisão calvinista, que nada mais é que a exposição clara e fiel das Santas Escrituras, deve permear todas as esferas do conhecimento humano, e restringir este pensamento ao ciclo religioso, como temos feito, acaba o isolando e entregando as ciências, a política e as artes nas mãos das vãs filosofias, deixando de lado uma ótima oportunidade de glorificar a Deus através destas áreas da convivência humana.

Paulo afirma em colossenses que: “Pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. E ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste.” [1] Assim, é uma posição falha o isolacionismo do pensamento cristão que deve abranger com completude o ser humano, já que tudo foi feito por Deus e tem como fim Cristo. Muda-se o paradigma: não me afasto do mundo, mas somente daquilo que é pecaminoso nele..

Mas, dentro do campo vasto onde podemos notar o agir de Deus em lugares onde dogmas infundados nos impediam de ver, gostaria de limitar a análise e me deter na questão da arte, citando o também holandês Hans Rookmaaker, e sua defesa de que a arte não precisa de justificativa: Assim, a arte deve abrir os olhos das pessoas, ou servir como decoração, ou louvor, ou ter uma função social, ou expressar uma filosofia em particular.  A arte não precisa de desculpas.  Ela possui seu próprio significado que não precisa ser explicado, assim como o casamento ou o próprio ser humano, ou a existência de um pássaro ou flor ou montanha ou mar ou estrela.  Todos eles detêm um significado porque Deus os criou.  Seu significado é que foram criados por Deus e são por Ele sustentados.  Assim, a arte tem sentido como arte porque Deus considerou bom dar arte e beleza à humanidade. [2]

Esta conclusão é bela e instigante: a graça comum de Deus nos agraciou, em meio a tanta corrupção, com a beleza da arte. Ao visitar o museu da língua portuguesa em São Paulo, não pude ter outra afirmação em mente se não esta, e vi verdades eternas em muitas obras de homens que não a conheciam, e esta é a beleza do agir de Deus como maestro na criação, se revelando até mesmo através daqueles que não o conhecem. Este texto é na verdade uma introdução a uma série que pretendo fazer nos próximos meses, analisando sob a ótica da graça comum concepções em canções e poesias sobre a criação, a morte, o amor, o sentido da vida e etc. Além de introduzir, este artigo também nos dará o aporte teórico para esta viagem. Aguardo sugestões para incrementar este trabalho, com indicações de até mesmos outras manifestações artísticas como artes plátiscas e cinema, assim como temáticas para serem tratadas. Termino com um nítido exemplo de verdade de Deus que brota fora dos celeiros eclesiásticos:

Três âncoras deixou Deus ao homem: o amor da pátria, o amor da liberdade, o amor da verdade.
Cara nos é a pátria, a liberdade mais cara; mas a verdade mais cara que tudo. Patria cara, carior-Libertas, Veritas carissima. Damos a vida pela pátria. Deixamos a pátria pela liberdade. Mas pátria e liberdade renunciamos pela verdade. Porque este é o mais santo de todos os amores. Os outros são da terra e do tempo. Este vem do céu, e vai à eternidade. (Rui Barbosa) [3]


Jesus Cristo é a verdade!
Deus vos abençoe!

Rodrigo Ribeiro
@rodrigolgd

 Citações:
[3]PAULO: In: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. Barueri, São Paulo, 1993. Epístola aos Colossenses, capítulo 1, versículo 16 e 17. 1060p. 
 [2] H. R. Rookmaaker, Modern Art and the Death of a Culture, 2nd ed. (Londres: Inter-Varsity Press, 1973), 229-30.
[3] BARBOSA, Rui.  A inprensa e o dever da verdade. São Paulo: Com-Arte; Editora da
Universidade de São Paulo, 1990, 80 p. (Clássicos do Jornalismo Brasileiro; 2)